No século XVIII, o cristianismo protestante enfrentava uma crise de vitalidade. Na Inglaterra, a Igreja Anglicana havia se tornado formal e nominal — seus ministros eram frequentemente mais interessados em preferências políticas que em almas. Na América, o fervor dos primeiros colonos puritanos havia esfriado em segunda e terceira gerações. O racionalismo iluminista questionava verdades sobrenaturais, e o deísmo atraía intelectuais. Para muitos, a fé cristã parecia ter perdido seu poder transformador.
Mas Deus estava preparando um movimento de renovação espiritual que varreriam o mundo anglo-saxão e eventualmente transformaria o cristianismo global. Este movimento começou com dois irmãos anglicanos em Oxford — John e Charles Wesley — cujo "metodismo" enfatizava santidade pessoal, experiência do coração aquecido, e organização sistemática. Fluiu através de avivamentos sucessivos que abalaram a América — o Primeiro Grande Despertar, o Segundo Grande Despertar, e movimentos de santidade que seguiram. E culminou, no início do século XX, em explosão pentecostal que seria o desenvolvimento mais significativo no cristianismo desde a Reforma Protestante.
Esta é a história de como o cristianismo redescobriu experiência — não apenas assentimento intelectual a doutrinas, mas encontro transformador com Deus que aquece o coração, santifica a vida, e eventualmente, para pentecostais, manifesta-se em línguas, curas e milagres. É a história de como a ênfase em experiência pessoal com Deus, iniciada pelos Wesley e avivadores, preparou o terreno teológico e experiencial para o movimento pentecostal que transformaria o cristianismo no século XX.
John Wesley: O Coração Aquecido (1703-1791)
Criação Anglicana e Busca Espiritual
John Wesley nasceu em 17 de junho de 1703, em Epworth, Inglaterra, décimo quinto filho do reverendo anglicano Samuel Wesley e sua esposa Susanna. A família era intensamente religiosa — Susanna dedicava hora específica cada semana para instrução espiritual individual de cada filho, um ato notável para mãe de 19 crianças.
Em 1720, Wesley entrou para Oxford, onde se destacou academicamente e foi ordenado diácono anglicano em 1725, depois presbítero em 1728. Em Oxford, ele juntou-se ao "Clube Santo" (Holy Club), pequeno grupo organizado por seu irmão mais novo Charles em 1729. Os membros praticavam disciplinas espirituais rigorosas: orações diárias em horários fixos, comunhão semanal, jejum regular, estudo bíblico sistemático, visitas a prisioneiros e pobres.
Colegas zombavam deles como "metodistas" por seu método sistemático de piedade — um termo de escárnio que paradoxalmente tornar-se-ia nome honroso de movimento global. George Whitefield, que se tornaria o maior pregador do século XVIII, juntou-se ao clube e formou amizade duradoura com os Wesley.
Missão na Geórgia: Fracasso Formativo
Em 1735, John e Charles Wesley navegaram para Geórgia como missionários para colonos ingleses e nativos americanos. A viagem provou-se formativa de maneira inesperada. Durante tempestade violenta no Atlântico, Wesley ficou aterrorizado pela morte, mas observou grupo de moravianos (protestantes alemães da tradição pietista) cantando salmos calmamente, confiantes em Deus. Sua fé inabalável contrastava vergonhosamente com seu próprio terror.
A missão na Geórgia foi desastre. Wesley tentou impor rituais anglicanos rígidos sobre colonos de fronteira que os achavam irrelevantes. Seu caso amoroso malsucedido com Sophia Hopkey, seguido pela recusa dele em dar-lhe comunhão após ela casar-se com outro, causou escândalo e quase levou a processo legal. Em dezembro de 1737, Wesley fugiu de volta para Inglaterra, sentindo-se um fracasso completo.
Ele registrou em seu diário: "Fui à América para converter os índios; mas, oh, quem converterá a mim?"
24 de Maio de 1738: A Conversão de Aldersgate
De volta a Londres, Wesley frequentava reuniões moravianas, buscando a fé experiencial que admirara no navio. Em 24 de maio de 1738, relutantemente compareceu a uma reunião na Aldersgate Street onde alguém estava lendo o prefácio de Lutero à Epístola aos Romanos.
