Arqueologia Encontrou a Muralha de Josué?

Jan 2026
Tempo de estudo | 16 minutos
Atualizado em 12/01/2026
Arqueologia
Arqueologia Encontrou a Muralha de Josué?

A narrativa bíblica das muralhas de Jericó que desmoronaram ao som de trombetas é uma das histórias mais conhecidas do Antigo Testamento. Por mais de um século, arqueólogos escavaram Tell es-Sultan, o sítio identificado como a antiga Jericó, em busca de evidências concretas. Mas o que a ciência realmente descobriu? As muralhas existiram? Caíram conforme o relato de Josué? E o mais importante: quando isso aconteceu?

Este artigo apresenta uma análise completa baseada em fontes bíblicas, registros arqueológicos e pesquisas históricas, revelando o que sabemos com certeza e o que ainda permanece em debate acadêmico.

Jericó em Dados

Nome: Jericó (Tell es-Sultan)
Localização: Vale do Jordão, Cisjordânia
Período: Idade do Bronze (c. 3000-1200 a.C.)
Livro bíblico: Josué 6
Evento central: Conquista de Canaã pelos israelitas
Descoberta arqueológica: Sistema duplo de muralhas colapsadas
Datação debatida: 1550 a.C. vs. 1400 a.C.

Cidade de Jericó

O Relato Bíblico: A Conquista de Jericó

Segundo Josué 6, após quarenta anos no deserto, o povo de Israel estava pronto para entrar na Terra Prometida. Jericó seria a primeira cidade fortificada a ser conquistada, guardando o acesso estratégico do vale do Jordão às montanhas centrais de Canaã.

A Estratégia Divina

A conquista de Jericó não seguiu padrões militares convencionais. Durante seis dias consecutivos, os israelitas marcharam silenciosamente ao redor da cidade uma vez por dia. Sete sacerdotes tocavam shofar (trombetas de chifre de carneiro) carregando a Arca da Aliança. No sétimo dia, marcharam sete vezes, os sacerdotes tocaram as trombetas, o povo soltou um grito de guerra ensurdecedor, e as muralhas "caíram achatadas" (naphal em hebraico).

O texto é específico: "Caiu o muro abaixo, e o povo subiu à cidade, cada um em frente de si, e tomaram a cidade" (Josué 6:20). A descrição sugere um colapso que permitiu acesso direto à cidade, não apenas uma brecha nas muralhas.

O Herem: Destruição Consagrada

Jericó foi dedicada ao herem (חֵרֶם) — destruição total consagrada a Deus. Tudo na cidade pertencia ao Senhor: pessoas, animais e bens foram destruídos, exceto os metais preciosos reservados para o tesouro sagrado. Apenas Raabe e sua família foram poupados por terem escondido os espias israelitas.

História das Escavações Arqueológicas

Primeiras Expedições (1907-1909)

As primeiras escavações sistemáticas foram conduzidas por Ernst Sellin e Carl Watzinger, arqueólogos alemães que identificaram múltiplas camadas de ocupação. Porém, as técnicas da época eram limitadas e as conclusões, preliminares.

John Garstang (1930-1936)

O arqueólogo britânico John Garstang revolucionou a arqueologia de Jericó com descobertas surpreendentes:

John Garstang
  • Identificou um sistema duplo de muralhas que haviam colapsado violentamente
  • Encontrou evidências de destruição massiva por fogo
  • Datou inicialmente a destruição em aproximadamente 1400 a.C.
  • Descobriu grandes quantidades de grãos preservados, indicando conquista rápida

Garstang ficou convencido de ter encontrado evidências da conquista relatada em Josué. Suas conclusões geraram entusiasmo entre estudiosos conservadores.

Kathleen Kenyon (1952-1958)

Dame Kathleen Kenyon, arqueóloga britânica, introduziu métodos estratigráficos modernos e chegou a conclusões radicalmente diferentes:

Kathleen Kenyon
  • Redatou a destruição das muralhas para aproximadamente 1550 a.C.
  • Concluiu que Jericó estava desabitada durante o período tradicionalmente atribuído à conquista (1400 a.C.)
  • Afirmou que a erosão havia destruído evidências do período relevante
  • Suas conclusões dominaram o campo acadêmico por décadas

O trabalho de Kenyon levou muitos estudiosos a questionar a historicidade da narrativa de Josué ou a propor cronologias alternativas para o Êxodo.

