Descobertas Arqueológicas Sobre Gibeão

Dez 2025
Tempo de estudo | 8 minutos
Atualizado em 12/01/2026
Arqueologia
Descobertas Arqueológicas Sobre Gibeão

Entre as cidades mencionadas no Antigo Testamento, poucas possuem uma identificação arqueológica tão sólida quanto Gibeão, lar tradicional dos gibeonitas narrados nos livros de Josué, Samuel e Crônicas. As escavações em Khirbet el-Jib, realizadas principalmente por James B. Pritchard entre 1956 e 1962, revelaram um conjunto impressionante de estruturas, inscrições e sistemas urbanos que não apenas confirmam a localização da antiga cidade, como também corroboram de forma extraordinária o pano de fundo histórico descrito na Bíblia[1].

Este artigo apresenta um panorama completo das principais descobertas arqueológicas relacionadas a Gibeão e mostra como elas dialogam diretamente com os textos bíblicos, especialmente a narrativa de Josué 9–10 e 2 Samuel 21.

Identificação do Sítio Arqueológico: Khirbet el-Jib

A identificação de el-Jib como a antiga Gibeão é considerada um dos casos mais fortes de correspondência entre arqueologia e Bíblia. A descoberta de mais de trinta jarros com inscrições em hebraico antigo contendo o nome “gb’n” (Gibeão) ofereceu uma prova direta da localização da cidade — fato extremamente raro em arqueologia bíblica[2].

Além da evidência epigráfica, a topografia do sítio corresponde fielmente à descrição bíblica: uma cidade situada em terreno elevado, a poucos quilômetros ao norte de Jerusalém, com acesso estratégico às rotas que cortavam a região montanhosa de Benjamim.

As Escavações de James B. Pritchard (1956–1962)

As campanhas arqueológicas conduzidas por Pritchard trouxeram à luz uma das cidades mais bem documentadas do antigo Israel. O objetivo inicial era investigar o sistema hídrico da região, mas as descobertas superaram todas as expectativas, revelando:

  • um poço monumental escavado na rocha,
  • um túnel subterrâneo que acessava uma fonte natural,
  • estruturas de vinificação e armazenagem,
  • inscrições confirmando o nome “Gibeão”,
  • e diversas camadas de ocupação da Idade do Bronze ao período persa.

Nenhum desses achados contradiz o relato bíblico; pelo contrário, eles o reforçam com detalhes notáveis.

O Poço Monumental de Gibeão

O achado mais famoso de Gibeão é um poço monumental esculpido diretamente na rocha calcária. Ele possui:

  • 11,8 metros de diâmetro na abertura,
  • aproximadamente 24 metros de profundidade,
  • uma escadaria interna em espiral com 79 degraus,
  • um túnel horizontal inferior que leva a uma fonte subterrânea.

Este tipo de engenharia hidráulica é extremamente avançado para o período da Idade do Ferro, indicando que Gibeão era um centro urbano sofisticado e economicamente importante[3].

A Bíblia descreve Gibeão como “uma grande cidade, como uma das cidades reais” (Js 10:2), e o sistema hídrico monumental confirma essa caracterização com precisão impressionante.

O Túnel Subterrâneo e o Acesso à Água

Além do poço principal, um túnel escavado na rocha permitia o acesso contínuo à água mesmo durante cercos prolongados. Essa solução é semelhante a sistemas encontrados em outras cidades significativas, como Hazor e Megido, reforçando o status urbano de Gibeão.

Para um povo como os gibeonitas — que buscavam garantir sua sobrevivência em um cenário político instável — a presença de um sistema hídrico seguro e eficiente era essencial.

As Inscrições "Gibeão" (gb’n)

Durante as escavações foram encontrados mais de 30 jarros de cerâmica com inscrições do tipo:
“gb’n” ou “Gibeon”.

Essas inscrições são a “prova de ouro” da arqueologia bíblica:

  • confirmam a identificação do sítio sem margem de dúvida,
  • indicam organização administrativa,
  • sugerem produção e exportação de vinho,
  • refletem uma economia estruturada e urbana.

