O Concílio de Jerusalém O Dia Que Salvou o Cristianismo

Dez 2025
Tempo de estudo | 23 minutos
Atualizado em 12/01/2026
Igreja
O Concílio de Jerusalém O Dia Que Salvou o Cristianismo

Por volta do ano 49 d.C., a Igreja Primitiva enfrentou sua primeira grande crise teológica — uma controvérsia que ameaçava dividir o movimento cristão nascente antes mesmo de completar duas décadas de existência.

A questão era explosiva: Gentios podiam se tornar cristãos sem primeiro se tornarem judeus? A circuncisão e a obediência à Lei de Moisés eram necessárias para a salvação?

A resposta a essas perguntas determinaria se o cristianismo permaneceria uma seita judaica regional ou se tornaria uma religião verdadeiramente universal. O Concílio de Jerusalém, reunido para resolver essa disputa, foi um dos eventos mais decisivos da história cristã — talvez o mais importante entre Pentecostes e a queda de Jerusalém em 70 d.C.

Este artigo explora o contexto, os debates, os participantes, a decisão tomada e as consequências desse momento crucial quando a igreja evitou uma divisão global.

O Contexto: Uma Igreja em Transição

O Cristianismo Começou Como Movimento Judaico

Nos primeiros anos após a ressurreição de Jesus, o cristianismo era essencialmente uma seita dentro do judaísmo:

Características iniciais:

  • Todos os primeiros discípulos eram judeus
  • Reuniam-se no Templo e nas sinagogas
  • Observavam a Lei de Moisés
  • Circuncisão era prática universal
  • Leis alimentares eram mantidas
  • Sábado era guardado

Jesus mesmo era judeu, os doze apóstolos eram judeus, e a mensagem inicial focava no cumprimento das promessas feitas a Israel.

A Porta Se Abre Para os Gentios

Mas eventos começaram a mudar esse quadro:

1. Filipe e os Samaritanos (Atos 8)

  • Evangelização da Samaria
  • Samaritanos eram meio-judeus
  • Primeira expansão além do judaísmo puro

2. Pedro e Cornélio (Atos 10)

  • Visão do lençol com animais impuros
  • "O que Deus purificou, não consideres comum"
  • Cornélio (gentio) recebe Espírito Santo
  • Pedro defende a experiência em Jerusalém (Atos 11)

3. Igreja de Antioquia (Atos 11:19-26)

  • Cristãos dispersos pregam aos gregos
  • Grande número de gentios crê
  • Primeira igreja predominantemente gentílica
  • Discípulos chamados "cristãos" pela primeira vez

4. Primeira viagem missionária de Paulo (Atos 13-14)

  • Conversões massivas de gentios na Ásia Menor
  • Igrejas estabelecidas sem exigir circuncisão
  • Oposição de alguns judeus

O Problema Cresce

À medida que mais gentios aceitavam Jesus, surgiam tensões práticas:

Questões de comunhão:

  • Judeus e gentios podiam comer juntos?
  • Alimentos "impuros" violavam consciências judaicas
  • Diferenças culturais criavam desconforto

Questões teológicas:

  • A aliança de Abraão ainda era válida?
  • A Lei de Moisés era abolida ou cumprida?
  • Gentios eram cristãos de "segunda classe"?

Questões sociais:

  • Identidade judaica estava sendo diluída?
  • Tradições ancestrais eram irrelevantes agora?
  • Como manter unidade com diferenças tão profundas?

A Crise Explode em Antioquia

"Alguns Que Desciam da Judeia"

Atos 15:1 registra o estopim da crise:

"Alguns que desciam da Judeia ensinavam aos irmãos: 'Se não vos circuncidardes segundo o costume de Moisés, não podeis ser salvos.'"

Quem eram esses homens?

  • Cristãos judeus de Jerusalém
  • Conhecidos como "judaizantes" pelos estudiosos
  • Possivelmente conectados ao grupo de fariseus convertidos (Atos 15:5)
  • Sinceros em sua convicção, não meros agitadores

Sua argumentação:

  1. Abraão, pai da fé, recebeu circuncisão como sinal da aliança
  2. A Lei foi dada por Deus através de Moisés
  3. Jesus disse não veio abolir a Lei, mas cumprir (Mateus 5:17)
  4. Como gentios poderiam ser povo de Deus sem o sinal da aliança?

A lógica parecia sólida para judeus que conheciam apenas o judaísmo como religião verdadeira.

