Por que estudar o Enuma Elish hoje?
Entre todos os textos da Mesopotâmia antiga — berço de impérios, cidades e das primeiras formas de escrita — nenhum é tão famoso e debatido quanto o Enuma Elish, o épico babilônico da criação.
Para estudiosos da Bíblia, arqueólogos, cristãos e interessados em história antiga, o Enuma Elish é importante por um motivo simples:
- É o texto mais citado quando se fala que “Gênesis copiou mitos pagãos”.
- Mas também é um dos textos que mais ajudam a confirmar a singularidade teológica de Gênesis.
Por isso, estudar o Enuma Elish sob uma perspectiva bíblica e acadêmica é essencial para qualquer pessoa que queira entender:
-
como era o pensamento religioso da Mesopotâmia;
-
como o texto bíblico dialoga (ou rompe) com essas crenças;
-
por que Gênesis é único e completamente diferente;
-
e como a arqueologia ajuda a separar fatos de mitos modernos.
O que é o Enuma Elish?
O Enuma Elish é um épico de criação babilônico, escrito em acádio e registrado em sete tabuinhas encontradas principalmente na biblioteca de Assurbanípal (Nínive), datadas do século VII a.C., embora a composição seja muito mais antiga — aproximadamente entre 1800–1600 a.C.
Seu título “Enuma Elish” significa:
“Quando nas alturas…”
(As palavras de abertura da tabuinha 1)
Ele descreve:
-
o nascimento dos deuses,
-
uma guerra divina,
-
a ascensão de Marduque como deus supremo,
-
e a criação do mundo e do homem a partir do cadáver de uma deusa.
Onde o Enuma Elish foi encontrado?
As principais tabuinhas foram escavadas por Austen Henry Layard e Hormuzd Rassam, no século XIX, nas ruínas da antiga Nínive, no palácio de Assurbanípal.
Descobertas adicionais vieram de:
-
Ashur,
-
Babilônia,
-
Kish,
-
e outras cidades mesopotâmicas.
Hoje elas se encontram espalhadas em:
-
Museu Britânico (Londres),
-
Museu de Istambul,
-
Museu de Berlim,
-
e coleções acadêmicas.
A descoberta do Enuma Elish foi um marco na história da arqueologia bíblica, porque:
- pela primeira vez, o mundo viu um “relato de criação antigo” anterior à edição final do Gênesis.
- e críticos da Bíblia usaram isso para dizer que “a Bíblia copiou o mito babilônico”.
Mas como veremos, essa conclusão é superficial e ignorante diante da análise séria.
Como o Enuma Elish funcionava na religião babilônica
Na Babilônia, o Enuma Elish não era apenas literatura — era um texto litúrgico, usado na grande festa de Ano Novo chamada:
Akitu
Durante o festival:
-
sacerdotes recitavam o texto em voz alta,
-
a estátua de Marduque era levada pelas ruas,
-
rituais de purificação e submissão aconteciam,
-
o rei se prostrava diante de Marduque,
-
a autoridade real era renovada simbolicamente.
Ou seja:
- O Enuma Elish justificava politicamente e religiosamente a supremacia de Marduque e da própria Babilônia.
É um texto de propaganda religiosa e nacionalista.
O enredo do Enuma Elish
Vou resumir de forma ordenada para ficar claro o contraste com Gênesis:
5.1 O nascimento dos deuses
Primeiro não existe nada — apenas águas primordiais divididas em:
-
Apsu (águas doces masculinas)
-
Tiamat (águas salgadas femininas)
Eles se misturam e geram uma série de deuses mais jovens.
5.2 A guerra divina
Os deuses mais jovens fazem barulho demais.
Apsu quer matá-los.
Tiamat é contra, mas depois muda de ideia e cria monstros.
Os deuses, aterrorizados, procuram um herói.
O jovem Marduque se oferece para lutar, com uma condição:
Se eu vencer, serei o deus supremo.
5.3 A vitória de Marduque
Após uma batalha épica, Marduque derrota Tiamat:
-
abre seu corpo em dois,
-
com uma metade cria o céu,
-
com a outra metade cria a terra.
5.4 A criação do homem
O homem é feito a partir:
-
do sangue de Kingu (o consorte de Tiamat),
-
misturado com barro,
Para qual propósito?
Para servir os deuses.
Para que os deuses menores não precisem trabalhar.
