Perseguição de Estêvão Como o Primeiro Mártir Espalhou o Cristianismo

Dez 2025
Tempo de estudo | 18 minutos
Atualizado em 12/01/2026
Igreja
Perseguição de Estêvão Como o Primeiro Mártir Espalhou o Cristianismo

O martírio de Estêvão marca um dos momentos mais decisivos da história do cristianismo primitivo. O que começou como uma perseguição localizada em Jerusalém transformou-se no catalisador da expansão global da fé cristã. Neste artigo, exploraremos como perseguição de Estêvão e sua morte desencadeou eventos que mudaram para sempre o rumo da Igreja.

Quem Foi Estêvão?

Martírio de Estêvão - primeiro mártir cristão apedrejado em Jerusalém

Estêvão era um dos sete diáconos escolhidos pelos apóstolos para servir às viúvas gregas na igreja de Jerusalém (Atos 6:1-6). Seu nome, de origem grega (Stephanos), significa "coroa" ou "grinalda" — um prenúncio profético de seu destino como o primeiro a receber a coroa do martírio.

Características de Estêvão

A Bíblia descreve Estêvão como um homem com qualidades notáveis:

  • Cheio de fé e do Espírito Santo (Atos 6:5)
  • Cheio de graça e poder (Atos 6:8)
  • Realizava grandes maravilhas e sinais entre o povo (Atos 6:8)
  • Possuía sabedoria irrefutável ao debater (Atos 6:10)

Estêvão não era apenas um servo administrativo da igreja; ele era um poderoso pregador e apologista da fé cristã.

O Conflito nas Sinagogas

A oposição a Estêvão surgiu de um grupo específico dentro da comunidade judaica de Jerusalém. Segundo Atos 6:9, membros da "Sinagoga dos Libertos" — composta por judeus de Cirene, Alexandria, Cilícia e Ásia — começaram a debater com ele.

Por Que a Oposição?

Estêvão representava uma ameaça dupla para o establishment religioso:

  1. Desafiava as tradições estabelecidas ao apresentar Jesus como o cumprimento da Lei e dos Profetas
  2. Atraía judeus da diáspora (judeus helenistas) que voltavam a Jerusalém
  3. Realizava sinais que confirmavam sua mensagem sobre Jesus

Quando não conseguiram vencê-lo no debate, seus oponentes recorreram a falsas acusações, alegando que Estêvão blasfemava contra Moisés, Deus, o Templo e a Lei (Atos 6:11-14).

O Discurso Diante do Sinédrio

Levado diante do Sinédrio, o mesmo tribunal que havia condenado Jesus, Estêvão proferiu o discurso mais longo registrado no livro de Atos (capítulo 7).

Estrutura do Discurso

O sermão de Estêvão não foi uma defesa convencional. Foi uma revisão abrangente da história de Israel que demonstrava um padrão consistente:

  1. Abraão e as promessas de Deus (Atos 7:2-8)
  2. José e a providência divina (Atos 7:9-16)
  3. Moisés e a rejeição do libertador (Atos 7:17-43)
  4. O Tabernáculo e o Templo (Atos 7:44-50)
  5. A acusação final: "Vós sempre resistis ao Espírito Santo" (Atos 7:51-53)

O Ponto Central

Estêvão argumentou que Israel havia rejeitado repetidamente os mensageiros de Deus ao longo da história — e agora haviam rejeitado o próprio Messias. Ele declarou que o Templo, tão valorizado por seus acusadores, nunca foi o lugar permanente de Deus, pois "o Altíssimo não habita em casas feitas por mãos humanas" (Atos 7:48).

O Martírio

Martírio de Estêvão - primeiro mártir cristão apedrejado em Jerusalém

A reação ao discurso foi explosiva. Atos 7:54 descreve que os ouvintes "enfureciam-se em seus corações e rangiam os dentes contra ele".

A Visão de Glória

No momento mais tenso, Estêvão teve uma visão celestial:

"Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem em pé à direita de Deus" (Atos 7:56)

Esta declaração foi a gota d'água. Para o Sinédrio, afirmar ver Jesus à direita de Deus era blasfêmia suprema.