A Resposta de Paulo e Barnabé

"Tendo havido Paulo e Barnabé não pequena discussão e contenda com eles..." (Atos 15:2)

A palavra grega para "discussão" (stasis) significa dissensão, conflito, até revolta. Não foi debate educado — foi confronto teológico apaixonado.

Posição de Paulo e Barnabé:

  • Gentios eram salvos pela fé em Jesus, não por obras da Lei
  • Circuncisão não era necessária para salvação
  • O Espírito Santo já havia sido dado aos gentios incircuncisos
  • Evidências de conversão genuína eram claras

O impasse era total. A igreja de Antioquia decidiu enviar delegação a Jerusalém para resolver a questão definitivamente.

A Jornada Para Jerusalém

A Delegação

Membros principais:

  • Paulo (ex-fariseu zeloso)
  • Barnabé (levita de Chipre)
  • Outros da igreja de Antioquia
  • Tito - grego incircunciso que Paulo levou intencionalmente como "teste case" (Gálatas 2:1-3)

Relato da Viagem

Atos 15:3 registra um detalhe significativo:

"Eles, pois, sendo acompanhados pela igreja, atravessaram a Fenícia e Samaria, contando a conversão dos gentios; e deram grande alegria a todos os irmãos."

Observações importantes:

  • Não foram sozinhos — igreja os acompanhou parte do caminho
  • Compartilharam testemunhos de conversões gentílicas
  • Reação positiva em Fenícia e Samaria
  • Construção de apoio antes do confronto em Jerusalém

O Concílio de Jerusalém (Atos 15:4-29)

Sessão Inicial: Recepção

"Tendo eles chegado a Jerusalém, foram recebidos pela igreja, pelos apóstolos e pelos anciãos, e relataram tudo o que Deus fizera com eles." (Atos 15:4)

Recepção formal indicando importância do encontro. Não foi reunião pequena — "igreja, apóstolos e anciãos" sugere assembleia significativa.

A Oposição Se Manifesta

"Mas alguns da seita dos fariseus que haviam crido se levantaram, dizendo: 'É necessário circuncidá-los e determinar-lhes que observem a lei de Moisés.'" (Atos 15:5)

Detalhes importantes:

  • Eram crentes genuínos (não inimigos externos)
  • Mantinham identidade farisaica mesmo após conversão
  • Usaram verbo forte: "é necessário" (anagkaion — obrigatório, essencial)
  • Não apenas circuncisão, mas toda a Lei de Moisés

A Grande Assembleia

"Congregaram-se, pois, os apóstolos e os anciãos para examinar essa questão." (Atos 15:6)

Estrutura do Concílio:

  • Reunião formal de liderança
  • Apóstolos (testemunhas do ministério de Jesus)
  • Anciãos (líderes locais de Jerusalém)
  • Aparentemente igreja toda estava presente (v. 12, 22)

Os Discursos Decisivos

1. Pedro: O Testemunho da Experiência (Atos 15:7-11)

Após "grande discussão" (debate acalorado), Pedro se levantou.

Seu argumento em cinco pontos:

Ponto 1: Escolha divina

"Irmãos, vós sabeis que, há muito tempo, Deus me escolheu dentre vós para que por minha boca os gentios ouvissem a palavra do evangelho e cressem." (v. 7)

Referência a Cornélio (Atos 10) — Deus tomou a iniciativa.

Ponto 2: Testemunho do Espírito Santo

"Deus, que conhece os corações, testemunhou a favor deles, dando-lhes o Espírito Santo, assim como também a nós." (v. 8)

O Espírito Santo foi dado antes da circuncisão, não depois. Deus aprovou gentios incircuncisos.

Ponto 3: Igualdade perante Deus

"E não fez distinção alguma entre nós e eles, purificando os seus corações pela fé." (v. 9)

Purificação vem pela fé, não por ritual físico.

Ponto 4: Não colocar jugo insuportável

"Agora, pois, por que tentais a Deus, pondo sobre a cerviz dos discípulos um jugo que nem nossos pais nem nós pudemos suportar?" (v. 10)

Declaração chocante: Pedro admitiu que nem judeus conseguiram guardar a Lei perfeitamente. Exigir isso de gentios seria "tentar a Deus".

Ponto 5: Salvação pela graça para todos

"Mas cremos que fomos salvos pela graça do Senhor Jesus, assim como eles também." (v. 11)

Igualdade radical: judeus e gentios são salvos da mesma maneira — pela graça através da fé.

