Por volta do ano 49 d.C., a Igreja Primitiva enfrentou sua primeira grande crise teológica — uma controvérsia que ameaçava dividir o movimento cristão nascente antes mesmo de completar duas décadas de existência.
A questão era explosiva: Gentios podiam se tornar cristãos sem primeiro se tornarem judeus? A circuncisão e a obediência à Lei de Moisés eram necessárias para a salvação?
A resposta a essas perguntas determinaria se o cristianismo permaneceria uma seita judaica regional ou se tornaria uma religião verdadeiramente universal. O Concílio de Jerusalém, reunido para resolver essa disputa, foi um dos eventos mais decisivos da história cristã — talvez o mais importante entre Pentecostes e a queda de Jerusalém em 70 d.C.
Este artigo explora o contexto, os debates, os participantes, a decisão tomada e as consequências desse momento crucial quando a igreja evitou uma divisão global.
O Contexto: Uma Igreja em Transição
O Cristianismo Começou Como Movimento Judaico
Nos primeiros anos após a ressurreição de Jesus, o cristianismo era essencialmente uma seita dentro do judaísmo:
Características iniciais:
- Todos os primeiros discípulos eram judeus
- Reuniam-se no Templo e nas sinagogas
- Observavam a Lei de Moisés
- Circuncisão era prática universal
- Leis alimentares eram mantidas
- Sábado era guardado
Jesus mesmo era judeu, os doze apóstolos eram judeus, e a mensagem inicial focava no cumprimento das promessas feitas a Israel.
A Porta Se Abre Para os Gentios
Mas eventos começaram a mudar esse quadro:
1. Filipe e os Samaritanos (Atos 8)
- Evangelização da Samaria
- Samaritanos eram meio-judeus
- Primeira expansão além do judaísmo puro
2. Pedro e Cornélio (Atos 10)
- Visão do lençol com animais impuros
- "O que Deus purificou, não consideres comum"
- Cornélio (gentio) recebe Espírito Santo
- Pedro defende a experiência em Jerusalém (Atos 11)
3. Igreja de Antioquia (Atos 11:19-26)
- Cristãos dispersos pregam aos gregos
- Grande número de gentios crê
- Primeira igreja predominantemente gentílica
- Discípulos chamados "cristãos" pela primeira vez
4. Primeira viagem missionária de Paulo (Atos 13-14)
- Conversões massivas de gentios na Ásia Menor
- Igrejas estabelecidas sem exigir circuncisão
- Oposição de alguns judeus
O Problema Cresce
À medida que mais gentios aceitavam Jesus, surgiam tensões práticas:
Questões de comunhão:
- Judeus e gentios podiam comer juntos?
- Alimentos "impuros" violavam consciências judaicas
- Diferenças culturais criavam desconforto
Questões teológicas:
- A aliança de Abraão ainda era válida?
- A Lei de Moisés era abolida ou cumprida?
- Gentios eram cristãos de "segunda classe"?
Questões sociais:
- Identidade judaica estava sendo diluída?
- Tradições ancestrais eram irrelevantes agora?
- Como manter unidade com diferenças tão profundas?
A Crise Explode em Antioquia
"Alguns Que Desciam da Judeia"
Atos 15:1 registra o estopim da crise:
"Alguns que desciam da Judeia ensinavam aos irmãos: 'Se não vos circuncidardes segundo o costume de Moisés, não podeis ser salvos.'"
Quem eram esses homens?
- Cristãos judeus de Jerusalém
- Conhecidos como "judaizantes" pelos estudiosos
- Possivelmente conectados ao grupo de fariseus convertidos (Atos 15:5)
- Sinceros em sua convicção, não meros agitadores
Sua argumentação:
- Abraão, pai da fé, recebeu circuncisão como sinal da aliança
- A Lei foi dada por Deus através de Moisés
- Jesus disse não veio abolir a Lei, mas cumprir (Mateus 5:17)
- Como gentios poderiam ser povo de Deus sem o sinal da aliança?
A lógica parecia sólida para judeus que conheciam apenas o judaísmo como religião verdadeira.
A Resposta de Paulo e Barnabé
"Tendo havido Paulo e Barnabé não pequena discussão e contenda com eles..." (Atos 15:2)
A palavra grega para "discussão" (stasis) significa dissensão, conflito, até revolta. Não foi debate educado — foi confronto teológico apaixonado.
