As piscinas de Salomão que abasteceu Jerusalém por mais de 2.000 anos

Fev 2026
Tempo de estudo | 31 minutos
Atualizado em 26/02/2026
Atualidades
As piscinas de Salomão que abasteceu Jerusalém por mais de 2.000 anos

A cerca de 3,5 quilômetros ao sudoeste de Belém, próximas à estrada que leva a Hebrom, três piscinas colossais escavadas na rocha repousam silenciosamente no vale de Artas. Conhecidas como as "Piscinas de Salomão" (Breichot Shlomo, em hebraico; Burak Sulaymān, em árabe), esses reservatórios representam o coração de um dos maiores e mais sofisticados sistemas hidráulicos do mundo antigo. Com capacidade combinada superior a 290.000 metros cúbicos — equivalente a cerca de 75 milhões de galões de água —, essas estruturas abasteceram Jerusalém, o Templo sagrado e cidades vizinhas durante séculos.

Mas as Piscinas de Salomão são mais do que uma proeza de engenharia antiga. Elas constituem um sítio arqueológico extraordinário que conecta personagens centrais da narrativa bíblica: do rei Davi, que viveu ali perto em Belém, passando por Salomão e seus escritos sobre reservatórios de água, até Herodes, o Grande, o maior construtor da história de Israel, e Pôncio Pilatos, cujo uso do dinheiro sagrado do Templo para ampliar o sistema provocou um levante popular que pode estar registrado nas próprias palavras de Jesus em Lucas 13.

Localização e Dimensões: A Grandiosidade dos Reservatórios

As Piscinas de Salomão consistem em três grandes reservatórios dispostos em degraus na encosta do vale de Artas, cada um situado aproximadamente 6 metros abaixo do anterior. Essa disposição engenhosa permitia que a água fluísse por gravidade de uma piscina para a outra, e dali seguisse por aquedutos até Jerusalém, sem necessidade de qualquer mecanismo de bombeamento.

Piscinas de Salomão

A Piscina Superior (a menor)

A primeira piscina, mais alta e também a menor das três, mede cerca de 116 metros de comprimento por 72 metros de largura, com profundidade variando entre 6 e 12 metros. Sua capacidade é estimada em aproximadamente 85.000 metros cúbicos. Apesar de ser a menor, suas dimensões já impressionam — é maior do que muitos reservatórios modernos. Sua forma é quase retangular perfeita, parcialmente escavada na rocha e parcialmente construída com blocos de pedra.

A Piscina Central

A segunda piscina possui 129 metros de comprimento por 76 metros de largura e cerca de 12 metros de profundidade, com capacidade aproximada de 90.000 metros cúbicos. Encontra-se em melhor estado de conservação do que as demais, permitindo que visitantes ainda identifiquem boa parte da alvenaria original do período herodiano — os grandes blocos de pedra característicos do estilo construtivo de Herodes. Esta piscina ainda contém água até hoje, funcionando como uma espécie de açude onde moradores locais pescam, embora mergulhar nela seja proibido devido à grande profundidade, tendo já ocorrido afogamentos fatais no local.

A Piscina Inferior (a maior)

A terceira e maior piscina mede impressionantes 177 metros de comprimento, até 86 metros de largura e aproximadamente 15 metros de profundidade, com capacidade de cerca de 113.000 metros cúbicos. Pesquisas recentes indicam que esta piscina inferior foi construída durante o período mameluco, no século XV, sob o sultão Qaytbay, sendo portanto a mais recente das três — uma adição posterior que ampliou significativamente a capacidade total do sistema.

Para dimensionar a grandiosidade do complexo: a área combinada das três piscinas equivale a mais de quatro campos de futebol. Juntas, armazenavam água suficiente para abastecer Jerusalém e suas cidades vizinhas durante períodos inteiros de seca, garantindo o funcionamento contínuo dos serviços do Templo, que exigiam enormes quantidades de água para os rituais de purificação e os sacrifícios prescritos na Lei de Moisés.