Inscrições com o nome exato de uma cidade mencionada na Bíblia são extremamente raras. Gibeão é um dos poucos casos de identificação arqueológica quase absoluta[4].

A Produção de Vinho em Gibeão

As escavações revelaram ainda diversos lagares escavados na rocha, sistemas de drenagem e estruturas usadas para fermentação de vinho.

O volume e a variedade dessas instalações sugerem que a cidade era um importante centro vinícola na região montanhosa de Benjamim. Isso corresponde ao cenário histórico do período da monarquia israelita, quando Gibeão aparece como uma cidade ativa e economicamente relevante.

Estruturas Urbanas: Casas, Muralhas e Layout Interno

Foram identificadas casas de múltiplos cômodos, ruas estreitas, pátios internos e evidências de muralhas defensivas. A urbanização é consistente com outras cidades cananeias e israelitas do mesmo período, como Laquis ou Betel.

A estratigrafia mostra ocupação contínua desde o Bronze Médio até o período persa — o que harmoniza com os registros bíblicos, especialmente as referências a Gibeão nos dias de Josué, Saul, Davi e Neemias.

A Cronologia Arqueológica de Gibeão

O sítio apresenta uma sequência clara de ocupações:

  • Bronze Médio (2000–1550 a.C.) — primeira urbanização documentada;
  • Bronze Final (1550–1200 a.C.) — período dos gibeonitas e da aliança com Josué;
  • Ferro I–II (1200–586 a.C.) — período do reinado de Saul, Davi e Salomão;
  • Período Persa (539–332 a.C.) — gibeonitas mencionados na reconstrução de Jerusalém;
  • Período Helênico (332–63 a.C.) — continuidade e declínio gradual.

A ausência de uma camada de destruição no final do Bronze Final é particularmente significativa, pois corresponde exatamente ao relato bíblico de que Gibeão foi poupada devido à aliança com Josué (Js 9).

Como a Arqueologia Confirma o Relato Bíblico

As descobertas arqueológicas de Gibeão não apenas se alinham ao texto bíblico — elas o fortalecem em diversos níveis:

  • A cidade era realmente grande e sofisticada, como descrito em Josué 10:2.
  • Seu sistema hídrico monumental explica sua importância estratégica.
  • A ausência de destruição confirma que não foi conquistada militarmente.
  • A produção vinícola corresponde ao período do reino unificado.
  • As inscrições “Gibeão” validam a localização da cidade sem margem de erro.
  • A continuidade ocupacional até Neemias confirma a presença dos gibeonitas após o exílio.

Esses elementos tornam Gibeão um dos casos mais robustos de convergência entre história bíblica e evidência arqueológica[5].

Conclusão

As escavações realizadas em Gibeão representam um dos mais impressionantes alinhamentos entre o registro bíblico e a arqueologia moderna. A engenharia avançada do seu sistema hídrico, as inscrições com o nome da cidade, as estruturas urbanas e a continuidade ocupacional oferecem um retrato vívido da vida gibeonita ao longo dos séculos.

A Bíblia descreve Gibeão como uma cidade relevante, estratégica e resistente — e a arqueologia confirma esse retrato com rigor surpreendente.

Estudar Gibeão é observar diretamente como o contexto histórico e a ciência arqueológica iluminam o texto bíblico e aprofundam nossa compreensão da narrativa sagrada.

Notas

  1. Pritchard, James B. Gibeon: Where the Sun Stood Still — obra de referência sobre as escavações.
  2. As inscrições “gb’n” são uma das raríssimas confirmações epigráficas diretas de uma cidade bíblica.
  3. O sistema hídrico de Gibeão é considerado um dos mais avançados da Idade do Ferro.
  4. A presença de vinificação indica economia estruturada e relevância regional.
  5. Gibeão é um dos melhores casos de correspondência direta entre Bíblia e arqueologia.
João Andrade
João Andrade
Apaixonado pelas histórias bíblicas e um autodidata nos estudos das civilizações e cultura ocidental. Ele é formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas e utiliza a tecnologia para o Reino de Deus.

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