Wesley descreveu o que aconteceu: "Cerca de um quarto para as nove, enquanto ele estava descrevendo a mudança que Deus opera no coração através da fé em Cristo, senti meu coração estranhamente aquecido. Senti que confiava em Cristo, somente Cristo, para salvação; e uma certeza me foi dada de que Ele havia tirado meus pecados, sim, meus, e me salvado da lei do pecado e da morte."
Este "coração estranhamente aquecido" tornou-se marco central do metodismo — conversão não era meramente assentimento intelectual mas experiência transformadora do amor de Deus. Wesley havia descoberto o que pregaria pelos próximos 53 anos: salvação através da fé em Cristo, acessível a todos, confirmada por testemunho interno do Espírito Santo.
Teologia Wesleyana: Graça do Começo ao Fim
A teologia de Wesley, embora firmemente protestante, diferia significativamente tanto do calvinismo quanto do arminianismo clássico:
Graça Preveniente: Antes mesmo de conversão, Deus concede graça que capacita pessoas a responder ao evangelho. Esta graça "previne" ou "antecede" decisão humana, preparando o coração. Contra calvinistas, Wesley insistia que Deus desejava salvar todos, não apenas eleitos predestinados.
Justificação pela Fé: Como Lutero, Wesley enfatizava que somos justificados (declarados justos) unicamente pela fé em Cristo, não por obras. Mas ao contrário de alguns protestantes, ele via justificação como início, não fim, da vida cristã.
Novo Nascimento: Simultaneamente com justificação, crente experimenta regeneração ou "novo nascimento" — transformação espiritual interna que muda fundamentalmente desejos e capacidades.
Santificação: Este foi o distintivo wesleyano. Após conversão, cristãos deveriam crescer em santidade (santificação) através da obra contínua do Espírito Santo, cooperação humana, e meios de graça (oração, estudo bíblico, comunhão, jejum).
Perfeição Cristã: Controversamente, Wesley ensinava que era possível, nesta vida, ser "aperfeiçoado em amor" — não perfeição sem pecado (impossível nesta vida), mas pureza de intenção onde todo pensamento, palavra e ação são motivados por amor a Deus e próximo. Este ensinamento seria central para movimento de santidade posterior.
Pregação de Campo: Escândalo e Salvação
Quando igrejas anglicanas fecharam púlpitos para Wesley (seu entusiasmo era indecoroso), George Whitefield persuadiu-o a pregar ao ar livre para mineiros de carvão em Bristol em abril de 1739. Wesley, stickler anglicano para propriedade, considerava isso quase pecaminoso: "Eu poderia dificilmente reconciliar-me a este estranho modo... tendo sido toda minha vida (até muito recentemente) tão tenaz a cada ponto relacionado à decência e ordem."
Mas pregação de campo provou-se revolucionária. Milhares — trabalhadores, mineiros, pobres urbanos que nunca entrariam em igreja — vinham ouvir. Wesley pregava justificação pela fé, novo nascimento, e santidade de vida com poder convincente. Conversões eram dramáticas e numerosas. Lágrimas corriam por rostos negros de carvão dos mineiros enquanto ouviam que Deus os amava.
Pelos próximos 50 anos, Wesley viajou incessantemente — estimados 250.000 milhas a cavalo, pregando 40.000 sermões, frequentemente três ou mais por dia. Ele organizou convertidos em "sociedades", depois "classes" (pequenos grupos de 12) e "bandas" (grupos ainda menores para responsabilidade mútua). Este sistema metodista de organização — daí o nome — mantinha convertidos conectados, crescendo, e servindo.
Charles Wesley: O Poeta do Metodismo
Charles Wesley (1707-1788), irmão mais novo de John, foi igualmente crucial para metodismo através de seus hinos. Ele escreveu mais de 6.500 hinos — aproximadamente 10 por semana durante sua vida adulta! Muitos permanecem centrais ao culto protestante:
- "Hark! The Herald Angels Sing" (Escutai! O Anjo Proclama)
- "Christ the Lord Is Risen Today" (Cristo, o Senhor, Ressuscitou Hoje)
- "Love Divine, All Loves Excelling" (Amor Divino, Supremo Amor)
- "O for a Thousand Tongues to Sing" (Oh! Por Mil Línguas para Cantar)
- "And Can It Be That I Should Gain?" (E Pode Ser que Eu Ganhe?)