São Realmente de Salomão? O Que a Arqueologia Revela

A pergunta mais frequente sobre esse sítio é, naturalmente, se as piscinas têm de fato conexão com o rei Salomão, que reinou em Israel por volta de 970–930 a.C. A resposta exige nuances — e é justamente nesse ponto que a arqueologia se torna fascinante.

A Tradição e os Textos Bíblicos

A associação com Salomão baseia-se em dois pilares. O primeiro é uma tradição muito antiga — árabe, cristã e bizantina — que identificou esse local como um lugar frequentado pelo rei sábio. Segundo essa tradição, Salomão visitava a região das nascentes para se inspirar ao escrever seus poemas e cânticos de amor. De fato, existe ali uma nascente natural que ainda hoje fornece água.

O segundo pilar são os próprios escritos atribuídos a Salomão. Em Eclesiastes 2:6, ele declara: "Fiz para mim tanques de água, reservatórios de água, para regar com eles o bosque em que reverdeciam as árvores." Essa passagem é frequentemente citada como referência às piscinas, embora o texto não especifique a localização desses reservatórios.

Além disso, em Cantares 7:4, Salomão emprega uma metáfora poética: "Os teus olhos são como as piscinas de Hesbom, junto à porta de Bate-Rabim." Essa menção demonstra que Salomão conhecia e admirava sistemas de reservatórios de água, e que eles faziam parte do imaginário cultural e poético da sua época.

O historiador Flávio Josefo, que viveu no primeiro século da era cristã, também contribui para a tradição ao escrever que Salomão apreciava a beleza do local rico em água chamado "Etam" — e uma das principais nascentes que alimentam as piscinas ainda se chama Ein Eitam até hoje.

O Veredito Arqueológico

Apesar da tradição e dos textos, a arqueologia moderna apresenta um quadro diferente. Os especialistas hoje acreditam que as piscinas, na forma como as encontramos, são significativamente mais recentes do que o período salomônico. A análise do estilo construtivo — a técnica de corte das pedras, a argamassa utilizada e o padrão arquitetônico — aponta para épocas posteriores.

As duas piscinas superiores datam provavelmente do período hasmoneu (século II a I a.C.) e do período herodiano (final do século I a.C.). Os arqueólogos identificam no estilo da alvenaria características típicas da construção de Herodes, o Grande, que reinou entre 37 e 4 a.C. A piscina inferior, como mencionado, é do período mameluco (século XV).

Isso não significa, porém, que Salomão não tenha construído algum sistema de água na região. Como bem observam os arqueólogos, pode haver estruturas mais antigas abaixo das construções herodianas, mas destruir uma antiguidade para verificar o que há por baixo não é uma opção viável. Talvez escavações futuras — ou descobertas acidentais durante obras de infraestrutura — revelem camadas mais antigas. Até que isso ocorra, a posição responsável é reconhecer que as piscinas visíveis pertencem ao período herodiano, embora a tradição que as associa a Salomão seja respeitável e não possa ser totalmente descartada.

Lições sobre Nomes e Tradições na Arqueologia

Essa situação não é incomum na Terra Santa. Existem vários locais cujos nomes tradicionais não correspondem exatamente à realidade histórica. Um exemplo notório são os chamados "Estábulos de Salomão" em Jerusalém — uma área sob o Monte do Templo que de fato funcionou como estábulos, porém na época dos Cruzados (século XI), não de Salomão. Os cavaleiros Templários, ao ocuparem a Mesquita de Al-Aqsa, acreditaram que ali ficava o Templo de Salomão e batizaram os espaços adjacentes como "estábulos de Salomão".

Outro caso emblemático é a "Torre de Davi" em Jerusalém, um dos cartões-postais mais fotografados da cidade. Na realidade, trata-se do minarete de uma mesquita construída durante o Império Turco Otomano, edificado sobre os restos de uma torre de Herodes, que viveu há 2.000 anos — e não de Davi, que viveu há 3.000 anos.

