Quem foi o faraó que “não conheceu José”?

Nov 2025
Tempo de estudo | 11 minutos
Atualizado em 12/01/2026
Histórias
Quem foi o faraó que “não conheceu José”?

Êxodo 1:8 menciona um misterioso “novo rei sobre o Egito que não conheceu José”. Por séculos, teólogos, arqueólogos e historiadores tentam identificar qual faraó teria inaugurado a política de opressão contra os israelitas — e o que essa frase realmente significa no contexto do Egito antigo. Este artigo apresenta uma análise extensa, reunindo fontes bíblicas, registros egípcios, arqueologia, debates cronológicos e as principais hipóteses modernas (Kamose e Ahmose I), além de explorar propostas menos difundidas, mas academicamente relevantes.

A frase que mudou a história de Israel

O livro de Êxodo começa com uma mudança brusca no destino do povo hebreu no Egito. Depois de descrever o crescimento dos descendentes de Jacó — agora uma comunidade numerosa — o texto bíblico declara:

“Levantou-se sobre o Egito um novo rei, que não conhecera José.”
— Êxodo 1:8

Essa passagem é o ponto de partida do período de opressão que culmina no Êxodo. Mas a identidade desse “novo rei” permanece um dos maiores enigmas da arqueologia bíblica.

A pergunta é crucial por três razões:

  1. Define a cronologia do Êxodo.

  2. Conecta o texto bíblico ao Egito real, suas dinastias e eventos históricos.

  3. Determina o contexto sociopolítico no qual a narrativa se desenvolve.

A referência do Armstrong Institute — “Who Was the Pharaoh Who ‘Knew Not Joseph’?” — argumenta que o melhor candidato é Kamose, enquanto outros estudiosos defendem Ahmose I, fundador da 18ª Dinastia egípcia.

Para contextualizar isso, precisamos entender não apenas o Egito da época, mas o impacto da Era dos Hicsos e a reconfiguração nacional que ocorreu no Egito antes e durante a ascensão dessa geração de faraós.

Antes do “Faraó que não conheceu José”: como José chegou ao poder

Para compreender a ruptura mencionada em Êxodo 1:8, é essencial revisar o cenário em que José era conhecido no Egito.

Segundo o relato de Gênesis:

  • José ascende ao poder após interpretar sonhos do faraó.

  • Torna-se governador, “segunda autoridade” do reino.

  • Administra a crise dos sete anos de fome.

  • Sua família se estabelece na região de Gósen (Delta Oriental).

Do ponto de vista histórico, muitos arqueólogos entendem que:

  • a chegada de José coincide com um período de forte presença semita no Delta,

  • e que o Egito passava por uma fase onde estrangeiros tinham mais mobilidade social (período dos Hicsos ou transições próximas).

Em outras palavras:
José se destacou num Egito com forte influência semita. Isso explica por que ele “era conhecido”.

Mas quando o texto diz que surgiu um faraó “que não conhecia José”, isso sugere:

  • mudança abrupta de regime,

  • ruptura dinástica,

  • e, possivelmente, hostilidade a povos semitas.

Esses três fatores apontam fortemente para um momento específico na história egípcia:
o fim do domínio dos Hicsos e a ascensão dos faraós nacionalistas da 17ª e 18ª dinastias.

O Egito dos Hicsos: o pano de fundo ignorado por muitos intérpretes

Os Hicsos foram governantes de origem semita (provavelmente cananeus) que dominaram o Delta do Nilo por cerca de 100 anos. Sua capital era Avaris, no norte do Egito.

Durante esse período, o Egito estava dividido:

  • Norte (Delta) → controlado pelos Hicsos.

  • Sul (Tebas) → controlado por faraós egípcios nativos.

Esse cenário ajuda a explicar por que:

  • um semita como José podia ascender ao poder,

  • e por que a presença israelita foi inicialmente bem recebida.

Quando um faraó inimigo dos Hicsos sobe ao poder e expulsa os estrangeiros, ele só pode olhar para grupos semitas — como os israelitas — com suspeita.