Os hinos de Charles ensinavam teologia wesleyana através de poesia e música. Eles celebravam graça livre para todos, transformação do coração, santidade progressiva, e amor apaixonado por Jesus. Metodismo tornou-se movimento cantante — onde calvinistas debatiam predestinação, metodistas cantavam sobre amor de Deus disponível para todos.
O Movimento de Santidade: Buscando Perfeição Cristã (1835-1900)
Origens no Metodismo Americano
O metodismo chegou à América em 1760s e cresceu explosivamente após independência americana. Pregadores itinerantes metodistas — os famosos "cavaleiros de circuito" (circuit riders) — levaram evangelho para fronteira em expansão. Metodismo tornou-se maior denominação protestante americana em meados do século XIX.
Mas sucesso trouxe perigos. Metodismo tornou-se respeitável, socialmente aceitável, até confortável. A ênfase de Wesley em santidade experimental foi, para alguns metodistas, diluída em moralismo respeitável. Revivals camp-meeting nas fronteiras continuaram produzindo conversões dramáticas, mas o fervor inicial parecia esfriar.
Phoebe Palmer: Promotora da Santidade
Phoebe Palmer (1807-1874), metodista leiga de Nova York, tornou-se líder central do movimento de santidade. Por quarenta anos, ela liderou reuniões semanais de terça-feira em sua casa onde centenas (incluindo clero e bispos) vinham buscar experiência de santificação completa.
Palmer ensinava que santificação completa ou "perfeição cristã" não era aspiração distante mas bênção imediata disponível através de consagração completa a Deus e fé. Ela desenvolveu teologia do "altar" baseada em Êxodo 29:37: "o altar santifica a oferta." Se crente colocava tudo no "altar" (consagração total), Deus imediatamente santificava a oferta.
Palmer também enfatizava testemunho público da experiência de santificação. Ela mesma testemunhou publicamente em 1837, ato ousado para mulher na época. Seu exemplo empoderou mulheres para ministério público — ela defendeu pregação feminina baseada em Joel 2:28-29 ("vossos filhos e vossas filhas profetizarão").
Seus livros, especialmente The Way of Holiness (1843), venderam centenas de milhares de cópias. Palmer viajou extensivamente na América e Inglaterra, pregando santidade para multidões. Ela influenciou profundamente tanto metodismo quanto nascente movimento pentecostal.
Charles Finney: Avivamento e Santificação
Charles Finney (1792-1875), advogado convertido que se tornou evangelista presbiteriano/congregacional, trouxe nova metodologia a avivamentos. Ao contrário de calvinistas que esperavam Deus soberanamente enviar avivamento, Finney argumentava que avivamento era resultado de uso correto de meios apropriados — pregação fervorosa, "banco dos ansiosos" (anxious bench) para investigadores, reuniões prolongadas, música emocional.
Seus avivamentos urbanos em Rochester (1830-1831) e outras cidades produziram milhares de conversões. Finney também enfatizava santificação — não perfeição sem pecado mas "obediência inteira" à vontade conhecida de Deus. Seu livro Lectures on Revivals of Religion (1835) tornou-se manual para evangelistas, ensinando que avivamento poderia ser produzido através de técnicas certas.
Embora controverso (calvinistas odiavam sua teologia arminiana e métodos manipulativos), Finney moldou evangelicalismo americano profundamente. Sua ênfase em decisão humana, experiência emocional, e busca de santidade preparou terreno para movimento de santidade.
Camp Meetings e Avivamentos de Fronteira
Nas fronteiras americanas, cristianismo assumiu formas distintivamente democráticas e experienciais. Camp meetings — encontros prolongados de múltiplos dias ao ar livre onde milhares acampavam — tornaram-se fenômeno característico.