A Execução

O relato em Atos 7:57-60 descreve uma cena de violência caótica:

  • Taparam os ouvidos para não ouvir mais
  • Lançaram-se sobre ele em fúria
  • Arrastaram-no para fora da cidade
  • Apedrejaram-no até a morte

Durante o apedrejamento, Estêvão demonstrou graça extraordinária:

  1. Orou: "Senhor Jesus, recebe o meu espírito" (Atos 7:59)
  2. Ajoelhou-se e clamou: "Senhor, não lhes imputes este pecado" (Atos 7:60)

Suas últimas palavras ecoavam as de Jesus na cruz (Lucas 23:34, 46).

O Detalhe Significativo: Saulo de Tarso

Atos 7:58 menciona um detalhe aparentemente menor, mas profundamente significativo:

"As testemunhas deixaram suas capas aos pés de um jovem chamado Saulo"

Este Saulo não era um observador passivo. Atos 8:1 afirma claramente: "E Saulo consentia na morte dele".

A Semente da Conversão

Muitos estudiosos acreditam que o testemunho de Estêvão plantou sementes na mente de Saulo que eventualmente levariam à sua conversão. A coragem, a fé inabalável e o perdão de Estêvão podem ter perturbado profundamente o jovem fariseu.

Santo Agostinho, séculos depois, escreveu: "Se Estêvão não tivesse orado, a Igreja não teria Paulo".

A Grande Perseguição

O martírio de Estêvão não foi um evento isolado — foi o estopim de uma perseguição generalizada.

A Intensidade da Perseguição

Atos 8:1-3 descreve o que aconteceu a seguir:

  • Perseguição generalizada contra a igreja em Jerusalém
  • Dispersão dos crentes por toda a Judeia e Samaria
  • Apenas os apóstolos permaneceram em Jerusalém
  • Saulo devastava a igreja, entrando nas casas e arrastando homens e mulheres para a prisão

A palavra grega usada em Atos 8:3 para "devastava" (lumainomai) é forte — significa literalmente "destruir" ou "arruinar". Era usada para descrever animais selvagens atacando suas presas.

Quem Fugiu e Quem Ficou?

Um detalhe intrigante é que os apóstolos permaneceram em Jerusalém enquanto outros cristãos fugiram. Algumas teorias explicam isso:

  1. Responsabilidade pastoral: os apóstolos sentiram-se obrigados a permanecer com os cristãos que não podiam fugir
  2. Alvo específico: a perseguição inicial focava principalmente nos judeus helenistas como Estêvão
  3. Chamado de Jesus: Jesus havia ordenado que começassem em Jerusalém (Atos 1:8)

A Primeira Diáspora Cristã

Martírio de Estêvão - primeiro mártir cristão apedrejado em Jerusalém

O que parecia uma tragédia tornou-se o cumprimento da grande comissão de forma inesperada.

O Plano Divino

Jesus havia instruído seus discípulos: "Sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra" (Atos 1:8).

Até aquele momento, a igreja estava concentrada em Jerusalém. A perseguição forçou o cumprimento dessa visão missionária.

Os Destinos da Dispersão

Atos 8:4 registra: "Os que foram dispersos iam por toda parte pregando a palavra".

Alguns destinos específicos mencionados:

  1. Samaria — Filipe evangelizou ali com grande sucesso (Atos 8:5-8)
  2. Cesareia — Pedro pregou ao centurião Cornélio (Atos 10)
  3. Fenícia, Chipre e Antioquia — fundação de importantes comunidades cristãs (Atos 11:19)
  4. Damasco — já havia cristãos quando Saulo foi enviado para persegui-los (Atos 9:2)

Antioquia: O Novo Centro

Atos 11:19-26 descreve um desenvolvimento crucial:

  • Cristãos dispersos chegaram a Antioquia
  • Começaram a pregar também aos gentios
  • Uma grande igreja foi estabelecida
  • Foi em Antioquia que os discípulos foram chamados "cristãos" pela primeira vez
  • Antioquia tornou-se a base para as missões de Paulo

O Impacto Histórico da Diáspora

A dispersão após o martírio de Estêvão teve consequências monumentais para o cristianismo.

Mudanças Fundamentais

  1. De movimento judaico local para religião universal

    • A mensagem alcançou samaritanos e gentios
    • Quebrou barreiras étnicas e culturais
  2. De Jerusalém para o mundo mediterrâneo

    • Estabelecimento de igrejas em cidades-chave
    • Criação de uma rede de comunidades cristãs
  3. De dependência apostólica para liderança compartilhada

    • Surgimento de novos líderes como Filipe, Barnabé e Paulo
    • Multiplicação de pregadores e mestres

A Ironia Providencial

Os perseguidores pretendiam eliminar o cristianismo, mas acabaram sendo instrumentos de sua expansão. Cada cristão disperso tornou-se um missionário, levando o evangelho para onde quer que fossem.