Posição de Paulo e Barnabé:
- Gentios eram salvos pela fé em Jesus, não por obras da Lei
- Circuncisão não era necessária para salvação
- O Espírito Santo já havia sido dado aos gentios incircuncisos
- Evidências de conversão genuína eram claras
O impasse era total. A igreja de Antioquia decidiu enviar delegação a Jerusalém para resolver a questão definitivamente.
A Jornada Para Jerusalém
A Delegação
Membros principais:
- Paulo (ex-fariseu zeloso)
- Barnabé (levita de Chipre)
- Outros da igreja de Antioquia
- Tito - grego incircunciso que Paulo levou intencionalmente como "teste case" (Gálatas 2:1-3)
Relato da Viagem
Atos 15:3 registra um detalhe significativo:
"Eles, pois, sendo acompanhados pela igreja, atravessaram a Fenícia e Samaria, contando a conversão dos gentios; e deram grande alegria a todos os irmãos."
Observações importantes:
- Não foram sozinhos — igreja os acompanhou parte do caminho
- Compartilharam testemunhos de conversões gentílicas
- Reação positiva em Fenícia e Samaria
- Construção de apoio antes do confronto em Jerusalém
O Concílio de Jerusalém (Atos 15:4-29)
Sessão Inicial: Recepção
"Tendo eles chegado a Jerusalém, foram recebidos pela igreja, pelos apóstolos e pelos anciãos, e relataram tudo o que Deus fizera com eles." (Atos 15:4)
Recepção formal indicando importância do encontro. Não foi reunião pequena — "igreja, apóstolos e anciãos" sugere assembleia significativa.
A Oposição Se Manifesta
"Mas alguns da seita dos fariseus que haviam crido se levantaram, dizendo: 'É necessário circuncidá-los e determinar-lhes que observem a lei de Moisés.'" (Atos 15:5)
Detalhes importantes:
- Eram crentes genuínos (não inimigos externos)
- Mantinham identidade farisaica mesmo após conversão
- Usaram verbo forte: "é necessário" (anagkaion — obrigatório, essencial)
- Não apenas circuncisão, mas toda a Lei de Moisés
A Grande Assembleia
"Congregaram-se, pois, os apóstolos e os anciãos para examinar essa questão." (Atos 15:6)
Estrutura do Concílio:
- Reunião formal de liderança
- Apóstolos (testemunhas do ministério de Jesus)
- Anciãos (líderes locais de Jerusalém)
- Aparentemente igreja toda estava presente (v. 12, 22)
Os Discursos Decisivos
1. Pedro: O Testemunho da Experiência (Atos 15:7-11)
Após "grande discussão" (debate acalorado), Pedro se levantou.
Seu argumento em cinco pontos:
Ponto 1: Escolha divina
"Irmãos, vós sabeis que, há muito tempo, Deus me escolheu dentre vós para que por minha boca os gentios ouvissem a palavra do evangelho e cressem." (v. 7)
Referência a Cornélio (Atos 10) — Deus tomou a iniciativa.
Ponto 2: Testemunho do Espírito Santo
"Deus, que conhece os corações, testemunhou a favor deles, dando-lhes o Espírito Santo, assim como também a nós." (v. 8)
O Espírito Santo foi dado antes da circuncisão, não depois. Deus aprovou gentios incircuncisos.
Ponto 3: Igualdade perante Deus
"E não fez distinção alguma entre nós e eles, purificando os seus corações pela fé." (v. 9)
Purificação vem pela fé, não por ritual físico.
Ponto 4: Não colocar jugo insuportável
"Agora, pois, por que tentais a Deus, pondo sobre a cerviz dos discípulos um jugo que nem nossos pais nem nós pudemos suportar?" (v. 10)
Declaração chocante: Pedro admitiu que nem judeus conseguiram guardar a Lei perfeitamente. Exigir isso de gentios seria "tentar a Deus".
Ponto 5: Salvação pela graça para todos
"Mas cremos que fomos salvos pela graça do Senhor Jesus, assim como eles também." (v. 11)
Igualdade radical: judeus e gentios são salvos da mesma maneira — pela graça através da fé.
Impacto do discurso: Pedro, líder reconhecido, figura apostólica preeminente, tomou posição clara ao lado de Paulo. Silenciou a oposição temporariamente.