O mais famoso foi Cane Ridge, Kentucky (agosto de 1801), onde estimadas 10.000 a 25.000 pessoas (enorme para época) se reuniram por seis dias. Pregadores metodistas, presbiterianos e batistas pregavam simultaneamente de múltiplos stands. Conversões eram dramáticas e frequentemente acompanhadas por manifestações físicas intensas:
- Falling (queda): Pessoas caíam inconscientes, às vezes por horas
- Jerking (espasmos): Movimentos convulsivos violentos da cabeça e corpo
- Dancing (dança): Dança religiosa espontânea e frenética
- Barking (latido): Sons guturais interpretados como expulsão de demônios
- Laughing (riso): Riso santo incontrolável
- Singing (canto): Canto espontâneo em êxtase
Líderes religiosos debatiam se essas manifestações eram obra do Espírito Santo, entusiasmo emocional, ou histeria em massa. Mas para participantes, eram sinais genuínos de presença divina. Esses fenômenos criaram expectativa de que conversão e santificação deveriam envolver experiências físicas e emocionais dramáticas — expectativa que movimento pentecostal intensificaria.
A Convenção de Santidade Nacional
Em 1867, metodistas preocupados com declínio de ênfase em santidade organizaram Convenção de Santidade Nacional em Vineland, Nova Jersey. O evento atraiu milhares e lançou movimento de santidade interdenominacional.
Conferências anuais de santidade tornaram-se comuns. Literatura de santidade proliferou. Associações de santidade formaram-se. Pregadores de santidade viajavam circuitos, conduzindo "reuniões de santidade" focadas não em conversão inicial mas em "segunda bênção" de santificação completa.
O movimento enfatizava:
- Segunda experiência definitiva: Após conversão, crentes deveriam buscar e receber santificação instantânea completa
- Erradicação do pecado interior: Santificação removia inclinação inata ao pecado (não perfeição sem pecado, mas pureza de motivação)
- Amor perfeito: Coração purificado amava Deus completamente e próximo como a si mesmo
- Poder para testemunho: Santificação capacitava serviço eficaz
- Separação do mundo: Santos viviam distintamente, evitando mundanismo
Divisões Denominacionais
À medida que movimento de santidade crescia, tensões desenvolveram-se com metodismo mainstream que estava se tornando mais liberal teologicamente e menos entusiástico experiencialmente. Muitos líderes de santidade sentiram que denominações estabelecidas haviam abandonado herança wesleyana.
Isso levou à formação de novas denominações de santidade:
Igreja do Nazareno (1908): Fusão de múltiplos grupos de santidade regionais, tornou-se maior denominação de santidade, enfatizando santificação wesleyana e missões globais.
Igreja de Deus (Anderson, Indiana, 1881): Fundada por Daniel Warner, enfatizava santidade e unidade de todos os crentes.
Exército de Salvação (1865/1878): Fundado por William e Catherine Booth na Inglaterra, combinava evangelização, santidade wesleyana, e ministério social agressivo aos pobres urbanos. Organizado militarmente com uniformes, bandas, e linguagem militar.
Aliança Cristã e Missionária (1887): Fundada por A.B. Simpson, presbiteriano que abraçou santidade e cura divina, ênfase em missões globais e "Cristo quádruplo" (Salvador, Santificador, Curador, Rei vindouro).
Essas denominações prepararam estruturas organizacionais, teologia de "segunda bênção", e expectativa de experiências espirituais dramáticas que facilitariam eventual expansão pentecostal.
Keswick e Santidade Reformada
Nem todo movimento de santidade era wesleyano. Tradição reformada (calvinista) desenvolveu sua própria versão através do movimento Keswick.
Convenções de Keswick (1875-)
Convenções de Keswick na Lake District inglesa começaram em 1875, oferecendo ensinamento sobre "vida superior" (higher life) ou "vida vitoriosa" (victorious life). Ao contrário de wesleyanos, ensinamento Keswick não via santificação como erradicação de natureza pecaminosa mas como "vida cheia do Espírito" onde crentes podiam viver em vitória sobre pecado conhecido.
Pregadores Keswick ensinavam:
- Duas classes de cristãos: "carnais" e "espirituais"
- Necessidade de "consagração" e "rendição" completas
- "Encher do Espírito" como chave para vida vitoriosa
- Santificação como processo, não evento único instantâneo
Enquanto teologia diferia de wesleyanos, experiência era similar — busca de encontro transformador com Deus além de conversão inicial, resultando em poder para vida santa e serviço eficaz.
D.L. Moody: Evangelista e Encher do Espírito
Dwight L. Moody (1837-1899), evangelista mais famoso da América do século XIX, foi profundamente influenciado por ensinamento de santidade. Em 1871, após conversação com duas mulheres metodistas de santidade, Moody buscou e experimentou "encher do Espírito" que transformou seu ministério.