Tertuliano, teólogo do século II, mais tarde escreveria: "O sangue dos mártires é a semente da Igreja".

Evidências Arqueológicas e Históricas

Contexto do Apedrejamento

As descobertas arqueológicas em Jerusalém confirmam vários aspectos do relato:

  1. Portões da cidade — locais de execução ficavam fora das muralhas, conforme a Lei judaica (Levítico 24:14)
  2. Método de apedrejamento — a Mishná descreve procedimentos similares aos mencionados em Atos
  3. Papel do Sinédrio — inscrições e documentos confirmam sua autoridade em casos de blasfêmia

Tradição e Memória

A tradição cristã antiga identifica o local do martírio de Estêvão:

  • Localizado ao norte de Jerusalém
  • Chamado "Portão de Estêvão" (ainda existente)
  • Uma igreja foi construída ali no século V
  • Descoberta de ossuário com o nome "Estêvão" na região (datação contestada)

Fontes Históricas

Além de Atos, referências antigas a Estêvão incluem:

  • Flávio Josefo — menciona perseguições a cristãos em Jerusalém
  • Eusébio de Cesareia — registra tradições sobre o martírio de Estêvão
  • São Jerônimo — relata a descoberta das relíquias de Estêvão em 415 d.C.

Lições Teológicas e Espirituais

1. A Soberania de Deus nos Planos Humanos

O que parecia derrota era, na verdade, parte do plano divino para a expansão do evangelho. Deus pode transformar perseguição em missão. Como o livro de Hebreus nos ensina, os heróis da fé frequentemente não viram o cumprimento das promessas em vida.

2. O Custo do Discipulado

Estêvão exemplifica o chamado radical de Jesus: "Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me" (Mateus 16:24). Assim como Isaque foi preparado para o sacrifício, Estêvão entregou sua vida sem reservas.

3. O Poder do Perdão

As últimas palavras de Estêvão revelam o caráter transformador do evangelho — perdoar mesmo em meio à injustiça violenta.

4. A Igreja Cresce Através do Sofrimento

A história da igreja confirma o padrão estabelecido após Estêvão: a perseguição frequentemente resulta em crescimento e purificação.

5. Testemunhas Involuntárias

Saulo, o perseguidor, tornou-se Paulo, o apóstolo. Nunca subestime o impacto de um testemunho fiel, mesmo que pareça rejeitado.

Cronologia dos Eventos

Para situar melhor estes acontecimentos:

Circa 33-34 d.C.

Circa 34-35 d.C.

  • Escolha dos sete diáconos (incluindo Estêvão)
  • Ministério de Estêvão em Jerusalém
  • Martírio de Estêvão
  • Início da grande perseguição
  • Dispersão dos cristãos

Circa 35 d.C.

  • Evangelização de Samaria por Filipe
  • Conversão do eunuco etíope
  • Estabelecimento de comunidades em várias regiões

Circa 35-36 d.C.

  • Conversão de Saulo no caminho de Damasco

Circa 40-42 d.C.

  • Fundação da igreja de Antioquia
  • Termo "cristãos" usado pela primeira vez

Conexões com Outros Eventos Bíblicos

Paralelos com Jesus

O martírio de Estêvão reflete a morte de Jesus em vários aspectos:

Jesus Estêvão
Acusado de blasfêmia Acusado de blasfêmia
Julgado pelo Sinédrio Julgado pelo Sinédrio
Falsas testemunhas Falsas testemunhas
"Pai, perdoa-lhes" "Senhor, não lhes imputes"
"Em tuas mãos entrego meu espírito" "Senhor Jesus, recebe meu espírito"
Morreu fora da cidade Morreu fora da cidade

Cumprimento de Profecias

Jesus havia advertido seus discípulos:

"Eles vos entregarão às sinagogas e vos perseguirão... e sereis odiados por todos por causa do meu nome" (Lucas 21:12-17)

O martírio de Estêvão e a perseguição subsequente cumpriram literalmente essas palavras.