Êxodo 1:8–10 e a linguagem egípcia de hostilidade

Vamos observar o trecho completo:

“E levantou-se um novo rei sobre o Egito, que não conhecera José.
E disse ao seu povo: Eis que o povo dos filhos de Israel é mais numeroso e mais forte do que nós.
Eia, usemos de sabedoria para com eles, para que não se multipliquem, e, sucedendo guerra, não se ajuntem eles com os nossos inimigos...”
— Êxodo 1:8–10

Essa linguagem é extremamente semelhante aos discursos militares egípcios do período final da 17ª Dinastia e início da 18ª Dinastia, especialmente no discurso preservado em estelas de Kamose:

  • “o inimigo asiático no Norte”

  • “eles são muitos”

  • “eles dividem a terra conosco”

  • “precisamos expulsá-los”

Essas expressões aparecem nos registros egípcios sobre os Hicsos e ecoam de forma quase direta a linguagem de Êxodo.

Por isso, muitos acadêmicos consideram que o faraó “que não conheceu José” pertence exatamente a esse período.

Hipótese 1 — Kamose: o faraó mais consistente com Êxodo 1:8–10

Kamose foi o último faraó da 17ª Dinastia (c. 1555 a.C.) e liderou a retomada egípcia contra os Hicsos. Seu reinado é curto, mas envolto em nacionalismo, purificação étnica e guerra.

5.1 Por que Kamose é um candidato forte

  1. Ele inicia a guerra contra os estrangeiros do Norte, vistos como ameaça interna.

  2. Seus discursos registrados preservam frases muito próximas da retórica do Êxodo.

  3. Ele é o faraó da ruptura, da transição — o faraó que literalmente “se levanta”.

  4. A frase “não conheceu José” se encaixa no contexto de um governante que rejeita a era anterior, marcada por influência estrangeira.

  5. O Armstrong Institute indica que os termos usados na Estela de Kamose ecoam a mentalidade descrita em Êxodo 1.

5.2 Linguagem de Kamose comparada ao Êxodo

Kamose:

  • “O governador asiático está em Avaris.”

  • “Eles são numerosos e dominam a terra.”

  • “Estão dividindo o Egito conosco.”

Êxodo 1:

  • “O povo de Israel é mais numeroso e mais forte.”

  • “Eles podem se juntar aos nossos inimigos.”

  • “Use de sabedoria para com eles.”

A semelhança é tão forte que muitos arqueólogos consideram Kamose o candidato mais plausível.

5.3 Objeção principal

O reinado de Kamose é curto. Alguns argumentam que seria mais lógico que o faraó opressor fosse alguém com governo mais longo.

Mas isso não elimina a hipótese, pois o início da opressão pode ter começado com Kamose e sido consolidado por seu sucessor.

Hipótese 2 — Ahmose I: o fundador da 18ª Dinastia

Ahmose I, filho de Sekenenre e irmão ou sucessor de Kamose, concluiu a expulsão dos Hicsos, unificou o Egito e iniciou a poderosa 18ª Dinastia — a mesma que mais tarde incluiria reis como Tutmés III, Hatshepsut e Amenhotep III.

6.1 Por que muitos estudiosos preferem Ahmose I

  1. Ele é o responsável por expulsar definitivamente os estrangeiros.

  2. Inicia uma política nacionalista forte.

  3. Reconstrói Avaris, transformando-a em base militar.

  4. Seu reinado é mais longo, permitindo políticas sistemáticas de opressão.

  5. A transição dinástica do fim dos Hicsos para o início da 18ª Dinastia representa bem o “novo rei”.

6.2 Obras de construção associados ao trabalho forçado

Ahmose conduz grandes projetos:

  • reconstrução de cidades do Delta,

  • depósitos de grãos,

  • armazéns,

  • construções militares.

Isso combina diretamente com Êxodo 1:11, que menciona a imposição de capatazes e trabalhos forçados.

6.3 Objeção principal

A crítica mais forte é cronológica: identificar Ahmose I como “o faraó que não conheceu José” implica que:

  • o Êxodo teria ocorrido muito antes da data tradicional,

  • ou teria ocorrido durante um período intermediário diferente do modelo popular (século XIII a.C.).

