Entre as cidades mencionadas no Antigo Testamento, poucas possuem uma identificação arqueológica tão sólida quanto Gibeão, lar tradicional dos gibeonitas narrados nos livros de Josué, Samuel e Crônicas. As escavações em Khirbet el-Jib, realizadas principalmente por James B. Pritchard entre 1956 e 1962, revelaram um conjunto impressionante de estruturas, inscrições e sistemas urbanos que não apenas confirmam a localização da antiga cidade, como também corroboram de forma extraordinária o pano de fundo histórico descrito na Bíblia[1].
Este artigo apresenta um panorama completo das principais descobertas arqueológicas relacionadas a Gibeão e mostra como elas dialogam diretamente com os textos bíblicos, especialmente a narrativa de Josué 9–10 e 2 Samuel 21.
Identificação do Sítio Arqueológico: Khirbet el-Jib
A identificação de el-Jib como a antiga Gibeão é considerada um dos casos mais fortes de correspondência entre arqueologia e Bíblia. A descoberta de mais de trinta jarros com inscrições em hebraico antigo contendo o nome “gb’n” (Gibeão) ofereceu uma prova direta da localização da cidade — fato extremamente raro em arqueologia bíblica[2].
Além da evidência epigráfica, a topografia do sítio corresponde fielmente à descrição bíblica: uma cidade situada em terreno elevado, a poucos quilômetros ao norte de Jerusalém, com acesso estratégico às rotas que cortavam a região montanhosa de Benjamim.
As Escavações de James B. Pritchard (1956–1962)
As campanhas arqueológicas conduzidas por Pritchard trouxeram à luz uma das cidades mais bem documentadas do antigo Israel. O objetivo inicial era investigar o sistema hídrico da região, mas as descobertas superaram todas as expectativas, revelando:
- um poço monumental escavado na rocha,
- um túnel subterrâneo que acessava uma fonte natural,
- estruturas de vinificação e armazenagem,
- inscrições confirmando o nome “Gibeão”,
- e diversas camadas de ocupação da Idade do Bronze ao período persa.
Nenhum desses achados contradiz o relato bíblico; pelo contrário, eles o reforçam com detalhes notáveis.
O Poço Monumental de Gibeão
O achado mais famoso de Gibeão é um poço monumental esculpido diretamente na rocha calcária. Ele possui:
- 11,8 metros de diâmetro na abertura,
- aproximadamente 24 metros de profundidade,
- uma escadaria interna em espiral com 79 degraus,
- um túnel horizontal inferior que leva a uma fonte subterrânea.
Este tipo de engenharia hidráulica é extremamente avançado para o período da Idade do Ferro, indicando que Gibeão era um centro urbano sofisticado e economicamente importante[3].
A Bíblia descreve Gibeão como “uma grande cidade, como uma das cidades reais” (Js 10:2), e o sistema hídrico monumental confirma essa caracterização com precisão impressionante.
O Túnel Subterrâneo e o Acesso à Água
Além do poço principal, um túnel escavado na rocha permitia o acesso contínuo à água mesmo durante cercos prolongados. Essa solução é semelhante a sistemas encontrados em outras cidades significativas, como Hazor e Megido, reforçando o status urbano de Gibeão.
Para um povo como os gibeonitas — que buscavam garantir sua sobrevivência em um cenário político instável — a presença de um sistema hídrico seguro e eficiente era essencial.
As Inscrições "Gibeão" (gb’n)
Durante as escavações foram encontrados mais de 30 jarros de cerâmica com inscrições do tipo:
“gb’n” ou “Gibeon”.
Essas inscrições são a “prova de ouro” da arqueologia bíblica:
- confirmam a identificação do sítio sem margem de dúvida,
- indicam organização administrativa,
- sugerem produção e exportação de vinho,
- refletem uma economia estruturada e urbana.
Inscrições com o nome exato de uma cidade mencionada na Bíblia são extremamente raras. Gibeão é um dos poucos casos de identificação arqueológica quase absoluta[4].
A Produção de Vinho em Gibeão
As escavações revelaram ainda diversos lagares escavados na rocha, sistemas de drenagem e estruturas usadas para fermentação de vinho.
O volume e a variedade dessas instalações sugerem que a cidade era um importante centro vinícola na região montanhosa de Benjamim. Isso corresponde ao cenário histórico do período da monarquia israelita, quando Gibeão aparece como uma cidade ativa e economicamente relevante.
Estruturas Urbanas: Casas, Muralhas e Layout Interno
Foram identificadas casas de múltiplos cômodos, ruas estreitas, pátios internos e evidências de muralhas defensivas. A urbanização é consistente com outras cidades cananeias e israelitas do mesmo período, como Laquis ou Betel.
A estratigrafia mostra ocupação contínua desde o Bronze Médio até o período persa — o que harmoniza com os registros bíblicos, especialmente as referências a Gibeão nos dias de Josué, Saul, Davi e Neemias.
A Cronologia Arqueológica de Gibeão
O sítio apresenta uma sequência clara de ocupações:
- Bronze Médio (2000–1550 a.C.) — primeira urbanização documentada;
- Bronze Final (1550–1200 a.C.) — período dos gibeonitas e da aliança com Josué;
- Ferro I–II (1200–586 a.C.) — período do reinado de Saul, Davi e Salomão;
- Período Persa (539–332 a.C.) — gibeonitas mencionados na reconstrução de Jerusalém;
- Período Helênico (332–63 a.C.) — continuidade e declínio gradual.
A ausência de uma camada de destruição no final do Bronze Final é particularmente significativa, pois corresponde exatamente ao relato bíblico de que Gibeão foi poupada devido à aliança com Josué (Js 9).
Como a Arqueologia Confirma o Relato Bíblico
As descobertas arqueológicas de Gibeão não apenas se alinham ao texto bíblico — elas o fortalecem em diversos níveis:
- A cidade era realmente grande e sofisticada, como descrito em Josué 10:2.
- Seu sistema hídrico monumental explica sua importância estratégica.
- A ausência de destruição confirma que não foi conquistada militarmente.
- A produção vinícola corresponde ao período do reino unificado.
- As inscrições “Gibeão” validam a localização da cidade sem margem de erro.
- A continuidade ocupacional até Neemias confirma a presença dos gibeonitas após o exílio.
Esses elementos tornam Gibeão um dos casos mais robustos de convergência entre história bíblica e evidência arqueológica[5].
Conclusão
As escavações realizadas em Gibeão representam um dos mais impressionantes alinhamentos entre o registro bíblico e a arqueologia moderna. A engenharia avançada do seu sistema hídrico, as inscrições com o nome da cidade, as estruturas urbanas e a continuidade ocupacional oferecem um retrato vívido da vida gibeonita ao longo dos séculos.
A Bíblia descreve Gibeão como uma cidade relevante, estratégica e resistente — e a arqueologia confirma esse retrato com rigor surpreendente.
Estudar Gibeão é observar diretamente como o contexto histórico e a ciência arqueológica iluminam o texto bíblico e aprofundam nossa compreensão da narrativa sagrada.
Notas
- Pritchard, James B. Gibeon: Where the Sun Stood Still — obra de referência sobre as escavações.
- As inscrições “gb’n” são uma das raríssimas confirmações epigráficas diretas de uma cidade bíblica.
- O sistema hídrico de Gibeão é considerado um dos mais avançados da Idade do Ferro.
- A presença de vinificação indica economia estruturada e relevância regional.
- Gibeão é um dos melhores casos de correspondência direta entre Bíblia e arqueologia.