Êxodo 1:8 menciona um misterioso “novo rei sobre o Egito que não conheceu José”. Por séculos, teólogos, arqueólogos e historiadores tentam identificar qual faraó teria inaugurado a política de opressão contra os israelitas — e o que essa frase realmente significa no contexto do Egito antigo. Este artigo apresenta uma análise extensa, reunindo fontes bíblicas, registros egípcios, arqueologia, debates cronológicos e as principais hipóteses modernas (Kamose e Ahmose I), além de explorar propostas menos difundidas, mas academicamente relevantes.
A frase que mudou a história de Israel
O livro de Êxodo começa com uma mudança brusca no destino do povo hebreu no Egito. Depois de descrever o crescimento dos descendentes de Jacó — agora uma comunidade numerosa — o texto bíblico declara:
“Levantou-se sobre o Egito um novo rei, que não conhecera José.”
— Êxodo 1:8
Essa passagem é o ponto de partida do período de opressão que culmina no Êxodo. Mas a identidade desse “novo rei” permanece um dos maiores enigmas da arqueologia bíblica.
A pergunta é crucial por três razões:
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Define a cronologia do Êxodo.
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Conecta o texto bíblico ao Egito real, suas dinastias e eventos históricos.
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Determina o contexto sociopolítico no qual a narrativa se desenvolve.
A referência do Armstrong Institute — “Who Was the Pharaoh Who ‘Knew Not Joseph’?” — argumenta que o melhor candidato é Kamose, enquanto outros estudiosos defendem Ahmose I, fundador da 18ª Dinastia egípcia.
Para contextualizar isso, precisamos entender não apenas o Egito da época, mas o impacto da Era dos Hicsos e a reconfiguração nacional que ocorreu no Egito antes e durante a ascensão dessa geração de faraós.
Antes do “Faraó que não conheceu José”: como José chegou ao poder
Para compreender a ruptura mencionada em Êxodo 1:8, é essencial revisar o cenário em que José era conhecido no Egito.
Segundo o relato de Gênesis:
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José ascende ao poder após interpretar sonhos do faraó.
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Torna-se governador, “segunda autoridade” do reino.
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Administra a crise dos sete anos de fome.
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Sua família se estabelece na região de Gósen (Delta Oriental).
Do ponto de vista histórico, muitos arqueólogos entendem que:
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a chegada de José coincide com um período de forte presença semita no Delta,
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e que o Egito passava por uma fase onde estrangeiros tinham mais mobilidade social (período dos Hicsos ou transições próximas).
Em outras palavras:
José se destacou num Egito com forte influência semita. Isso explica por que ele “era conhecido”.
Mas quando o texto diz que surgiu um faraó “que não conhecia José”, isso sugere:
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mudança abrupta de regime,
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ruptura dinástica,
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e, possivelmente, hostilidade a povos semitas.
Esses três fatores apontam fortemente para um momento específico na história egípcia:
o fim do domínio dos Hicsos e a ascensão dos faraós nacionalistas da 17ª e 18ª dinastias.
O Egito dos Hicsos: o pano de fundo ignorado por muitos intérpretes
Os Hicsos foram governantes de origem semita (provavelmente cananeus) que dominaram o Delta do Nilo por cerca de 100 anos. Sua capital era Avaris, no norte do Egito.
Durante esse período, o Egito estava dividido:
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Norte (Delta) → controlado pelos Hicsos.
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Sul (Tebas) → controlado por faraós egípcios nativos.
Esse cenário ajuda a explicar por que:
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um semita como José podia ascender ao poder,
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e por que a presença israelita foi inicialmente bem recebida.
Quando um faraó inimigo dos Hicsos sobe ao poder e expulsa os estrangeiros, ele só pode olhar para grupos semitas — como os israelitas — com suspeita.
Êxodo 1:8–10 e a linguagem egípcia de hostilidade
Vamos observar o trecho completo:
“E levantou-se um novo rei sobre o Egito, que não conhecera José.
E disse ao seu povo: Eis que o povo dos filhos de Israel é mais numeroso e mais forte do que nós.
Eia, usemos de sabedoria para com eles, para que não se multipliquem, e, sucedendo guerra, não se ajuntem eles com os nossos inimigos...”
— Êxodo 1:8–10
Essa linguagem é extremamente semelhante aos discursos militares egípcios do período final da 17ª Dinastia e início da 18ª Dinastia, especialmente no discurso preservado em estelas de Kamose:
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“o inimigo asiático no Norte”
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“eles são muitos”
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“eles dividem a terra conosco”
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“precisamos expulsá-los”
Essas expressões aparecem nos registros egípcios sobre os Hicsos e ecoam de forma quase direta a linguagem de Êxodo.
Por isso, muitos acadêmicos consideram que o faraó “que não conheceu José” pertence exatamente a esse período.
Hipótese 1 — Kamose: o faraó mais consistente com Êxodo 1:8–10
Kamose foi o último faraó da 17ª Dinastia (c. 1555 a.C.) e liderou a retomada egípcia contra os Hicsos. Seu reinado é curto, mas envolto em nacionalismo, purificação étnica e guerra.
5.1 Por que Kamose é um candidato forte
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Ele inicia a guerra contra os estrangeiros do Norte, vistos como ameaça interna.
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Seus discursos registrados preservam frases muito próximas da retórica do Êxodo.
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Ele é o faraó da ruptura, da transição — o faraó que literalmente “se levanta”.
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A frase “não conheceu José” se encaixa no contexto de um governante que rejeita a era anterior, marcada por influência estrangeira.
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O Armstrong Institute indica que os termos usados na Estela de Kamose ecoam a mentalidade descrita em Êxodo 1.
5.2 Linguagem de Kamose comparada ao Êxodo
Kamose:
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“O governador asiático está em Avaris.”