Impacto do discurso: Pedro, líder reconhecido, figura apostólica preeminente, tomou posição clara ao lado de Paulo. Silenciou a oposição temporariamente.

2. Paulo e Barnabé: O Testemunho dos Sinais (Atos 15:12)

"Então, toda a multidão silenciou e escutava a Barnabé e a Paulo, que contavam quantos sinais e prodígios Deus havia feito por meio deles entre os gentios."

Estratégia narrativa:

  • Não argumentaram teologicamente
  • Contaram histórias de conversões
  • Enfatizaram sinais e prodígios — validação divina
  • Deus estava claramente abençoando trabalho entre gentios incircuncisos

Paralelo importante: Assim como sinais em Pentecostes validaram nascimento da igreja judaica, sinais entre gentios validaram expansão para eles.

3. Tiago: O Testemunho das Escrituras (Atos 15:13-21)

Quem era Tiago?

  • Irmão de Jesus (Gálatas 1:19)
  • Líder da igreja em Jerusalém
  • Respeitado por judeus cristãos conservadores
  • Conhecido por piedade judaica rigorosa
  • Chamado "Tiago, o Justo" por historiador Hegesipo

Sua posição era crucial — se Tiago apoiasse a circuncisão, Paulo perderia.

Estrutura do Discurso de Tiago

Abertura:

"Irmãos, ouvi-me..." (v. 13)

Tom de autoridade — presidente do concílio.

Confirmação do testemunho de Pedro:

"Simão relatou como Deus primeiramente visitou os gentios, a fim de constituir dentre eles um povo para o seu nome." (v. 14)

Usou nome hebraico "Simão" — lembrando todos da autoridade de Pedro.

Fundamento escriturístico:

"Com isto concordam as palavras dos profetas, como está escrito..." (v. 15)

Citou Amós 9:11-12 (Septuaginta):

"Depois disto voltarei e reedificarei o tabernáculo de Davi, que está caído... Para que os demais homens busquem o Senhor, e todos os gentios sobre os quais é invocado o meu nome..." (v. 16-17)

Interpretação de Tiago:

  1. Profetas antigos previram inclusão dos gentios
  2. Não como prosélitos judaicos, mas como gentios
  3. "Todos os gentios sobre os quais é invocado o meu nome" — pertencentes a Deus permanecendo gentios
  4. Plano de Deus desde a eternidade (v. 18)

A decisão:

"Pelo que, julgo eu que não devemos perturbar os gentios que se convertem a Deus." (v. 19)

Verbo "perturbar" (parenochleo) = causar dificuldade, problemas desnecessários. Circuncisão seria obstáculo, não ajuda.

As quatro recomendações (v. 20):

  1. "Que se abstenham das contaminações dos ídolos"
    • Não participar de cultos pagãos
    • Não comer carne sacrificada a ídolos
  2. "Da imoralidade sexual" (porneia)
    • Fornicação, adultério, prostituição
    • Prática comum na cultura greco-romana
    • Diferenciava cristãos de gentios
  3. "Do que é sufocado"
    • Animais não sangrados adequadamente
    • Ofensivo para consciências judaicas
  4. "Do sangue"
    • Não comer sangue
    • Mandamento desde Noé (Gênesis 9:4)
    • Profundamente importante para judeus

Observação crucial: Essas não eram exigências para salvação, mas concessões para comunhão. Permitiriam judeus e gentios comerem juntos sem violar consciências judaicas.

Justificativa final (v. 21):

"Porque Moisés, desde tempos antigos, tem em cada cidade quem o pregue, sendo lido nas sinagogas todos os sábados."

Significado: Judeus cristãos conheciam a Lei profundamente. Essas concessões honrariam tradições judaicas sem impor todo o sistema legal aos gentios.

A Decisão Oficial (Atos 15:22-29)

Unanimidade

"Então pareceu bem aos apóstolos e aos anciãos, com toda a igreja..." (v. 22)

Decisão unânime — não maioria simples. Consenso alcançado após debate honesto.

A Carta Apostólica

Enviados:

  • Judas (chamado Barsabás)
  • Silas
  • Paulo e Barnabé voltando

Destinatários:

"Aos irmãos dentre os gentios em Antioquia, Síria e Cilícia..." (v. 23)

Conteúdo da carta (resumo):

1. Desautorização dos judaizantes (v. 24):

"Visto sabermos que alguns que saíram do nosso meio, sem nenhuma autorização nossa, vos perturbaram com palavras, transtornando as vossas almas..."