A Revolução de Bryant Wood (1990)

Em 1990, o arqueólogo americano Dr. Bryant Wood publicou uma reanálise revolucionária dos dados de Kenyon no Biblical Archaeology Review. Wood demonstrou que Kenyon havia cometido um erro crítico na datação.

Dr. Bryant Wood

O Erro da Cerâmica Cipriota

Kenyon baseou sua datação tardia (1550 a.C.) principalmente na ausência de cerâmica cipriota importada, que se tornou comum após 1400 a.C. Wood demonstrou que:

  • A cerâmica cipriota era cara e rara, encontrada principalmente em cidades costeiras ricas
  • Jericó, cidade do interior, não teria necessariamente esse tipo de cerâmica
  • A cerâmica local encontrada era consistente com o período 1400 a.C.
  • Escaravelhos egípcios encontrados confirmavam a datação mais recente

Redatação para 1400 a.C.

Wood concluiu que a destruição de Jericó ocorreu por volta de 1400 a.C., precisamente o período que estudiosos conservadores atribuem à conquista de Josué. Esta datação se alinha com:

  • A cronologia tradicional que coloca o Êxodo em 1446 a.C. (baseado em 1 Reis 6:1)
  • 40 anos no deserto + início da conquista ≈ 1406 a.C.
  • Evidências de destruição em outras cidades canaanitas no mesmo período

Evidências Arqueológicas Específicas

1. Sistema Duplo de Muralhas

Ilustração Muralhas de Jericó

As escavações revelaram que Jericó possuía fortificações impressionantes:

  • Muralha externa: Aproximadamente 2 metros de espessura, tijolos de barro sobre fundação de pedra
  • Muralha interna: Cerca de 3,5 metros de espessura, construída no topo de um talude
  • Distância entre muralhas: Aproximadamente 4,5 metros

O colapso anômalo: Garstang e outros arqueólogos documentaram que as muralhas caíram para fora e para baixo, criando rampas de escombros. Este padrão é arqueologicamente incomum — em cercos militares típicos, muralhas caem para dentro da cidade devido a sapadores ou aríetes.

2. Destruição por Fogo Intenso

Todas as escavações confirmaram destruição total por fogo:

  • Camadas espessas de cinzas e destroços carbonizados
  • Madeira e tijolos queimados em toda a cidade
  • Evidências de fogo extremamente intenso
  • Padrão consistente com destruição intencional

Isso corresponde ao relato bíblico: "Porém a cidade e tudo quanto havia nela queimaram a fogo" (Josué 6:24).

3. Grãos Preservados: A Anomalia Arqueológica

Uma das descobertas mais intrigantes: grandes quantidades de grãos não consumidos foram encontrados nos armazéns da cidade, preservados por carbonização.

Por que isso é significativo?

  • Em cercos prolongados, grãos seriam consumidos pelos defensores
  • Em conquistas militares típicas, vencedores saqueiam alimentos
  • A presença de grãos intactos sugere conquista rápida (compatível com 7 dias)
  • Indica que conquistadores não saquearam os alimentos (compatível com herem)

4. Cerâmica do Bronze Tardio I

Wood identificou abundante cerâmica do período Bronze Tardio I (1400-1350 a.C.) nas próprias escavações de Kenyon:

  • Jarros de armazenamento típicos do período
  • Tigelas e pratos domésticos característicos
  • Formas e decorações de 1400 a.C.
  • Ausência de formas de períodos posteriores

5. Escaravelhos Egípcios

Foram encontrados escaravelhos com inscrições de faraós da 18ª dinastia egípcia, incluindo:

Três escaravelhos e um selo recuperados de um cemitério a noroeste de Jericó.
  • Amenhotep III (1390-1352 a.C.)
  • Outros faraós do mesmo período
  • Ausência de escaravelhos de períodos posteriores

Esses artefatos estabelecem um terminus ante quem (limite antes do qual) para a destruição da cidade, confirmando a datação de Wood.

6. Abandono Prolongado

Após a destruição de 1400 a.C., Jericó permaneceu desabitada por séculos. Há:

  • Lacuna na sequência ocupacional
  • Nenhuma reconstrução imediata
  • Período de abandono consistente com a maldição de Josué

Josué declarou: "Maldito diante do Senhor seja o homem que se levantar e reedificar esta cidade de Jericó" (Josué 6:26). Segundo 1 Reis 16:34, a cidade só foi reconstruída cerca de 500 anos depois, durante o reinado de Acabe.