Ele descreveu: "Foi uma maravilhosa experiência... Posso somente dizer que Deus revelou-se a mim, e eu tive tal experiência de Seu amor que tive que pedir-Lhe para reter Sua mão."
Após esta experiência, pregação de Moody ganhou poder dramático. Seus avivamentos em Chicago, depois América e Grã-Bretanha, alcançaram milhões. Embora não wesleyano, Moody enfatizava necessidade de poder espiritual além de conversão — tema que ressoaria profundamente com futuros pentecostais.
Restauracionismo e Primitivismo: Voltando a Atos
Paralelo a movimentos de santidade, corrente restauracionista no protestantismo americano buscava restaurar cristianismo do primeiro século, especialmente igreja primitiva descrita em Atos.
Movimento de Restauração (Discípulos de Cristo)
Barton Stone e Alexander Campbell, no início do século XIX, lideraram "Movimento de Restauração" rejeitando denominacionalismo e buscando restaurar cristianismo do Novo Testamento. Seu slogan era "Nenhum credo mas Cristo, nenhum livro mas a Bíblia, nenhum nome mas o nome cristão."
Embora focado principalmente em organização eclesiástica e ordenanças (batismo por imersão, comunhão semanal), movimento criou expectativa de que cristianismo do primeiro século — incluindo manifestações do Espírito — poderia e deveria ser restaurado.
Ensinamento sobre Cura Divina
Movimento de santidade cada vez mais enfatizava cura divina como parte da expiação. A.B. Simpson articulou visão de "Cristo quádruplo": Cristo como Salvador (conversão), Santificador (segunda bênção), Curador (cura física), e Rei vindouro (segunda vinda).
John Alexander Dowie estabeleceu "Cidade de Sião" perto de Chicago (1900) como comunidade teocrática onde cura divina era central. Embora Dowie tornou-se megalomaníaco (eventualmente proclamando-se Elias), sua ênfase em cura e poder do Espírito influenciou primeiros pentecostais.
Carrie Judd Montgomery, Maria Woodworth-Etter, e outros conduziam campanhas de cura onde milagres eram reportados. Essas reuniões familiarizaram cristãos com expectativa de manifestações sobrenaturais — preparando caminho para pentecostalismo.
Teologia Preparando Pentecostes
No final do século XIX, múltiplas correntes teológicas convergiam, criando expectativa de derramamento maior do Espírito:
Dispensacionalismo e Segunda Vinda
Dispensacionalismo, popularizado por John Nelson Darby e C.I. Scofield, ensinava que história estava dividida em "dispensações" ou eras. Muitos dispensacionalistas acreditavam que mundo estava na "última dispensação" antes do retorno de Cristo.
Isso criou expectativa escatológica urgente — Cristo poderia retornar a qualquer momento. Conferências proféticas tornaram-se comuns. Segunda vinda tornou-se tema obsessivo. Esta urgência escatológica motivaria evangelização pentecostal fervorosa.
"Chuva Serôdia"
Baseado em Joel 2:23 (KJV) que menciona "chuva temporã e serôdia", alguns ensinavam que Pentecostes original descrito em Atos 2 foi "chuva temporã" — primeiro derramamento. Antes do retorno de Cristo, haveria "chuva serôdia" — derramamento final e maior do Espírito restaurando todos os dons carismáticos, incluindo falar em línguas.
Esta interpretação criou expectativa específica de que dons apostólicos (línguas, curas, profecias) deveriam ser restaurados antes da segunda vinda. Quando pentecostalismo explodiu em 1901-1906, muitos viram como cumprimento desta profecia.
Batismo do Espírito Santo
Tanto movimento wesleyano de santidade quanto Keswick reformado enfatizavam experiência pós-conversão de "batismo do Espírito Santo" (wesleyanos) ou "encher do Espírito" (Keswick). Embora interpretassem diferentemente, ambos concordavam:
- Conversão não era suficiente
- Crentes deveriam buscar experiência adicional de poder espiritual
- Esta experiência transformaria vida e ministério
- Frequentemente vinha com emoção intensa e manifestações físicas
A questão que logo dividiria movimento de santidade de emergente pentecostalismo era: qual era o sinal de que alguém havia recebido batismo do Espírito? Santidade dizia: amor perfeito e poder para testemunho. Pentecostais diriam: falar em línguas.