Palavras fortes:

  • "Sem autorização" — não falavam pela liderança
  • "Perturbaram" — causaram confusão
  • "Transtornando" — viraram de cabeça para baixo

2. Aprovação de Paulo e Barnabé (v. 25-26):

"Homens que têm exposto a vida pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo."

Elogio público — legitimação completa do ministério deles.

3. Confirmação pelo Espírito Santo (v. 28):

"Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós..."

Declaração profunda: não foi apenas decisão humana, mas guiada divinamente.

4. As quatro diretrizes (v. 29): Repetição das recomendações de Tiago.

5. Conclusão encorajadora:

"Destas coisas fazeis bem em vos guardar. Passai bem."

Tom pastoral, não legalista.

Recepção em Antioquia (Atos 15:30-35)

Júbilo e Alívio

"Tendo eles sido despedidos, desceram para Antioquia e, havendo reunido a multidão, entregaram a carta. E, quando a leram, alegraram-se pela exortação." (v. 30-31)

Palavra "alegraram-se" (echaresan) — regozijaram-se, ficaram muito felizes.

Por quê?

  • Afirmação de sua fé como legítima
  • Liberdade da Lei confirmada
  • Unidade com Jerusalém mantida
  • Temores dissipados

Ministério de Judas e Silas

"Judas e Silas, que eram também profetas, exortaram e confirmaram os irmãos com muitas palavras." (v. 32)

Importância: mensageiros de Jerusalém permaneceram tempo significativo, ensinando e fortalecendo. Não foi apenas entrega de carta e partida.

A Versão de Paulo em Gálatas 2

Paralelo e Complemento

A carta aos Gálatas (escrita por Paulo) oferece perspectiva adicional:

Gálatas 2:1-10 descreve a mesma reunião (provavelmente) com detalhes adicionais:

Detalhes exclusivos de Gálatas:

  1. Paulo subiu "por revelação" (Gálatas 2:2)
    • Não apenas por solicitação da igreja
    • Guiado por revelação divina
  2. Reunião privada com líderes
    • "Expus a eles o evangelho que prego entre os gentios, mas em particular aos de reputação"
    • Reunião estratégica antes da assembleia pública
  3. Tito não foi obrigado a circuncidar-se (Gálatas 2:3)
    • "Teste case" deliberado
    • Vitória simbólica
  4. "Falsos irmãos" tentaram espionar (Gálatas 2:4)
    • Linguagem mais dura que Atos
    • Paulo enfatiza oposição
  5. "Nem por uma hora cedemos" (Gálatas 2:5)
    • Paulo enfatiza firmeza deles
    • Verdade do evangelho estava em jogo
  6. Reconhecimento mútuo (Gálatas 2:9)
    • Tiago, Pedro (Cefas) e João deram "destra de comunhão"
    • Gesto formal de parceria
    • Paulo aos gentios, eles aos judeus
  7. Pedido para lembrar dos pobres (Gálatas 2:10)
    • Único pedido adicional
    • Paulo já estava fazendo isso

Diferenças de Tom

Atos: Tom diplomático, foco na harmonia alcançada
Gálatas: Tom combativo, foco na firmeza necessária

Por quê?

  • Audiências diferentes (Lucas escrevia história; Paulo confrontava erro)
  • Propósitos diferentes (Lucas mostrava unidade; Paulo defendia evangelho)
  • Complementares, não contraditórios

O Incidente em Antioquia (Gálatas 2:11-14)

A Controvérsia Continua

Mesmo após o Concílio, tensões não desapareceram completamente.

O que aconteceu:

  1. Pedro visitou Antioquia
    • Comia livremente com gentios
    • Ignorava leis alimentares judaicas
  2. "Alguns da parte de Tiago" chegaram
    • Provavelmente judeus conservadores de Jerusalém
    • Não está claro se Tiago os enviou ou apenas vinham de lá
  3. Pedro começou a se retirar
    • Parou de comer com gentios
    • Temeu crítica dos judaizantes
  4. Outros judeus seguiram Pedro
    • Incluindo Barnabé
    • Hipocrisia se espalhou
  5. Paulo confrontou Pedro publicamente

    "Resisti-lhe face a face, porque era repreensível." (Gálatas 2:11)

Acusação de Paulo:

"Se tu, sendo judeu, vives como gentio e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus?" (Gálatas 2:14)

Ponto crucial:

  • Não era sobre salvação (já resolvido no Concílio)
  • Era sobre comunhão prática
  • Ações de Pedro negavam evangelho da graça
  • Criava "cristãos de segunda classe"

Resultado: Não sabemos como foi resolvido. Mas Pedro e Paulo permaneceram em comunhão (2 Pedro 3:15-16 mostra respeito mútuo).