7. Seções Intactas da Muralha

Alguns arqueólogos notaram que seções das muralhas permaneceram intactas em meio ao colapso generalizado. Segundo Josué 6:22-23, a casa de Raabe, construída na muralha, foi poupada.

Embora seja impossível confirmar que eram especificamente a casa de Raabe, a existência de partes intactas em meio ao colapso é notável e corresponde ao relato bíblico.

Debates Científicos e Controvérsias

Cronologia: O Problema Central

O debate sobre Jericó não gira em torno da existência de muralhas destruídas — isso é amplamente aceito. A questão central é: quando ocorreu a destruição?

Cronologia Alta (Tradicional):

  • Êxodo: 1446 a.C. (baseado em 1 Reis 6:1)
  • Conquista de Jericó: c. 1406 a.C.
  • Apoiada por Bryant Wood e estudiosos conservadores
  • Alinha-se com evidências de destruição em 1400 a.C.

Cronologia Baixa (Crítica):

  • Êxodo: século 13 a.C. ou data indeterminada
  • Conquista: variada ou não histórica
  • Apoiada por muitos acadêmicos seculares
  • Resulta em descompasso com destruição de 1400 a.C.

Modelos Alternativos de Conquista

Alguns estudiosos propõem que não houve conquista militar massiva:

Teoria da Infiltração Pacífica: Grupos seminômades israelitas se estabeleceram gradualmente em Canaã ao longo de gerações.

Teoria da Revolta Camponesa: Os "israelitas" eram na verdade canaanitas locais que se rebelaram contra as elites urbanas.

Modelo Misto: Combinação de conquista militar, infiltração pacífica e assimilação cultural.

Essas teorias minimizam a historicidade do relato de Josué, mas enfrentam dificuldades explicando as evidências de:

  • Destruição violenta e simultânea de múltiplas cidades
  • Mudanças culturais abruptas no registro arqueológico
  • Padrões de assentamento consistentes com conquista militar

Minimismo Bíblico

A "Escola de Copenhague" e outros minimistas argumentam que:

  • As narrativas de Josué são ficções tardias compostas durante o exílio babilônico (séc. 6 a.C.)
  • Não refletem eventos históricos reais do Bronze Tardio
  • São propaganda política do período pós-exílico

Esta posição extrema é minoritária e enfrenta críticas até de estudiosos críticos moderados, que reconhecem núcleos históricos nas tradições antigas.

Contexto Histórico e Bíblico

Jericó no Plano da Conquista

Jericó não era apenas a primeira cidade conquistada — tinha importância estratégica crucial:

  • Controle militar: Guardava a passagem do vale do Jordão para as montanhas centrais
  • Simbolismo espiritual: Primeira vitória demonstrava o poder de Deus sobre Canaã
  • Precedente teológico: Estabelecia o padrão do herem para outras cidades
  • Teste de fé: Requeria obediência absoluta a instruções aparentemente absurdas

Conexão com o Êxodo

A conquista de Jericó é continuação direta do Êxodo:

  • Promessas feitas aos patriarcas começam a se cumprir
  • Geração que saiu do Egito (exceto Josué e Calebe) havia morrido
  • Nova geração foi circuncidada em Gilgal antes da conquista
  • Páscoa foi celebrada pela primeira vez na Terra Prometida

A queda de Jericó marca a transição do período do deserto para o período da conquista.

Análise Linguística: "Naphal"

O hebraico naphal (נָפַל) usado para descrever a queda das muralhas significa:

  • Sentido literal: Cair, desmoronar, colapsar
  • Uso militar: Ser derrubado, derrotado
  • Contexto: Colapso súbito e completo
  • Implicação teológica: Não foi derrubado por esforço humano, mas caiu por si

Esta escolha lexical enfatiza o caráter sobrenatural do evento.

O Herem: Destruição Consagrada

O conceito de herem (חֵרֶם) é central para compreender Jericó:

  • Significado: "Dedicado", "consagrado", "separado"
  • Prática: Tudo pertencia a Deus, não aos conquistadores
  • Aplicação: Destruição total de pessoas, animais e bens (exceto metais preciosos)
  • Violação: Acã roubou itens dedicados, trazendo derrota em Ai (Josué 7)

Embora perturbadora para sensibilidades modernas, esta prática tinha propósitos teológicos específicos no contexto da conquista.