Esses exemplos ilustram um princípio fundamental da arqueologia bíblica: nomes e tradições servem como pistas valiosas para iniciar investigações, mas precisam ser verificados através da análise material. Tradições antigas, especialmente as de períodos mais próximos aos eventos bíblicos, carregam peso significativo. Porém, a arqueologia tem o dever de confirmar ou corrigir essas tradições à luz das evidências encontradas.

O Gênio Construtivo de Herodes, o Grande

Se as piscinas não são de Salomão, de quem são? A resposta nos leva a uma das figuras mais contraditórias e fascinantes da história bíblica: Herodes, o Grande.

O Paradoxo de Herodes: Construtor e Destruidor

Herodes ocupa um lugar singular na narrativa das Escrituras. Foi ele quem, segundo Mateus 2:16-18, ordenou o massacre dos meninos de Belém — a mesma Belém que fica ao lado dessas piscinas. A Bíblia e os registros históricos descrevem um homem de crueldade extraordinária: assassinou sua esposa amada Mariana, mandou matar três de seus próprios filhos e executou incontáveis opositores políticos. O imperador Augusto teria dito, num trocadilho em grego, que era melhor ser porco de Herodes do que filho de Herodes.

Contudo, esse mesmo homem de caráter terrível foi o maior construtor que a terra de Israel já conheceu. Herodes edificou Cesareia Marítima, uma cidade portuária com tecnologia que rivalizava com Roma. Construiu a fortaleza de Massada no deserto, os palácios de Jericó, o Herodium — sua fortaleza-palácio pessoal visível de Belém — e, acima de tudo, a magnífica ampliação do Segundo Templo de Jerusalém, que se tornou uma das maravilhas do mundo antigo.

A Lógica por Trás do Sistema Hidráulico

A construção do sistema de piscinas e aquedutos obedecia a uma lógica estratégica de infraestrutura. Quando Herodes ampliou grandiosamente o Templo de Jerusalém, transformando-o numa estrutura monumental que atraía centenas de milhares de peregrinos nas três grandes festas anuais (Pessach, Shavuot e Sucot), a cidade precisou de muito mais água.

A única fonte de água natural dentro de Jerusalém era a nascente de Giom, na Cidade de Davi. Essa nascente, embora histórica e importante desde o tempo do rei Ezequias — que construiu o famoso túnel para protegê-la —, simplesmente não era suficiente para abastecer a população crescente, os milhares de peregrinos e os enormes volumes de água necessários para os serviços do Templo (lavagens rituais, purificações, remoção do sangue dos sacrifícios).

É como acontece numa cidade moderna: não basta construir um grande edifício ou um novo bairro. É preciso garantir a infraestrutura completa — água, eletricidade, esgoto, transporte. Herodes compreendeu isso perfeitamente. Ao ampliar o Templo, investiu simultaneamente na infraestrutura hidráulica que o sustentaria.

O Sistema de Cinco Aquedutos: Uma Obra-Prima de Engenharia

As Piscinas de Salomão não eram estruturas isoladas. Elas constituíam o nó central de uma rede hidráulica que totalizava quase 80 quilômetros de aquedutos — cinco canais diferentes conectados aos reservatórios, numa demonstração impressionante de engenharia hidráulica antiga.

Os Aquedutos de Alimentação

Dois aquedutos traziam água das montanhas ao sul para as piscinas. O primeiro, o aqueduto de Wadi el-Biyar, tinha 4,7 km de extensão e captava água de três nascentes, além de coletar água de chuva e drenar lençóis freáticos subterrâneos usando uma técnica semelhante ao qanat persa — um método sofisticado em que o próprio túnel funciona como uma nascente contínua, com a água infiltrando-se pelas paredes. Esse é o único exemplo conhecido dessa técnica em Israel e Palestina.

O segundo aqueduto de alimentação, o de Arrub, é ainda mais impressionante: percorria aproximadamente 40 quilômetros ao longo das colinas da Judeia, apesar da distância em linha reta ser de apenas 10 quilômetros. Seu gradiente de inclinação era de apenas 0,09% — um declínio tão sutil que é quase imperceptível ao olho humano, mas suficiente para manter a água em movimento constante pela força da gravidade.