Significado Teológico do Concílio

1. Salvação Pela Graça, Não Por Obras

Princípio estabelecido:

"Cremos que fomos salvos pela graça do Senhor Jesus, assim como eles também." (Atos 15:11)

Implicações:

  • Nenhum rito externo salva
  • Fé em Cristo é suficiente
  • Obras são resultado, não causa da salvação
  • Base da doutrina protestante da justificação

2. Universalidade do Evangelho

Princípio estabelecido: Gentios podiam ser salvos permanecendo gentios.

Implicações:

  • Evangelho transcende cultura judaica
  • Cristianismo não é judaísmo reformado
  • Deus aceita pessoas de todas as nações
  • Base para missões mundiais

3. Unidade na Diversidade

Princípio estabelecido: Judeus e gentios eram um em Cristo, mantendo distinções culturais.

Implicações:

  • Unidade espiritual não exige uniformidade cultural
  • Concessões mútuas para comunhão
  • Amor supera diferenças
  • Base para igreja multicultural

4. Autoridade Apostólica e Conciliar

Princípio estabelecido: Líderes da igreja podiam se reunir para resolver disputas doutrinais.

Implicações:

  • Precedente para concílios futuros
  • Decisões coletivas sob guia do Espírito
  • Escritura como base de decisões
  • Modelo de governança eclesiástica

5. Liberdade Cristã com Responsabilidade

Princípio estabelecido: Liberdade da Lei, mas concessões voluntárias por amor.

Implicações:

  • Liberdade não é licença
  • Amor limita uso da liberdade
  • Consciência dos fracos deve ser respeitada
  • Paulo desenvolve isso em Romanos 14-15 e 1 Coríntios 8-10

Consequências Históricas

1. Explosão Missionária

Resultado imediato: Remoção de barreira principal para conversão gentílica.

Números:

  • Século I: Dezenas de milhares de cristãos
  • Século II: Centenas de milhares
  • Século III: Milhões

Se a circuncisão fosse exigida, o cristianismo provavelmente teria permanecido seita judaica pequena.

2. Separação Gradual do Judaísmo

Processo iniciado: Cristianismo começou a ser visto como religião distinta.

Marcos de separação:

  • 70 d.C.: Destruição do Templo
  • 85-90 d.C.: Bênção contra hereges nas sinagogas
  • Século II: Separação completa

3. Formação da Teologia Paulina

Cartas desenvolvendo temas:

  • Gálatas — Liberdade da Lei
  • Romanos — Justificação pela fé
  • Efésios — Unidade em Cristo
  • Colossenses — Suficiência de Cristo

Todo o pensamento teológico de Paulo emerge dessa controvérsia.

4. Modelo Para Concílios Futuros

Concílios ecumênicos seguiram padrão similar:

  • Niceia (325 d.C.) — Natureza de Cristo
  • Constantinopla (381 d.C.) — Trindade
  • Éfeso (431 d.C.) — Cristologia
  • Calcedônia (451 d.C.) — Duas naturezas de Cristo

Jerusalém estabeleceu precedente.

5. Preservação da Unidade

Fato notável: Apesar de desacordos profundos, a igreja não se dividiu.

Fatores:

  • Disposição de ouvir
  • Busca de consenso
  • Concessões mútuas
  • Compromisso com unidade
  • Reconhecimento da guia do Espírito

Contraste com eras posteriores: Igreja moderna frequentemente se divide por questões menores. Jerusalém oferece modelo de unidade possível.

Lições Para a Igreja Hoje

1. Evangelho vs. Cultura

Pergunta perene: O que é essencial ao evangelho e o que é cultural?

Lição de Jerusalém:

  • Circuncisão = cultural (apesar de bíblica)
  • Fé em Cristo = essencial
  • Sabedoria para distinguir é necessária

2. Diálogo Honesto é Vital

Observação: Houve "não pequena discussão" (Atos 15:2).

Lição:

  • Discordância saudável é permitida
  • Debate robusto pode ser piedoso
  • Evitar conflito não é sempre virtude
  • Verdade importa mais que harmonia superficial

3. Escritura é Árbitro Final

Observação: Tiago citou profetas para fundamentar decisão.