Evidências Históricas e Arqueológicas em Outras Cidades

Hazor

Hazor, mencionada em Josué 11:10-13 como a maior cidade canaanita, mostra:

  • Destruição massiva por fogo no Bronze Tardio
  • Camada de cinzas de mais de 1 metro de espessura
  • Datação consistente com 1400-1350 a.C.
  • Ausência de continuidade cultural

Laquis

Laquis apresenta evidências de conquista violenta:

  • Destruição das fortificações
  • Mudança abrupta no padrão de assentamento
  • Datação Bronze Tardio compatível

Ai

Ai ("ruína" em hebraico) representa um desafio arqueológico. O sítio identificado como Ai (et-Tell) mostra abandono antes de 1400 a.C., levando a debates sobre:

  • Identificação correta do sítio
  • Possibilidade de Ai ser um nome simbólico
  • Problemas de preservação arqueológica

Teologia Aplicada: O Que Jericó Ensina

Sobre a Providência Divina

A conquista de Jericó demonstra que Deus cumpre suas promessas, mesmo quando as circunstâncias parecem impossíveis. As muralhas eram impenetráveis por meios humanos, mas Deus tinha um plano.

Sobre Obediência

Israel teve que obedecer instruções que pareciam absurdas militarmente:

  • Marchar silenciosamente ao redor da cidade
  • Não atacar durante 6 dias
  • Confiar que gritar derrubaria muralhas

A vitória veio através da obediência, não da estratégia humana.

Sobre Santidade

O herem ensinava que Deus é santo e exige consagração total. Jericó era as "primícias" da conquista, totalmente dedicadas a Ele. A violação de Acã resultou em derrota, ensinando que a santidade de Deus não pode ser tratada levianamente.

Sobre Graça

Em meio ao juízo sobre Jericó, Deus mostrou graça a Raabe e sua família. Uma prostituta canaanita que demonstrou fé foi salva e até incluída na linhagem de Jesus Cristo (Mateus 1:5).

Conclusão: O Que Podemos Afirmar?

Então, a arqueologia encontrou as muralhas de Josué? A resposta honesta é: provavelmente sim, mas com nuances importantes.

O Que Sabemos com Certeza

  • Jericó tinha um sistema duplo de muralhas impressionante
  • A cidade foi violenta e completamente destruída por fogo
  • As muralhas caíram de forma incomum (para fora e para baixo)
  • Grandes quantidades de grãos foram deixadas sem serem consumidas
  • A cidade permaneceu desabitada por longo período após destruição
  • Cerâmica e artefatos são consistentes com datação de 1400 a.C.

O Que Permanece Debatido

  • Datação exata da destruição (1550 a.C. vs. 1400 a.C.)
  • Identidade dos conquistadores (não pode ser confirmada arqueologicamente)
  • Papel de fatores naturais (terremotos) vs. sobrenaturais
  • Cronologia do Êxodo e da conquista

Perspectiva Equilibrada

Para aqueles que aceitam a confiabilidade histórica das Escrituras, as evidências arqueológicas de Jericó são notavelmente consistentes com o relato de Josué quando propriamente datadas. O trabalho de Bryant Wood demonstrou que as conclusões de Kenyon foram baseadas em suposições questionáveis.

Para céticos, as evidências mostram no mínimo que uma cidade fortemente fortificada foi conquistada e destruída precisamente no período que a Bíblia descreve, de uma maneira que corresponde aos detalhes do relato bíblico.

A arqueologia tem suas limitações. Ela pode confirmar que eventos ocorreram, mas raramente pode provar aspectos sobrenaturais ou motivações espirituais. A queda das muralhas de Jericó permanece como um dos episódios mais fascinantes na interseção entre arqueologia bíblica, história antiga e fé religiosa.

Uma coisa é certa: as ruínas silenciosas de Tell es-Sultan continuam a testemunhar que algo extraordinário aconteceu naquele local há mais de 3.400 anos — algo tão significativo que seus ecos reverberam até hoje nos debates acadêmicos e na fé de milhões.

Este estudo é baseado em fontes bíblicas, registros arqueológicos e pesquisas históricas confiáveis, refletindo o compromisso do Portal Heróis da Bíblia com conteúdo fundamentado e verificável.

Artigos Relacionados

Perguntas Frequentes

João Andrade
João Andrade
Apaixonado pelas histórias bíblicas e um autodidata nos estudos das civilizações e cultura ocidental. Ele é formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas e utiliza a tecnologia para o Reino de Deus.

Descubra os Segredos da Bíblia

Você está a um passo de mergulhar profundamente nas riquezas históricas e culturais da Bíblia. Seja membro e tenha acesso exclusivo a conteúdos que vão transformar sua compreensão das Escrituras.