Figuras-Ponte: Do Santidade ao Pentecostal
Certas figuras serviram como pontes entre movimento de santidade e emergente pentecostalismo:
Charles Fox Parham (1873-1929)
Parham, ministro de santidade em Topeka, Kansas, estabeleceu Bethel Bible School em 1900. No dia de Ano Novo de 1901, após estudar Atos, Parham e estudantes concluíram que "evidência bíblica" de batismo do Espírito era falar em línguas. Estudante Agnes Ozman pediu imposição de mãos; ela começou a falar em línguas — primeiro caso documentado na história pentecostal moderna.
Parham desenvolveu teologia de "evidência inicial" — línguas como sinal necessário de batismo do Espírito. Ele estabeleceu escolas bíblicas ensinando esta doutrina, incluindo uma em Houston, Texas, onde William Seymour foi aluno.
Tragicamente, Parham tinha visões racistas (apoiando segregação) e foi acusado de imoralidade em 1907, destruindo sua influência. Mas sua teologia de "evidência inicial" tornou-se distintivo pentecostal central.
William J. Seymour (1870-1922)
Seymour, filho de ex-escravos, foi crucial para expansão pentecostal. Ele frequentou escola de Parham em Houston (sentando no corredor porque Parham não permitia negros na sala). Seymour aceitou teologia pentecostal mas ainda não havia falado em línguas.
Em 1906, convidado para pastorear pequena igreja de santidade em Los Angeles, Seymour pregou que línguas evidenciavam batismo do Espírito. A congregação o expulsou! Mas reuniões em casa na Rua Bonnie Brae experimentaram derramamento poderoso — pessoas falavam em línguas, caíam em transe, profetizavam.
As reuniões mudaram-se para edifício abandonado na Rua Azusa 312. A "Avivamento da Rua Azusa" (1906-1909) tornou-se berço do pentecostalismo global. Milhares vieram — negros, brancos, hispânicos, asiáticos adorando juntos (notável para era de segregação). O movimento espalhou-se globalmente enquanto visitantes levavam "fogo" pentecostal para todos os continentes.
O Palco Montado
Quando Agnes Ozman falou em línguas em 1º de janeiro de 1901, e quando William Seymour liderou avivamento na Rua Azusa em 1906, não eram eventos isolados mas culminação de processo de mais de um século:
O metodismo de Wesley havia enfatizado experiência do coração aquecido, testemunho do Espírito, e busca de santidade. O movimento de santidade desenvolveu teologia de "segunda bênção" — experiência dramática pós-conversão de santificação. Camp meetings de fronteira criaram expectativa de manifestações físicas durante experiências espirituais. O movimento Keswick ensinou "encher do Espírito" para vida vitoriosa. Ensinamento sobre cura divina familiarizou cristãos com expectativa de milagres. Dispensacionalismo criou urgência escatológica. E teologia de chuva serôdia gerou expectativa específica de que dons apostólicos seriam restaurados.
Todos esses fluxos convergiam, criando terreno teológico e experiencial perfeitamente preparado para pentecostalismo. Quando pentecostais proclamaram que Deus estava derramando Seu Espírito com sinal de línguas, milhões de cristãos já condicionados a buscar experiência pós-conversão dramática, manifestações físicas, e poder espiritual sobrenatural responderam entusiasticamente.
O metodismo plantara semente, movimento de santidade a regara, e pentecostalismo colheria safra que transformaria cristianismo global. Da sala em Aldersgate onde Wesley sentiu seu coração aquecido, através de camp meetings na fronteira americana onde milhares caíam sob poder, até Azusa Street onde raças adoravam juntas em línguas, foi jornada de redescoberta — redescoberta da experiência, poder e presença imediata do Espírito Santo que os primeiros discípulos conheceram em Pentecostes.
Quando o movimento pentecostal explodiu globalmente no século XX, não foi anomalia mas culminação lógica de tudo que Wesley, Finney, Moody, Palmer, e incontáveis outros haviam ensinado: que cristianismo não era meramente doutrina mas encontro transformador com Deus vivo através do Espírito Santo. O terreno estava preparado. O palco estava montado. O pentecostalismo estava prestes a mudar o mundo.
Perguntas Frequentes