Os Aquedutos de Distribuição

Das piscinas, três aquedutos distribuíam a água coletada. O mais importante era o chamado "Aqueduto Inferior" (Low-Level Aqueduct), que levava água diretamente ao Monte do Templo em Jerusalém. Construído provavelmente no final do período hasmoneu (século I a.C.), esse canal percorria cerca de 21 quilômetros até chegar às cisternas subterrâneas sob a plataforma do Templo. O declínio era de apenas 30 metros ao longo de todo o percurso — menos de 1,5 metro por quilômetro. Nenhuma derivação saía do canal principal; cada gota de água era reservada exclusivamente para uso sacerdotal no Templo.

O segundo aqueduto de distribuição, o "Aqueduto Superior" (High-Level Aqueduct), seguia uma rota paralela, porém em elevação mais alta, contornando Belém pelo lado oeste. Seu destino era a "Piscina de Ezequias" na Cidade Alta de Jerusalém — o bairro das famílias ricas e dos sacerdotes. Tinha aproximadamente 14 quilômetros de extensão e utilizava, em alguns trechos, tubulações de pedra formando sifões para vencer depressões no terreno.

O terceiro aqueduto de distribuição seguia para leste, abastecendo o Herodium, a fortaleza-palácio pessoal de Herodes, onde o rei havia construído uma grande piscina recreativa ornamentada com colunas.

A Longevidade do Sistema

A qualidade da construção era tal que o sistema continuou funcionando por séculos. Mesmo durante o período turco otomano (do século XVI ao início do século XX), as piscinas ainda eram utilizadas para abastecer pelo menos Belém e cidades vizinhas. O Aqueduto Inferior de Jerusalém foi reparado e reutilizado repetidamente: pelos romanos após a destruição do Templo em 70 d.C., pelos bizantinos, pelos otomanos e finalmente pelos britânicos, que em 1924 restauraram o sistema e instalaram uma estação de bombeamento. As piscinas e aquedutos forneceram água para a Cidade Velha de Jerusalém até 1967, quando bombas elétricas modernas finalmente os tornaram obsoletos. Isso significa que o sistema esteve em operação — com manutenções e reformas — por aproximadamente 2.000 anos.

A Descoberta do Aqueduto de Pôncio Pilatos: Uma Conexão Bíblica Surpreendente

Uma das revelações mais fascinantes da arqueologia recente envolvendo as Piscinas de Salomão é a identificação do aqueduto construído por Pôncio Pilatos — o mesmo governador romano que condenou Jesus à crucificação. Essa descoberta conecta de maneira surpreendente a engenharia hidráulica, os registros de Flávio Josefo e uma passagem intrigante do Evangelho de Lucas.

A Evidência Arqueológica

Arqueólogos identificaram nas piscinas sinais claros de uma reforma e ampliação posterior ao período herodiano. A análise da argamassa, do reboco e do estilo construtivo revelou uma camada que não correspondia mais ao padrão de Herodes, mas imitava o estilo romano dos aquedutos imperiais. Além da reforma, descobriu-se um segundo canal — paralelo ao aqueduto original de Herodes — que levava água das piscinas não ao Templo, mas à Cidade Alta de Jerusalém, o bairro onde moravam as famílias de sacerdotes e a elite da cidade.

Um estudo publicado em 2021 por pesquisadores da Universidade Hebraica de Jerusalém realizou datação por radiocarbono do reboco das paredes do aqueduto de Biar (Wadi el-Biyar), que alimenta as Piscinas de Salomão. Os resultados indicaram que a construção datava de meados do primeiro século da era cristã — exatamente o período em que Pilatos governou a Judeia (26–36 d.C.).