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“Eles são numerosos e dominam a terra.”
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“Estão dividindo o Egito conosco.”
Êxodo 1:
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“O povo de Israel é mais numeroso e mais forte.”
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“Eles podem se juntar aos nossos inimigos.”
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“Use de sabedoria para com eles.”
A semelhança é tão forte que muitos arqueólogos consideram Kamose o candidato mais plausível.
5.3 Objeção principal
O reinado de Kamose é curto. Alguns argumentam que seria mais lógico que o faraó opressor fosse alguém com governo mais longo.
Mas isso não elimina a hipótese, pois o início da opressão pode ter começado com Kamose e sido consolidado por seu sucessor.
Hipótese 2 — Ahmose I: o fundador da 18ª Dinastia
Ahmose I, filho de Sekenenre e irmão ou sucessor de Kamose, concluiu a expulsão dos Hicsos, unificou o Egito e iniciou a poderosa 18ª Dinastia — a mesma que mais tarde incluiria reis como Tutmés III, Hatshepsut e Amenhotep III.
6.1 Por que muitos estudiosos preferem Ahmose I
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Ele é o responsável por expulsar definitivamente os estrangeiros.
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Inicia uma política nacionalista forte.
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Reconstrói Avaris, transformando-a em base militar.
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Seu reinado é mais longo, permitindo políticas sistemáticas de opressão.
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A transição dinástica do fim dos Hicsos para o início da 18ª Dinastia representa bem o “novo rei”.
6.2 Obras de construção associados ao trabalho forçado
Ahmose conduz grandes projetos:
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reconstrução de cidades do Delta,
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depósitos de grãos,
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armazéns,
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construções militares.
Isso combina diretamente com Êxodo 1:11, que menciona a imposição de capatazes e trabalhos forçados.
6.3 Objeção principal
A crítica mais forte é cronológica: identificar Ahmose I como “o faraó que não conheceu José” implica que:
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o Êxodo teria ocorrido muito antes da data tradicional,
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ou teria ocorrido durante um período intermediário diferente do modelo popular (século XIII a.C.).
Mas isso não inviabiliza a hipótese, apenas indica que o cronograma tradicional poderia estar deslocado.
Hipótese 3 — Faraós posteriores (Hatshepsut, Tutmés III, Ramsés II): por que são improváveis
Algumas tradições e filmes populares associam:
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a opressão a Seti I,
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o Êxodo a Ramsés II.
Esse modelo é baseado no fato de que a cidade de Pitom e Ramessés aparece no texto bíblico. Mas a arqueologia moderna tem mostrado inconsistências importantes:
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Israel já existia como entidade na época de Ramsés II, como mostrado na Estela de Merneptá.
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Não há evidência de presença israelita numerosa no Egito durante o século XIII a.C.
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Os faraós do período eram extremamente documentados, e nenhum registro alude aos eventos do Êxodo.
Por isso, a maioria dos estudiosos descarta Ramsés II e Seti I como o faraó de Êxodo 1:8.
O significado de “não conheceu José”: leitura linguística e histórica
O hebraico bíblico permite múltiplas interpretações para “não conheceu José”:
8.1 Leitura literal
O faraó realmente não sabia quem era José.
Isso pressupõe:
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ruptura de registros,
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mudança de dinastia,
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desinteresse por história recente.
8.2 Leitura política
“Não reconheceu”, ou seja:
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não reconheceu os méritos de José,
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rejeitou sua memória,
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reconsiderou sua política de convivência com estrangeiros.
8.3 Leitura militar e nacionalista
Essa leitura combina melhor com Kamose/Ahmose I, pois:
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qualquer associação positiva com estrangeiros era vista como ameaça,
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a narrativa nacionalista egípcia buscava apagar a era dos Hicsos.
A arqueologia confirma algum desses faraós?
A resposta honesta é: não definitivamente.
Mas há evidências que se encaixam bem no cenário descrito em Êxodo:
9.1 Avaris (Tell el-Dab'a)
Escavações mostram:
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presença semita em grande quantidade,
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casas no estilo cananeu,
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túmulos com características asiáticas,
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aumento populacional seguido de queda brusca.
Isso combina com:
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crescimento israelita,
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posterior opressão e expulsão.
9.2 Estelas de Kamose
Mostram o discurso de hostilidade aos “asiáticos”.
9.3 Registros de Ahmose I
Indicam reorganização do Delta e grandes obras.
9.4 Silêncio sobre Israel
O Egito raramente registrava derrotas ou problemas internos.
O silêncio não é prova contra a historicidade bíblica.
Qual faraó é o mais provável?
Depois de analisar:
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arqueologia,
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contexto dos Hicsos,
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política nacionalista,
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cronologia,
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texto bíblico,
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linguística,
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paralelos históricos,
o resultado mais coerente é o seguinte:
1º candidato (mais forte): Kamose
100% alinhado ao discurso do Êxodo, ao clima de suspeita aos asiáticos e ao contexto imediato de ruptura.
2º candidato (muito forte): Ahmose I
Reorganiza o Egito, expulsa estrangeiros, impõe grande trabalho forçado e inaugura uma nova fase política.
3º candidato (fraco): qualquer faraó da 19ª dinastia
Incluindo Seti I, Ramsés II e Merneptá — pouco provável pelos motivos históricos e arqueológicos.
O que isso significa para os estudos bíblicos e para leitores modernos
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A Bíblia se encaixa de forma coerente no Egito real.
O discurso de Êxodo 1 encontra paralelos claros nas inscrições egípcias. -
A narrativa não depende de se saber o nome certo.
A mensagem teológica é preservada. -
Mas saber o nome certo aprofunda a compreensão histórica.
E fortalece o estudo acadêmico da Bíblia.