Lição:

  • Experiência (Pedro) e razão (Paulo) informam
  • Mas Escritura tem palavra final
  • Teologia bíblica sólida é necessária
  • Não podemos ir além do que está escrito

4. Compromisso Sem Comprometer

Observação: Decisão foi firme no essencial, flexível no periférico.

Lição:

  • Nunca comprometer verdades centrais
  • Mas fazer concessões práticas por amor
  • Sabedoria para distinguir é dom do Espírito

5. Liderança Humilde

Observação: Pedro, Paulo, Tiago e Barnabé trabalharam juntos.

Lição:

  • Nenhum líder tem monopólio da verdade
  • Disposição para ser corrigido (Pedro)
  • Capacidade de ceder (Paulo aceitou as quatro diretrizes)
  • Humildade abre caminho para unidade

6. Missão Supera Tradição

Observação: Expansão do evangelho foi priorizada sobre manutenção de costumes.

Lição:

  • Tradições humanas não podem obstruir Deus
  • Se Deus está movendo, devemos seguir
  • Conforto cultural deve ser secundário

7. Unidade é Possível na Diversidade

Observação: Judeus e gentios permaneceram diferentes culturalmente mas unidos espiritualmente.

Lição:

  • Igreja multicultural é ideal bíblico
  • Diferenças enriquecem, não enfraquecem
  • Amor é o que mantém unidade, não uniformidade

O Concílio de Jerusalém foi um dos momentos mais perigosos e também mais gloriosos da história da igreja primitiva. A questão em jogo não era periférica — era existencial: O cristianismo seria uma seita judaica regional ou uma religião universal?

A decisão tomada naquele dia por volta de 49 d.C. abriu as comportas para a expansão global do evangelho. Sem ela:

  • Paulo não teria tido suas viagens missionárias
  • Igrejas gentílicas teriam sido sufocadas
  • Cristianismo teria morrido com a destruição de Jerusalém em 70 d.C.
  • Você e eu não seríamos cristãos hoje

O que tornou o Concílio bem-sucedido?

  1. Disposição para ouvir — Todos os lados foram ouvidos
  2. Apelo às Escrituras — Base bíblica foi buscada
  3. Testemunho da experiência — Deus estava claramente agindo
  4. Humildade de líderes — Ninguém insistiu em estar completamente certo
  5. Compromisso com unidade — Amor superou diferenças
  6. Guia do Espírito Santo — "Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós"

A igreja evitou uma divisão global não porque negou a verdade, mas porque discerniu corretamente o que era essencial. Circuncisão não salva. Fé em Jesus Cristo salva.

Esta verdade simples, estabelecida firmemente em Jerusalém, é a base sobre a qual toda a fé cristã se ergue. Somos salvos pela graça, através da fé, não por obras — para que ninguém se glorie (Efésios 2:8-9).

O Concílio de Jerusalém não apenas evitou uma divisão — lançou a fundação teológica que permitiu ao cristianismo se tornar a maior religião do mundo, abraçando pessoas de todas as nações, tribos, línguas e povos.

Naquele dia decisivo, a igreja escolheu graça sobre lei, fé sobre ritual, unidade sobre uniformidade, e missão sobre tradição.

E porque fizeram essa escolha, o evangelho chegou até nós.

Referências Bíblicas Principais

  • Atos 15:1-35 — Relato completo do Concílio de Jerusalém
  • Gálatas 1:1-2:14 — Perspectiva de Paulo sobre a controvérsia
  • Gálatas 3:1-5:12 — Desenvolvimento teológico da justificação pela fé
  • Romanos 3:21-4:25 — Fundamentação doutrinária mais completa
  • Efésios 2:11-22 — Unidade de judeus e gentios em Cristo

Para Aprofundamento

Livros recomendados:

  • "The Apostolic Decree and Its Setting in the Ancient Church" - Markus Bockmuehl
  • "Paul and James: A Study of the Relationship between the Two Most Important Leaders of the Early Church" - David Wenham
  • "From Jesus to Christianity" - L. Michael White
  • "The First Seven Ecumenical Councils (325-787)" - Leo Donald Davis

No Portal Heróis da Bíblia:

No App Heróis da Bíblia:

  • Timeline da Igreja Primitiva
  • Comparação: Atos 15 vs Gálatas 2
  • Mapa de Jerusalém no século I
  • Quiz sobre o Concílio

Perguntas Frequentes

João Andrade
João Andrade
Apaixonado pelas histórias bíblicas e um autodidata nos estudos das civilizações e cultura ocidental. Ele é formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas e utiliza a tecnologia para o Reino de Deus.

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