5.5 O estabelecimento de Babilônia
O último ato exalta Babilônia como cidade divina, e Marduque como soberano do cosmos.
Por que o Enuma Elish existia?
Acadêmicos são unânimes:
✦ O Enuma Elish NÃO é uma “explicação científica” da criação.
✦ Ele é uma peça religiosa com três funções:
1. Justificar a supremacia de Marduque
Ele derrota Tiamat → vira rei dos deuses.
2. Justificar a supremacia da Babilônia
A cidade é “centro do universo”.
3. Subordinar o homem
Humanidade existe para servir aos deuses como escravos.
Essa visão contrasta violentamente com Gênesis.
E é aqui que começamos a entrar no terreno apologético.
Diferença fundamental entre Enuma Elish e Gênesis
Você vai perceber que:
apesar das similaridades superficiais (água, divisão, criação, etc.)
o propósito, teologia, linguagem e visão de mundo são totalmente diferentes.
Gênesis é:
-
monoteísta,
-
ético,
-
sem mitologia sexual,
-
sem violência entre deuses,
-
sem caos personificado,
-
sem guerra cósmica.
E apresenta um Deus:
-
único,
-
eterno,
-
soberano,
-
moral,
-
criador sem rival.
O Enuma Elish, por outro lado, é:
-
politeísta,
-
violento,
-
mitológico,
-
sexualizado,
-
politizado,
-
nacionalista.
Não há comparação séria entre os dois.
A Teologia do Enuma Elish e Como Ela Contrasta com Gênesis
Nesta parte, vamos entrar no “coração” do Enuma Elish:
sua cosmovisão, sua teologia, seu propósito espiritual e político, e o que isso revela sobre o pensamento religioso da Babilônia — para então contrastar diretamente com Gênesis.
O objetivo aqui é mostrar por que a Bíblia não pode ter sido derivada desse mito, mesmo que ambos existam no mesmo “ambiente literário” do Oriente Próximo.
A Cosmovisão Babilônica: O Universo Como Campo de Batalha
A primeira característica fundamental do Enuma Elish é a visão de mundo:
O cosmos nasce do caos, da violência e da guerra entre deuses.
Não existe ordem natural.
Não existe propósito moral.
Não existe bem contra mal.
Existe apenas:
-
força,
-
conflito,
-
poder,
-
magia,
-
dominação.
Tiamat, a deusa do caos, representa o “oceano primordial”.
O mundo só existe porque Marduque a mata e usa seu cadáver como matéria-prima.
Isso é crucial para entender a teologia babilônica:
- O universo é resultado de conflito.
- A criação é acidental e violenta.
- O mundo está em constante ameaça de retornar ao caos.
Esse pensamento é chamado pelos estudiosos de:
Cosmogonia de conflito
(cosmos + gonos = origem; conflito como causa)
Essa visão é totalmente anti-bíblica, como veremos a seguir.
A Teologia do Enuma Elish: Deuses Instáveis e Moralmente Fracos
O Enuma Elish apresenta deuses que:
-
nascem,
-
brigam,
-
mentem,
-
traem,
-
mudam de humor,
-
morrem,
-
podem ser derrotados.
Do ponto de vista teológico:
- Eles não são eternos.
- Eles não são soberanos.
- Eles não são morais.
- Eles não são criadores “por essência”.
Eles são parte do cosmos, não seu Criador.
Eles surgem após as águas primordiais, não antes.
O mundo bíblico é exatamente o oposto.
A Criação da Humanidade no Enuma Elish: Escravos dos Deuses
Aqui está um dos pontos mais chocantes:
O homem é criado como escravo.
Feito para aliviar os deuses menores de suas tarefas.
A frase-chave da tabuinha VI diz:
“Criemos o homem para que ele carregue o fardo.”
O homem existe para:
-
servir,
-
trabalhar,
-
obedecer,
-
sustentar templos,
-
alimentar os deuses.
Ou seja:
- A humanidade não é amada.
- A humanidade não tem dignidade própria.
- A humanidade é ferramenta.
O Enuma Elish revela uma visão profundamente utilitarista do ser humano.
E isso vai contrastar de forma brutal com Gênesis.
O Objetivo Político do Enuma Elish: Exaltar a Babilônia e Marduque
Nenhum estudioso sério considera o Enuma Elish apenas um mito religioso.
Ele é simultaneamente:
-
um manifesto político,
-
um instrumento de controle ideológico,
-
uma propaganda nacionalista.