2. Paulo e Barnabé: O Testemunho dos Sinais (Atos 15:12)
"Então, toda a multidão silenciou e escutava a Barnabé e a Paulo, que contavam quantos sinais e prodígios Deus havia feito por meio deles entre os gentios."
Estratégia narrativa:
- Não argumentaram teologicamente
- Contaram histórias de conversões
- Enfatizaram sinais e prodígios — validação divina
- Deus estava claramente abençoando trabalho entre gentios incircuncisos
Paralelo importante: Assim como sinais em Pentecostes validaram nascimento da igreja judaica, sinais entre gentios validaram expansão para eles.
3. Tiago: O Testemunho das Escrituras (Atos 15:13-21)
Quem era Tiago?
- Irmão de Jesus (Gálatas 1:19)
- Líder da igreja em Jerusalém
- Respeitado por judeus cristãos conservadores
- Conhecido por piedade judaica rigorosa
- Chamado "Tiago, o Justo" por historiador Hegesipo
Sua posição era crucial — se Tiago apoiasse a circuncisão, Paulo perderia.
Estrutura do Discurso de Tiago
Abertura:
"Irmãos, ouvi-me..." (v. 13)
Tom de autoridade — presidente do concílio.
Confirmação do testemunho de Pedro:
"Simão relatou como Deus primeiramente visitou os gentios, a fim de constituir dentre eles um povo para o seu nome." (v. 14)
Usou nome hebraico "Simão" — lembrando todos da autoridade de Pedro.
Fundamento escriturístico:
"Com isto concordam as palavras dos profetas, como está escrito..." (v. 15)
Citou Amós 9:11-12 (Septuaginta):
"Depois disto voltarei e reedificarei o tabernáculo de Davi, que está caído... Para que os demais homens busquem o Senhor, e todos os gentios sobre os quais é invocado o meu nome..." (v. 16-17)
Interpretação de Tiago:
- Profetas antigos previram inclusão dos gentios
- Não como prosélitos judaicos, mas como gentios
- "Todos os gentios sobre os quais é invocado o meu nome" — pertencentes a Deus permanecendo gentios
- Plano de Deus desde a eternidade (v. 18)
A decisão:
"Pelo que, julgo eu que não devemos perturbar os gentios que se convertem a Deus." (v. 19)
Verbo "perturbar" (parenochleo) = causar dificuldade, problemas desnecessários. Circuncisão seria obstáculo, não ajuda.
As quatro recomendações (v. 20):
- "Que se abstenham das contaminações dos ídolos"
- Não participar de cultos pagãos
- Não comer carne sacrificada a ídolos
- "Da imoralidade sexual" (porneia)
- Fornicação, adultério, prostituição
- Prática comum na cultura greco-romana
- Diferenciava cristãos de gentios
- "Do que é sufocado"
- Animais não sangrados adequadamente
- Ofensivo para consciências judaicas
- "Do sangue"
- Não comer sangue
- Mandamento desde Noé (Gênesis 9:4)
- Profundamente importante para judeus
Observação crucial: Essas não eram exigências para salvação, mas concessões para comunhão. Permitiriam judeus e gentios comerem juntos sem violar consciências judaicas.
Justificativa final (v. 21):
"Porque Moisés, desde tempos antigos, tem em cada cidade quem o pregue, sendo lido nas sinagogas todos os sábados."
Significado: Judeus cristãos conheciam a Lei profundamente. Essas concessões honrariam tradições judaicas sem impor todo o sistema legal aos gentios.
A Decisão Oficial (Atos 15:22-29)
Unanimidade
"Então pareceu bem aos apóstolos e aos anciãos, com toda a igreja..." (v. 22)
Decisão unânime — não maioria simples. Consenso alcançado após debate honesto.
A Carta Apostólica
Enviados:
- Judas (chamado Barsabás)
- Silas
- Paulo e Barnabé voltando
Destinatários:
"Aos irmãos dentre os gentios em Antioquia, Síria e Cilícia..." (v. 23)
Conteúdo da carta (resumo):
1. Desautorização dos judaizantes (v. 24):
"Visto sabermos que alguns que saíram do nosso meio, sem nenhuma autorização nossa, vos perturbaram com palavras, transtornando as vossas almas..."