O Testemunho de Flávio Josefo

Os achados arqueológicos encontram confirmação extraordinária nos escritos de Flávio Josefo. Em Antiguidades Judaicas 18.60-62, o historiador relata que Pilatos construiu um aqueduto para levar água de uma distância de 200 estádios até Jerusalém. Convertendo a medida, 200 estádios equivalem a aproximadamente 35 quilômetros — e os arqueólogos verificaram que a distância do novo trajeto do aqueduto é de exatamente 35 quilômetros, considerando que o canal não segue em linha reta, mas acompanha as curvas do terreno montanhoso.

Mas a história não para na engenharia. Josefo continua o relato dizendo que Pilatos financiou a obra com o dinheiro do Corban — o tesouro sagrado do Templo de Jerusalém. Esse era o dinheiro consagrado, proveniente das ofertas e dos sacrifícios do povo. O ato de Pilatos foi considerado uma profanação, um roubo sacrílego.

O Levante Popular e o Massacre

A reação popular foi imediata e violenta. Josefo narra em Guerras Judaicas 2.175-177 que uma multidão de judeus cercou o tribunal de Pilatos quando este visitava Jerusalém, protestando furiosamente contra o desvio do dinheiro sagrado. Pilatos, prevendo a revolta, havia infiltrado soldados disfarçados de civis entre a multidão, armados com bastões. A um sinal combinado, os soldados atacaram os manifestantes. O resultado foi catastrófico: muitos judeus pereceram, alguns pelos golpes, outros pisoteados na fuga desesperada. A multidão, aterrorizada pelo destino das vítimas, foi reduzida ao silêncio.

É importante observar que o aqueduto de Pilatos não era uma obra para toda a população. Ele abastecia especificamente a Cidade Alta — o bairro mais caro de Jerusalém, onde moravam os ricos e os sacerdotes. Pilatos usou o dinheiro do povo para construir uma infraestrutura que beneficiava a elite. Não é difícil compreender a fúria popular.

A Conexão com as Palavras de Jesus em Lucas 13

Talvez a dimensão mais impactante dessa descoberta arqueológica seja sua possível conexão com uma passagem enigmática do Evangelho de Lucas que há séculos intriga os estudiosos.

O Texto de Lucas 13:1-5

Em Lucas 13:1-2, lemos: "Naquela mesma ocasião, chegaram algumas pessoas que contaram a Jesus o caso dos galileus cujo sangue Pilatos havia misturado com os sacrifícios que eles ofereciam. Jesus lhes disse: 'Vocês pensam que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem sofrido essas coisas?'"

E imediatamente, nos versículos 4-5, Jesus menciona outro evento: "Ou aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou? Pensam que eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém?"

Dois Eventos, Uma Época, Uma Paisagem Arqueológica

Existem fortes razões históricas e hermenêuticas para associar o relato de Lucas 13:1-2 ao levante narrado por Flávio Josefo. Os galileus mencionados por Jesus seriam peregrinos vindos da Galileia que, ao chegarem a Jerusalém e descobrirem o desvio do dinheiro sagrado, teriam se envolvido no protesto.

Essa hipótese ganha força quando consideramos que os judeus da Galileia tinham reputação de serem mais provocadores e combativos do que os habitantes de Jerusalém. Os galileus, como peregrinos que haviam viajado longas distâncias para adorar no Templo, teriam ficado especialmente indignados ao descobrir que o tesouro do Templo fora saqueado — possivelmente mais revoltados do que os moradores de Jerusalém, que ao menos se beneficiavam parcialmente da infraestrutura construída. A expressão "cujo sangue Pilatos misturou com seus sacrifícios" sugere que a violência ocorreu no contexto de práticas religiosas — exatamente o cenário descrito por Josefo.

Quanto à torre de Siloé mencionada por Jesus no mesmo discurso, escavações recentes na Piscina de Siloé — realizadas entre 2024 e 2025 — revelaram evidências de uma torre que colapsou e foi reconstruída justamente na época de Pilatos. Assim, os dois eventos que Jesus cita lado a lado em Lucas 13 podem ter ocorrido durante o mesmo governo, possivelmente conectados ao mesmo programa de obras públicas de Pilatos.