Mas isso não inviabiliza a hipótese, apenas indica que o cronograma tradicional poderia estar deslocado.

Hipótese 3 — Faraós posteriores (Hatshepsut, Tutmés III, Ramsés II): por que são improváveis

Algumas tradições e filmes populares associam:

  • a opressão a Seti I,

  • o Êxodo a Ramsés II.

Esse modelo é baseado no fato de que a cidade de Pitom e Ramessés aparece no texto bíblico. Mas a arqueologia moderna tem mostrado inconsistências importantes:

  1. Israel já existia como entidade na época de Ramsés II, como mostrado na Estela de Merneptá.

  2. Não há evidência de presença israelita numerosa no Egito durante o século XIII a.C.

  3. Os faraós do período eram extremamente documentados, e nenhum registro alude aos eventos do Êxodo.

Por isso, a maioria dos estudiosos descarta Ramsés II e Seti I como o faraó de Êxodo 1:8.

O significado de “não conheceu José”: leitura linguística e histórica

O hebraico bíblico permite múltiplas interpretações para “não conheceu José”:

8.1 Leitura literal

O faraó realmente não sabia quem era José.
Isso pressupõe:

  • ruptura de registros,

  • mudança de dinastia,

  • desinteresse por história recente.

8.2 Leitura política

“Não reconheceu”, ou seja:

  • não reconheceu os méritos de José,

  • rejeitou sua memória,

  • reconsiderou sua política de convivência com estrangeiros.

8.3 Leitura militar e nacionalista

Essa leitura combina melhor com Kamose/Ahmose I, pois:

  • qualquer associação positiva com estrangeiros era vista como ameaça,

  • a narrativa nacionalista egípcia buscava apagar a era dos Hicsos.

A arqueologia confirma algum desses faraós?

A resposta honesta é: não definitivamente.

Mas há evidências que se encaixam bem no cenário descrito em Êxodo:

9.1 Avaris (Tell el-Dab'a)

Escavações mostram:

  • presença semita em grande quantidade,

  • casas no estilo cananeu,

  • túmulos com características asiáticas,

  • aumento populacional seguido de queda brusca.

Isso combina com:

  • crescimento israelita,

  • posterior opressão e expulsão.

9.2 Estelas de Kamose

Mostram o discurso de hostilidade aos “asiáticos”.

9.3 Registros de Ahmose I

Indicam reorganização do Delta e grandes obras.

9.4 Silêncio sobre Israel

O Egito raramente registrava derrotas ou problemas internos.
O silêncio não é prova contra a historicidade bíblica.

Qual faraó é o mais provável?

Depois de analisar:

  • arqueologia,

  • contexto dos Hicsos,

  • política nacionalista,

  • cronologia,

  • texto bíblico,

  • linguística,

  • paralelos históricos,

o resultado mais coerente é o seguinte:

1º candidato (mais forte): Kamose

100% alinhado ao discurso do Êxodo, ao clima de suspeita aos asiáticos e ao contexto imediato de ruptura.

2º candidato (muito forte): Ahmose I

Reorganiza o Egito, expulsa estrangeiros, impõe grande trabalho forçado e inaugura uma nova fase política.

3º candidato (fraco): qualquer faraó da 19ª dinastia

Incluindo Seti I, Ramsés II e Merneptá — pouco provável pelos motivos históricos e arqueológicos.

O que isso significa para os estudos bíblicos e para leitores modernos

  1. A Bíblia se encaixa de forma coerente no Egito real.
    O discurso de Êxodo 1 encontra paralelos claros nas inscrições egípcias.

  2. A narrativa não depende de se saber o nome certo.
    A mensagem teológica é preservada.

  3. Mas saber o nome certo aprofunda a compreensão histórica.
    E fortalece o estudo acadêmico da Bíblia.

João Andrade
João Andrade
Apaixonado pelas histórias bíblicas e um autodidata nos estudos das civilizações e cultura ocidental. Ele é formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas e utiliza a tecnologia para o Reino de Deus.

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