O Enuma Elish é Mais Antigo que Gênesis? O Que a Arqueologia Realmente Diz

Nov 2025
Tempo de estudo | 12 minutos
Atualizado em 12/01/2026
Arqueologia
O Enuma Elish é Mais Antigo que Gênesis? O Que a Arqueologia Realmente Diz

Por que estudar o Enuma Elish hoje?

Entre todos os textos da Mesopotâmia antiga — berço de impérios, cidades e das primeiras formas de escrita — nenhum é tão famoso e debatido quanto o Enuma Elish, o épico babilônico da criação.

Para estudiosos da Bíblia, arqueólogos, cristãos e interessados em história antiga, o Enuma Elish é importante por um motivo simples:

  1. É o texto mais citado quando se fala que “Gênesis copiou mitos pagãos”.
  2. Mas também é um dos textos que mais ajudam a confirmar a singularidade teológica de Gênesis.

Por isso, estudar o Enuma Elish sob uma perspectiva bíblica e acadêmica é essencial para qualquer pessoa que queira entender:

  • como era o pensamento religioso da Mesopotâmia;

  • como o texto bíblico dialoga (ou rompe) com essas crenças;

  • por que Gênesis é único e completamente diferente;

  • e como a arqueologia ajuda a separar fatos de mitos modernos.

O que é o Enuma Elish?

O Enuma Elish é um épico de criação babilônico, escrito em acádio e registrado em sete tabuinhas encontradas principalmente na biblioteca de Assurbanípal (Nínive), datadas do século VII a.C., embora a composição seja muito mais antiga — aproximadamente entre 1800–1600 a.C.

Seu título “Enuma Elish” significa:

“Quando nas alturas…”
(As palavras de abertura da tabuinha 1)

Ele descreve:

  • o nascimento dos deuses,

  • uma guerra divina,

  • a ascensão de Marduque como deus supremo,

  • e a criação do mundo e do homem a partir do cadáver de uma deusa.

Onde o Enuma Elish foi encontrado?

As principais tabuinhas foram escavadas por Austen Henry Layard e Hormuzd Rassam, no século XIX, nas ruínas da antiga Nínive, no palácio de Assurbanípal.

Descobertas adicionais vieram de:

  • Ashur,

  • Babilônia,

  • Kish,

  • e outras cidades mesopotâmicas.

Hoje elas se encontram espalhadas em:

  • Museu Britânico (Londres),

  • Museu de Istambul,

  • Museu de Berlim,

  • e coleções acadêmicas.

A descoberta do Enuma Elish foi um marco na história da arqueologia bíblica, porque:

  1. pela primeira vez, o mundo viu um “relato de criação antigo” anterior à edição final do Gênesis.
  2. e críticos da Bíblia usaram isso para dizer que “a Bíblia copiou o mito babilônico”.

Mas como veremos, essa conclusão é superficial e ignorante diante da análise séria.

Como o Enuma Elish funcionava na religião babilônica

Na Babilônia, o Enuma Elish não era apenas literatura — era um texto litúrgico, usado na grande festa de Ano Novo chamada:

Akitu

Durante o festival:

  • sacerdotes recitavam o texto em voz alta,

  • a estátua de Marduque era levada pelas ruas,

  • rituais de purificação e submissão aconteciam,

  • o rei se prostrava diante de Marduque,

  • a autoridade real era renovada simbolicamente.

Ou seja:

  • O Enuma Elish justificava politicamente e religiosamente a supremacia de Marduque e da própria Babilônia.

É um texto de propaganda religiosa e nacionalista.

O enredo do Enuma Elish

Vou resumir de forma ordenada para ficar claro o contraste com Gênesis:

5.1 O nascimento dos deuses

Primeiro não existe nada — apenas águas primordiais divididas em:

  • Apsu (águas doces masculinas)

  • Tiamat (águas salgadas femininas)

Eles se misturam e geram uma série de deuses mais jovens.

5.2 A guerra divina

Os deuses mais jovens fazem barulho demais.
Apsu quer matá-los.
Tiamat é contra, mas depois muda de ideia e cria monstros.

Os deuses, aterrorizados, procuram um herói.

O jovem Marduque se oferece para lutar, com uma condição:

Se eu vencer, serei o deus supremo.

5.3 A vitória de Marduque

Após uma batalha épica, Marduque derrota Tiamat:

  • abre seu corpo em dois,

  • com uma metade cria o céu,

  • com a outra metade cria a terra.

5.4 A criação do homem

O homem é feito a partir:

  • do sangue de Kingu (o consorte de Tiamat),

  • misturado com barro,

Para qual propósito?