Essa convergência entre o registro bíblico, os escritos de Josefo e as descobertas arqueológicas é um exemplo notável de como diferentes fontes históricas se iluminam mutuamente, oferecendo uma compreensão mais rica e profunda dos eventos narrados nas Escrituras.

A Engenharia Antiga Desafia o Olhar Moderno

Um dos aspectos mais impressionantes das Piscinas de Salomão é a sofisticação tecnológica que demonstram. É comum supor que os povos antigos eram "primitivos" em sua capacidade técnica, mas as evidências dizem o contrário.

O Princípio da Gravidade Aplicado em Grande Escala

Todo o sistema funcionava exclusivamente por gravidade. As piscinas foram construídas em degraus — cada uma 6 metros abaixo da anterior — de modo que a água fluísse naturalmente de cima para baixo. O aqueduto que levava água ao Templo de Jerusalém descia apenas 30 metros ao longo de 21 quilômetros, mantendo um gradiente tão suave que a água fluía lentamente, sem desperdiçar uma gota por transbordamento.

Técnicas Persas e Romanas Combinadas

O aqueduto de Wadi el-Biyar empregava a técnica do qanat, de origem persa: o túnel era escavado na junção entre duas camadas geológicas, permitindo que a água subterrânea se infiltrasse pelas paredes — transformando o próprio aqueduto numa "nascente contínua" que multiplicava o volume de água transportado em até sete vezes. Essa técnica, sofisticada e rara, não foi encontrada em nenhum outro lugar de Israel.

Sifões de Pedra

Em trechos onde o aqueduto precisava vencer depressões no terreno, os construtores utilizaram tubulações de pedra formando sifões — um princípio físico avançado que permitia que a água descesse por um vale e subisse pelo outro lado, mantendo o fluxo contínuo. Restos dessas tubulações de pedra ainda podem ser vistos próximos ao Túmulo de Raquel, ao sul de Belém.

Mesmo com toda a tecnologia atual, cidades como São Paulo enfrentam crises de abastecimento hídrico. O fato de que engenheiros de mais de 2.000 anos atrás projetaram um sistema capaz de transportar centenas de milhares de metros cúbicos de água por dezenas de quilômetros — e que funcionou continuamente por dois milênios — é um testemunho silencioso mas eloquente da inteligência e capacidade humana de eras passadas.

O Castelo Otomano e a Preservação do Sítio

Ao lado das piscinas ergue-se o Castelo de Murad (Qal'at al-Burak), uma fortaleza retangular com quatro torres nos cantos, construída pelo sultão otomano Osman II em 1618. O castelo servia como quartel para os soldados turcos que guardavam as Piscinas de Salomão, protegiam as caravanas comerciais entre Jerusalém e Hebrom e funcionavam como posto de parada na rota de peregrinação (hajj) a Meca.

Essa estrutura militar atesta a importância contínua das piscinas mesmo muitos séculos após a destruição do Templo de Jerusalém. O sultão Solimão, o Magnífico, no século XVI, investiu recursos significativos na restauração do sistema hídrico, preocupado com o problema crônico de água que Jerusalém enfrentava. No período otomano, parte do revestimento interno das piscinas foi refeito, evidenciando manutenção contínua.

Após décadas de abandono no final do período otomano e início do século XX — quando fotografias dos anos 1930 mostram algumas piscinas parcialmente preenchidas com terra —, houve esforços de revitalização. Os britânicos realizaram uma restauração completa em 1924, instalando inclusive uma estação de bombeamento. Mais recentemente, o departamento de turismo local tem trabalhado para transformar o sítio em uma atração turística, incluindo a restauração do Castelo de Murad, que hoje abriga uma das maiores coleções etnográficas da história e cultura palestina.

Conexões Bíblicas: Davi, Salomão, Herodes e Jesus numa Mesma Paisagem

É extraordinário como um único sítio arqueológico pode conectar tantos personagens e eventos centrais da narrativa bíblica.