Porque se Marduque é o rei dos deuses…
… então o rei da Babilônia é seu representante terrestre.
Essa ligação entre “rei celestial” e “rei terreno” é o fundamento da monarquia babilônica.
O povo acreditava que:
-
sua nação era o centro do universo,
-
sua cidade era escolhida pelos deuses,
-
sua capital era literalmente o “umbigo do mundo”.
Essa teologia nacionalista é típica do Oriente Próximo.
E Gênesis vai subverter isso completamente.
Comparação Estrutural: Enuma Elish vs Gênesis 1–2
Agora entra a parte mais esperada do artigo:
a comparação literária e teológica entre os textos.
Aqui está uma tabela comparativa clara:
Enuma Elish
-
Politeísta
-
Deuses nascem e morrem
-
Criação surge do caos e da violência
-
Universo é produto de uma guerra
-
Humanidade serve aos deuses
-
Homem feito de sangue de um deus assassinado
-
Criação é um subproduto acidental
-
Não há moralidade universal
-
Propósito do texto: exaltar a Babilônia
-
Tempo ligado às festas de Marduque
Gênesis
-
Monoteísta absoluto
-
Deus é eterno, sem origem
-
Criação é ordem intencional
-
Universo nasce de comando racional (“Haja…”)
-
Humanidade é imagem de Deus
-
Homem é formado com dignidade
-
Criação é boa
-
Fala em moralidade, ética e propósito
-
Propósito do texto: revelar Deus
-
Tempo ligado ao shabat, não a festas pagãs
Diferenças Teológicas Fundamentais
Vamos explorar agora, ponto por ponto:
13.1 Deus vs. Deuses
Gênesis:
No princípio, Deus criou…
(Deus único, pessoal, eterno, soberano)
Enuma Elish:
Os deuses nascem do caos, brigam e um vence por força.
Conclusão:
São visões de mundo inconciliáveis.
13.2 Criação por Palavra vs. Criação por Violência
Gênesis:
“E disse Deus: haja luz.”
A criação é palavra, razão, ordem.
Enuma Elish:
Marduque rasga Tiamat e faz o mundo do corpo dela.
Conclusão:
Gênesis descreve um universo racional e intencional.
O Enuma Elish descreve um universo irracional e conflituoso.
13.3 Dignidade humana vs. Escravidão humana
Gênesis:
“Façamos o homem à nossa imagem.”
Humanidade tem valor intrínseco.
Enuma Elish:
“Criemos o homem para carregar o fardo.”
Humanidade existe para servir deuses frágeis.
Conclusão:
Não há como igualar essas antropologias.
13.4 O papel do cosmos
Gênesis apresenta:
-
ordem,
-
propósito,
-
bondade,
-
equilíbrio.
Enuma Elish apresenta:
-
caos,
-
violência,
-
instabilidade,
-
medo.
13.5 Moralidade
Gênesis introduz:
-
certo e errado,
-
responsabilidade moral,
-
criação boa,
-
humanidade responsável.
O Enuma Elish não possui moralidade.
Os deuses não são bons nem justos — são poderosos.
O Argumento Crítico Moderno: “Gênesis Copiou o Enuma Elish”
Essa afirmação — repetida em blogs, documentários de TV e aulas superficiais — é profundamente equivocada.
A comparação séria mostra que:
-
a teologia é diferente,
-
a linguagem é diferente,
-
a estrutura é diferente,
-
o propósito é diferente,
-
a visão de mundo é diferente.
As poucas semelhanças são:
-
água primordial,
-
processos de separação,
-
criação do homem,
-
ordem do cosmos,
… mas isso é exatamente o que esperaríamos de qualquer cultura tentando explicar a criação do mundo.
Semelhança superficial não é dependência literária.
A Pergunta Final: Por que Gênesis é tão diferente?
A resposta teológica:
- Porque Gênesis não nasce da teologia babilônica, mas da revelação divina ao povo de Israel.
A resposta acadêmica:
- Porque Gênesis representa uma revolução teológica inédita no Oriente Próximo.
A resposta histórica:
- Porque Israel desenvolveu uma cosmovisão monoteísta, ética e espiritual, em contraste com todas as religiões vizinhas.
A resposta espiritual:
- Porque enquanto o Enuma Elish tenta explicar o poder da Babilônia, Gênesis tenta revelar o caráter de Deus.