Para servir os deuses.
Para que os deuses menores não precisem trabalhar.

5.5 O estabelecimento de Babilônia

O último ato exalta Babilônia como cidade divina, e Marduque como soberano do cosmos.

Por que o Enuma Elish existia? 

Acadêmicos são unânimes:

✦ O Enuma Elish NÃO é uma “explicação científica” da criação.

✦ Ele é uma peça religiosa com três funções:

1. Justificar a supremacia de Marduque

Ele derrota Tiamat → vira rei dos deuses.

2. Justificar a supremacia da Babilônia

A cidade é “centro do universo”.

3. Subordinar o homem

Humanidade existe para servir aos deuses como escravos.

Essa visão contrasta violentamente com Gênesis.
E é aqui que começamos a entrar no terreno apologético.

Diferença fundamental entre Enuma Elish e Gênesis

Você vai perceber que:

apesar das similaridades superficiais (água, divisão, criação, etc.)
o propósito, teologia, linguagem e visão de mundo são totalmente diferentes.

Gênesis é:

  • monoteísta,

  • ético,

  • sem mitologia sexual,

  • sem violência entre deuses,

  • sem caos personificado,

  • sem guerra cósmica.

E apresenta um Deus:

  • único,

  • eterno,

  • soberano,

  • moral,

  • criador sem rival.

O Enuma Elish, por outro lado, é:

  • politeísta,

  • violento,

  • mitológico,

  • sexualizado,

  • politizado,

  • nacionalista.

Não há comparação séria entre os dois.

A Teologia do Enuma Elish e Como Ela Contrasta com Gênesis

Nesta parte, vamos entrar no “coração” do Enuma Elish:
sua cosmovisão, sua teologia, seu propósito espiritual e político, e o que isso revela sobre o pensamento religioso da Babilônia — para então contrastar diretamente com Gênesis.

O objetivo aqui é mostrar por que a Bíblia não pode ter sido derivada desse mito, mesmo que ambos existam no mesmo “ambiente literário” do Oriente Próximo.

A Cosmovisão Babilônica: O Universo Como Campo de Batalha

A primeira característica fundamental do Enuma Elish é a visão de mundo:

O cosmos nasce do caos, da violência e da guerra entre deuses.

Não existe ordem natural.
Não existe propósito moral.
Não existe bem contra mal.
Existe apenas:

  • força,

  • conflito,

  • poder,

  • magia,

  • dominação.

Tiamat, a deusa do caos, representa o “oceano primordial”.
O mundo só existe porque Marduque a mata e usa seu cadáver como matéria-prima.

Isso é crucial para entender a teologia babilônica:

  • O universo é resultado de conflito.
  • A criação é acidental e violenta.
  • O mundo está em constante ameaça de retornar ao caos.

Esse pensamento é chamado pelos estudiosos de:

Cosmogonia de conflito

(cosmos + gonos = origem; conflito como causa)

Essa visão é totalmente anti-bíblica, como veremos a seguir.

A Teologia do Enuma Elish: Deuses Instáveis e Moralmente Fracos

O Enuma Elish apresenta deuses que:

  • nascem,

  • brigam,

  • mentem,

  • traem,

  • mudam de humor,

  • morrem,

  • podem ser derrotados.

Do ponto de vista teológico:

- Eles não são eternos.

- Eles não são soberanos.

- Eles não são morais.

- Eles não são criadores “por essência”.

Eles são parte do cosmos, não seu Criador.
Eles surgem após as águas primordiais, não antes.

O mundo bíblico é exatamente o oposto.

A Criação da Humanidade no Enuma Elish: Escravos dos Deuses

Aqui está um dos pontos mais chocantes:

O homem é criado como escravo.

Feito para aliviar os deuses menores de suas tarefas.

A frase-chave da tabuinha VI diz:

“Criemos o homem para que ele carregue o fardo.”

O homem existe para:

  • servir,

  • trabalhar,

  • obedecer,

  • sustentar templos,

  • alimentar os deuses.

Ou seja:

- A humanidade não é amada.

- A humanidade não tem dignidade própria.

- A humanidade é ferramenta.

O Enuma Elish revela uma visão profundamente utilitarista do ser humano.

E isso vai contrastar de forma brutal com Gênesis.

O Objetivo Político do Enuma Elish: Exaltar a Babilônia e Marduque

Nenhum estudioso sério considera o Enuma Elish apenas um mito religioso.
Ele é simultaneamente:

  • um manifesto político,

  • um instrumento de controle ideológico,

  • uma propaganda nacionalista.