Palavras fortes:
- "Sem autorização" — não falavam pela liderança
- "Perturbaram" — causaram confusão
- "Transtornando" — viraram de cabeça para baixo
2. Aprovação de Paulo e Barnabé (v. 25-26):
"Homens que têm exposto a vida pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo."
Elogio público — legitimação completa do ministério deles.
3. Confirmação pelo Espírito Santo (v. 28):
"Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós..."
Declaração profunda: não foi apenas decisão humana, mas guiada divinamente.
4. As quatro diretrizes (v. 29): Repetição das recomendações de Tiago.
5. Conclusão encorajadora:
"Destas coisas fazeis bem em vos guardar. Passai bem."
Tom pastoral, não legalista.
Recepção em Antioquia (Atos 15:30-35)
Júbilo e Alívio
"Tendo eles sido despedidos, desceram para Antioquia e, havendo reunido a multidão, entregaram a carta. E, quando a leram, alegraram-se pela exortação." (v. 30-31)
Palavra "alegraram-se" (echaresan) — regozijaram-se, ficaram muito felizes.
Por quê?
- Afirmação de sua fé como legítima
- Liberdade da Lei confirmada
- Unidade com Jerusalém mantida
- Temores dissipados
Ministério de Judas e Silas
"Judas e Silas, que eram também profetas, exortaram e confirmaram os irmãos com muitas palavras." (v. 32)
Importância: mensageiros de Jerusalém permaneceram tempo significativo, ensinando e fortalecendo. Não foi apenas entrega de carta e partida.
A Versão de Paulo em Gálatas 2
Paralelo e Complemento
A carta aos Gálatas (escrita por Paulo) oferece perspectiva adicional:
Gálatas 2:1-10 descreve a mesma reunião (provavelmente) com detalhes adicionais:
Detalhes exclusivos de Gálatas:
- Paulo subiu "por revelação" (Gálatas 2:2)
- Não apenas por solicitação da igreja
- Guiado por revelação divina
- Reunião privada com líderes
- "Expus a eles o evangelho que prego entre os gentios, mas em particular aos de reputação"
- Reunião estratégica antes da assembleia pública
- Tito não foi obrigado a circuncidar-se (Gálatas 2:3)
- "Teste case" deliberado
- Vitória simbólica
- "Falsos irmãos" tentaram espionar (Gálatas 2:4)
- Linguagem mais dura que Atos
- Paulo enfatiza oposição
- "Nem por uma hora cedemos" (Gálatas 2:5)
- Paulo enfatiza firmeza deles
- Verdade do evangelho estava em jogo
- Reconhecimento mútuo (Gálatas 2:9)
- Tiago, Pedro (Cefas) e João deram "destra de comunhão"
- Gesto formal de parceria
- Paulo aos gentios, eles aos judeus
- Pedido para lembrar dos pobres (Gálatas 2:10)
- Único pedido adicional
- Paulo já estava fazendo isso
Diferenças de Tom
Atos: Tom diplomático, foco na harmonia alcançada
Gálatas: Tom combativo, foco na firmeza necessária
Por quê?
- Audiências diferentes (Lucas escrevia história; Paulo confrontava erro)
- Propósitos diferentes (Lucas mostrava unidade; Paulo defendia evangelho)
- Complementares, não contraditórios
O Incidente em Antioquia (Gálatas 2:11-14)
A Controvérsia Continua
Mesmo após o Concílio, tensões não desapareceram completamente.
O que aconteceu:
- Pedro visitou Antioquia
- Comia livremente com gentios
- Ignorava leis alimentares judaicas
- "Alguns da parte de Tiago" chegaram
- Provavelmente judeus conservadores de Jerusalém
- Não está claro se Tiago os enviou ou apenas vinham de lá
- Pedro começou a se retirar
- Parou de comer com gentios
- Temeu crítica dos judaizantes
- Outros judeus seguiram Pedro
- Incluindo Barnabé
- Hipocrisia se espalhou
- Paulo confrontou Pedro publicamente
"Resisti-lhe face a face, porque era repreensível." (Gálatas 2:11)
Acusação de Paulo:
"Se tu, sendo judeu, vives como gentio e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus?" (Gálatas 2:14)
Ponto crucial:
- Não era sobre salvação (já resolvido no Concílio)
- Era sobre comunhão prática
- Ações de Pedro negavam evangelho da graça
- Criava "cristãos de segunda classe"
Resultado: Não sabemos como foi resolvido. Mas Pedro e Paulo permaneceram em comunhão (2 Pedro 3:15-16 mostra respeito mútuo).