Preparação para Paulo

A perseguição liderada por Saulo preparou o caminho para seu ministério futuro:

  • Conheceu cristãos em Damasco, Jerusalém e outras cidades
  • Compreendeu a extensão geográfica do movimento
  • Experimentou a transformação que depois pregaria

Perguntas Frequentes

1. Por que os líderes judeus apedrejaram Estêvão se Roma controlava as execuções?

Há três teorias principais:

  • Execução ilegal: foi um ato de violência de turba, não uma execução legal
  • Período de transição: pode ter ocorrido durante uma vacância do governador romano
  • Exceção religiosa: Roma permitia certa autonomia judaica em casos de blasfêmia

2. Estêvão realmente viu Jesus ou foi uma visão subjetiva?

O texto de Atos 7:55-56 apresenta a visão como objetivamente real: "cheio do Espírito Santo, fitou os olhos no céu e viu a glória de Deus". Para Lucas, autor de Atos, esta foi uma manifestação genuína.

3. Por que apenas os apóstolos permaneceram em Jerusalém?

A perseguição inicial parece ter focado nos judeus helenistas (de língua grega) como Estêvão. Os apóstolos, sendo judeus da Galileia, não eram o alvo imediato. Além disso, tinham responsabilidade pastoral com a igreja-mãe.

4. A dispersão foi planejada ou acidental?

Do ponto de vista histórico, foi consequência da perseguição. Do ponto de vista teológico, foi providencial — Deus usou a oposição humana para cumprir seus propósitos missionários.

5. Onde estão as relíquias de Estêvão?

Segundo a tradição, suas relíquias foram descobertas em 415 d.C. em Kfar Gamala (perto de Jerusalém) e distribuídas por várias igrejas. Há controvérsias históricas sobre a autenticidade.

Aplicações Para a Igreja Moderna

1. Perseguição Como Motor Missionário

A história de Estêvão nos lembra que a igreja frequentemente cresce mais em contextos de oposição. Hoje, algumas das igrejas que mais crescem estão em países onde há perseguição.

2. Dispersão Estratégica

Assim como a diáspora do século I, cristãos modernos que se mudam por trabalho, estudo ou refúgio podem ser missionários estratégicos em seus novos contextos.

3. O Testemunho Importa

O martírio de Estêvão impactou profundamente Saulo. Nunca subestime o poder de uma vida consistente, mesmo que você nunca veja os resultados.

4. Perdão Radical

Em uma época de polarização e hostilidade, o exemplo de Estêvão de perdoar seus assassinos permanece profundamente relevante.

5. Flexibilidade nos Planos

A igreja primitiva não planejou a dispersão, mas soube responder com fé quando ela aconteceu. Às vezes, nossos "planos B" são o plano principal de Deus.

Conclusão

O martírio de Estêvão representa um dos momentos mais significativos da história cristã. O que parecia ser uma tragédia — a morte violenta de um líder promissor e a dispersão forçada da igreja — tornou-se o catalisador da expansão global do cristianismo.

A primeira diáspora cristã transformou um movimento judaico concentrado em Jerusalém em uma fé mundial. Cada cristão disperso tornou-se um missionário, levando o evangelho para Samaria, Fenícia, Chipre, Antioquia e além.

A ironia da providência divina é evidente: os perseguidores pretendiam extinguir a chama do cristianismo, mas acabaram espalhando-a por todo o mundo mediterrâneo. O sangue de Estêvão, o primeiro mártir, tornou-se verdadeiramente a semente de uma colheita global.

E talvez o resultado mais extraordinário: o jovem Saulo, que assistiu e consentiu com o martírio de Estêvão, seria transformado no apóstolo Paulo — o maior missionário da história cristã.

A história de Estêvão nos ensina que Deus pode usar até mesmo nossa oposição mais violenta para cumprir seus propósitos de redenção. Nenhuma perseguição pode deter o evangelho; na verdade, historicamente, a oposição tem sido o combustível de sua expansão.

Referências Bíblicas Principais

  • Atos 6:1-15 — Escolha de Estêvão e acusações contra ele
  • Atos 7:1-60 — Discurso e martírio de Estêvão
  • Atos 8:1-4 — Perseguição e dispersão da igreja
  • Atos 11:19-26 — Consequências da dispersão

Para Aprofundamento

Livros recomendados:

  • "Atos dos Apóstolos" — F.F. Bruce
  • "The Book of Acts in the Setting of Hellenistic History" — Colin Hemer
  • "The First Christian Historian" — Gregory Sterling

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Perguntas Frequentes

João Andrade
João Andrade
Apaixonado pelas histórias bíblicas e um autodidata nos estudos das civilizações e cultura ocidental. Ele é formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas e utiliza a tecnologia para o Reino de Deus.

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