Porque se Marduque é o rei dos deuses…

… então o rei da Babilônia é seu representante terrestre.

Essa ligação entre “rei celestial” e “rei terreno” é o fundamento da monarquia babilônica.

O povo acreditava que:

  • sua nação era o centro do universo,

  • sua cidade era escolhida pelos deuses,

  • sua capital era literalmente o “umbigo do mundo”.

Essa teologia nacionalista é típica do Oriente Próximo.
E Gênesis vai subverter isso completamente.

Comparação Estrutural: Enuma Elish vs Gênesis 1–2

Agora entra a parte mais esperada do artigo:
a comparação literária e teológica entre os textos.

Aqui está uma tabela comparativa clara:

Enuma Elish

  • Politeísta

  • Deuses nascem e morrem

  • Criação surge do caos e da violência

  • Universo é produto de uma guerra

  • Humanidade serve aos deuses

  • Homem feito de sangue de um deus assassinado

  • Criação é um subproduto acidental

  • Não há moralidade universal

  • Propósito do texto: exaltar a Babilônia

  • Tempo ligado às festas de Marduque

Gênesis

  • Monoteísta absoluto

  • Deus é eterno, sem origem

  • Criação é ordem intencional

  • Universo nasce de comando racional (“Haja…”)

  • Humanidade é imagem de Deus

  • Homem é formado com dignidade

  • Criação é boa

  • Fala em moralidade, ética e propósito

  • Propósito do texto: revelar Deus

  • Tempo ligado ao shabat, não a festas pagãs

Diferenças Teológicas Fundamentais

Vamos explorar agora, ponto por ponto:

13.1 Deus vs. Deuses

Gênesis:

No princípio, Deus criou…
(Deus único, pessoal, eterno, soberano)

Enuma Elish:

Os deuses nascem do caos, brigam e um vence por força.

Conclusão:
São visões de mundo inconciliáveis.

13.2 Criação por Palavra vs. Criação por Violência

Gênesis:

“E disse Deus: haja luz.”
A criação é palavra, razão, ordem.

Enuma Elish:

Marduque rasga Tiamat e faz o mundo do corpo dela.

Conclusão:
Gênesis descreve um universo racional e intencional.
O Enuma Elish descreve um universo irracional e conflituoso.

13.3 Dignidade humana vs. Escravidão humana

Gênesis:

“Façamos o homem à nossa imagem.”
Humanidade tem valor intrínseco.

Enuma Elish:

“Criemos o homem para carregar o fardo.”
Humanidade existe para servir deuses frágeis.

Conclusão:
Não há como igualar essas antropologias.

13.4 O papel do cosmos

Gênesis apresenta:

  • ordem,

  • propósito,

  • bondade,

  • equilíbrio.

Enuma Elish apresenta:

  • caos,

  • violência,

  • instabilidade,

  • medo.

13.5 Moralidade

Gênesis introduz:

  • certo e errado,

  • responsabilidade moral,

  • criação boa,

  • humanidade responsável.

O Enuma Elish não possui moralidade.
Os deuses não são bons nem justos — são poderosos.

O Argumento Crítico Moderno: “Gênesis Copiou o Enuma Elish”

Essa afirmação — repetida em blogs, documentários de TV e aulas superficiais — é profundamente equivocada.

A comparação séria mostra que:

  • a teologia é diferente,

  • a linguagem é diferente,

  • a estrutura é diferente,

  • o propósito é diferente,

  • a visão de mundo é diferente.

As poucas semelhanças são:

  • água primordial,

  • processos de separação,

  • criação do homem,

  • ordem do cosmos,

… mas isso é exatamente o que esperaríamos de qualquer cultura tentando explicar a criação do mundo.

Semelhança superficial não é dependência literária.

A Pergunta Final: Por que Gênesis é tão diferente?

A resposta teológica:

- Porque Gênesis não nasce da teologia babilônica, mas da revelação divina ao povo de Israel.

A resposta acadêmica:

- Porque Gênesis representa uma revolução teológica inédita no Oriente Próximo.

A resposta histórica:

- Porque Israel desenvolveu uma cosmovisão monoteísta, ética e espiritual, em contraste com todas as religiões vizinhas.

A resposta espiritual:

- Porque enquanto o Enuma Elish tenta explicar o poder da Babilônia, Gênesis tenta revelar o caráter de Deus.

João Andrade
João Andrade
Apaixonado pelas histórias bíblicas e um autodidata nos estudos das civilizações e cultura ocidental. Ele é formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas e utiliza a tecnologia para o Reino de Deus.

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