Significado Teológico do Concílio
1. Salvação Pela Graça, Não Por Obras
Princípio estabelecido:
"Cremos que fomos salvos pela graça do Senhor Jesus, assim como eles também." (Atos 15:11)
Implicações:
- Nenhum rito externo salva
- Fé em Cristo é suficiente
- Obras são resultado, não causa da salvação
- Base da doutrina protestante da justificação
2. Universalidade do Evangelho
Princípio estabelecido: Gentios podiam ser salvos permanecendo gentios.
Implicações:
- Evangelho transcende cultura judaica
- Cristianismo não é judaísmo reformado
- Deus aceita pessoas de todas as nações
- Base para missões mundiais
3. Unidade na Diversidade
Princípio estabelecido: Judeus e gentios eram um em Cristo, mantendo distinções culturais.
Implicações:
- Unidade espiritual não exige uniformidade cultural
- Concessões mútuas para comunhão
- Amor supera diferenças
- Base para igreja multicultural
4. Autoridade Apostólica e Conciliar
Princípio estabelecido: Líderes da igreja podiam se reunir para resolver disputas doutrinais.
Implicações:
- Precedente para concílios futuros
- Decisões coletivas sob guia do Espírito
- Escritura como base de decisões
- Modelo de governança eclesiástica
5. Liberdade Cristã com Responsabilidade
Princípio estabelecido: Liberdade da Lei, mas concessões voluntárias por amor.
Implicações:
- Liberdade não é licença
- Amor limita uso da liberdade
- Consciência dos fracos deve ser respeitada
- Paulo desenvolve isso em Romanos 14-15 e 1 Coríntios 8-10
Consequências Históricas
1. Explosão Missionária
Resultado imediato: Remoção de barreira principal para conversão gentílica.
Números:
- Século I: Dezenas de milhares de cristãos
- Século II: Centenas de milhares
- Século III: Milhões
Se a circuncisão fosse exigida, o cristianismo provavelmente teria permanecido seita judaica pequena.
2. Separação Gradual do Judaísmo
Processo iniciado: Cristianismo começou a ser visto como religião distinta.
Marcos de separação:
- 70 d.C.: Destruição do Templo
- 85-90 d.C.: Bênção contra hereges nas sinagogas
- Século II: Separação completa
3. Formação da Teologia Paulina
Cartas desenvolvendo temas:
- Gálatas — Liberdade da Lei
- Romanos — Justificação pela fé
- Efésios — Unidade em Cristo
- Colossenses — Suficiência de Cristo
Todo o pensamento teológico de Paulo emerge dessa controvérsia.
4. Modelo Para Concílios Futuros
Concílios ecumênicos seguiram padrão similar:
- Niceia (325 d.C.) — Natureza de Cristo
- Constantinopla (381 d.C.) — Trindade
- Éfeso (431 d.C.) — Cristologia
- Calcedônia (451 d.C.) — Duas naturezas de Cristo
Jerusalém estabeleceu precedente.
5. Preservação da Unidade
Fato notável: Apesar de desacordos profundos, a igreja não se dividiu.
Fatores:
- Disposição de ouvir
- Busca de consenso
- Concessões mútuas
- Compromisso com unidade
- Reconhecimento da guia do Espírito
Contraste com eras posteriores: Igreja moderna frequentemente se divide por questões menores. Jerusalém oferece modelo de unidade possível.
Lições Para a Igreja Hoje
1. Evangelho vs. Cultura
Pergunta perene: O que é essencial ao evangelho e o que é cultural?
Lição de Jerusalém:
- Circuncisão = cultural (apesar de bíblica)
- Fé em Cristo = essencial
- Sabedoria para distinguir é necessária
2. Diálogo Honesto é Vital
Observação: Houve "não pequena discussão" (Atos 15:2).
Lição:
- Discordância saudável é permitida
- Debate robusto pode ser piedoso
- Evitar conflito não é sempre virtude
- Verdade importa mais que harmonia superficial
3. Escritura é Árbitro Final
Observação: Tiago citou profetas para fundamentar decisão.
Lição:
- Experiência (Pedro) e razão (Paulo) informam
- Mas Escritura tem palavra final
- Teologia bíblica sólida é necessária
- Não podemos ir além do que está escrito
4. Compromisso Sem Comprometer
Observação: Decisão foi firme no essencial, flexível no periférico.
Lição:
- Nunca comprometer verdades centrais
- Mas fazer concessões práticas por amor
- Sabedoria para distinguir é dom do Espírito
5. Liderança Humilde
Observação: Pedro, Paulo, Tiago e Barnabé trabalharam juntos.
Lição:
- Nenhum líder tem monopólio da verdade
- Disposição para ser corrigido (Pedro)
- Capacidade de ceder (Paulo aceitou as quatro diretrizes)
- Humildade abre caminho para unidade
6. Missão Supera Tradição
Observação: Expansão do evangelho foi priorizada sobre manutenção de costumes.
Lição:
- Tradições humanas não podem obstruir Deus
- Se Deus está movendo, devemos seguir
- Conforto cultural deve ser secundário
7. Unidade é Possível na Diversidade
Observação: Judeus e gentios permaneceram diferentes culturalmente mas unidos espiritualmente.
Lição:
- Igreja multicultural é ideal bíblico
- Diferenças enriquecem, não enfraquecem
- Amor é o que mantém unidade, não uniformidade
O Concílio de Jerusalém foi um dos momentos mais perigosos e também mais gloriosos da história da igreja primitiva. A questão em jogo não era periférica — era existencial: O cristianismo seria uma seita judaica regional ou uma religião universal?
A decisão tomada naquele dia por volta de 49 d.C. abriu as comportas para a expansão global do evangelho. Sem ela:
- Paulo não teria tido suas viagens missionárias
- Igrejas gentílicas teriam sido sufocadas
- Cristianismo teria morrido com a destruição de Jerusalém em 70 d.C.
- Você e eu não seríamos cristãos hoje
O que tornou o Concílio bem-sucedido?
- Disposição para ouvir — Todos os lados foram ouvidos
- Apelo às Escrituras — Base bíblica foi buscada
- Testemunho da experiência — Deus estava claramente agindo
- Humildade de líderes — Ninguém insistiu em estar completamente certo
- Compromisso com unidade — Amor superou diferenças
- Guia do Espírito Santo — "Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós"
A igreja evitou uma divisão global não porque negou a verdade, mas porque discerniu corretamente o que era essencial. Circuncisão não salva. Fé em Jesus Cristo salva.
Esta verdade simples, estabelecida firmemente em Jerusalém, é a base sobre a qual toda a fé cristã se ergue. Somos salvos pela graça, através da fé, não por obras — para que ninguém se glorie (Efésios 2:8-9).
O Concílio de Jerusalém não apenas evitou uma divisão — lançou a fundação teológica que permitiu ao cristianismo se tornar a maior religião do mundo, abraçando pessoas de todas as nações, tribos, línguas e povos.
Naquele dia decisivo, a igreja escolheu graça sobre lei, fé sobre ritual, unidade sobre uniformidade, e missão sobre tradição.
E porque fizeram essa escolha, o evangelho chegou até nós.
Referências Bíblicas Principais
- Atos 15:1-35 — Relato completo do Concílio de Jerusalém
- Gálatas 1:1-2:14 — Perspectiva de Paulo sobre a controvérsia
- Gálatas 3:1-5:12 — Desenvolvimento teológico da justificação pela fé
- Romanos 3:21-4:25 — Fundamentação doutrinária mais completa
- Efésios 2:11-22 — Unidade de judeus e gentios em Cristo
Para Aprofundamento
Livros recomendados:
- "The Apostolic Decree and Its Setting in the Ancient Church" - Markus Bockmuehl
- "Paul and James: A Study of the Relationship between the Two Most Important Leaders of the Early Church" - David Wenham
- "From Jesus to Christianity" - L. Michael White
- "The First Seven Ecumenical Councils (325-787)" - Leo Donald Davis
No Portal Heróis da Bíblia:
- Paulo de Tarso: História e Biografia
- Quem Eram os Fariseus na Bíblia
- Os 12 Apóstolos de Jesus
- Como Nasceu a Igreja Primitiva
- O Mistério do Pentecostes
No App Heróis da Bíblia:
- Timeline da Igreja Primitiva
- Comparação: Atos 15 vs Gálatas 2
- Mapa de Jerusalém no século I
- Quiz sobre o Concílio
Perguntas Frequentes