Davi nasceu e cresceu em Belém, a poucos quilômetros das piscinas. A região de Artas e suas nascentes faziam parte do território íntimo do jovem pastor que se tornaria rei. Os Salmos de Davi, com suas frequentes metáforas sobre águas e fontes, podem ter sido inspirados pelas paisagens dessa mesma região.

Salomão, filho de Davi, declarou em seus escritos ter construído reservatórios de água e apreciava a beleza de Etam, a localidade junto às piscinas. Mesmo que as estruturas visíveis não datem do seu reinado, a tradição que associa Salomão ao local preserva uma memória que pode ter fundamento histórico ainda não confirmado arqueologicamente.

Herodes, o Grande, transformou a região com seu programa monumental de construção, edificando não apenas as piscinas e aquedutos, mas também o Herodium — visível das próprias piscinas — e os imensos muros de sustentação do Templo de Jerusalém que permanecem até hoje (incluindo o Muro Ocidental, ou "Muro das Lamentações").

Pôncio Pilatos ampliou o sistema, financiando-o com o tesouro sagrado do Templo e provocando um levante que custou vidas e que Jesus possivelmente mencionou em suas palavras registradas em Lucas 13.

Jesus, nascido em Belém, ali perto, certamente conheceu ou ao menos ouviu falar desses reservatórios. As referências em Lucas 13 aos galileus mortos por Pilatos e à torre de Siloé podem estar diretamente ligadas ao complexo hidráulico que estamos estudando — tornando esse sítio arqueológico parte do cenário histórico dos Evangelhos.

O Estado Atual e o Futuro das Piscinas de Salomão

Atualmente, as Piscinas de Salomão estão situadas na Área A da Cisjordânia, sob controle da Autoridade Nacional Palestina. O acesso é regulado e, em certas ocasiões, visitas especiais são organizadas para grupos de turistas e pesquisadores.

Duas das três piscinas ainda contêm água, embora não sejam mais utilizadas como fonte de abastecimento. A piscina mais antiga encontra-se em condição deteriorada. Esforços de preservação têm sido empreendidos: em 2017, o Consulado dos Estados Unidos financiou um projeto de restauração no valor de 750.000 dólares, com o objetivo de preservar o sítio e transformá-lo em uma atração turística de relevância internacional.

Pesquisas arqueológicas continuam. A cada temporada de escavação, novas informações emergem — como a recente identificação do aqueduto de Pilatos e as descobertas na Piscina de Siloé em Jerusalém, que lançam nova luz sobre eventos mencionados nas Escrituras. A publicação em 2025 de um estudo abrangente sobre todo o sistema hidráulico de Jerusalém na revista Groundwater demonstra que o interesse acadêmico pelo tema permanece vivo e produtivo.

Lições Espirituais e Práticas

As Piscinas de Salomão oferecem reflexões profundas para o estudante da Bíblia:

Sobre a providência divina na história: O sistema de água que abasteceu o Templo por séculos não surgiu por acaso. Cada nascente, cada declive natural do terreno, cada camada geológica que permitia a infiltração de água foi utilizada com precisão. Para o crente, isso aponta para a providência de um Deus que preparou a geografia da Terra Santa para sustentar o culto que Ele mesmo ordenou.

Sobre as aparências e a verdade: Assim como as piscinas levam o nome de Salomão embora sejam de Herodes, muitas "verdades" que aceitamos precisam ser verificadas com cuidado. A Bíblia nos encoraja a ser como os bereanos, que "examinavam as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram de fato assim" (Atos 17:11).

Sobre a corrupção e a justiça: O episódio de Pilatos usando o dinheiro sagrado para obras que beneficiavam os ricos ecoa através dos séculos como advertência contra a corrupção, o desvio de recursos e a injustiça social — temas que os profetas de Israel como Amós, Isaías e Jeremias denunciaram insistentemente.

Sobre a água como símbolo espiritual: Em toda a Bíblia, a água simboliza vida, purificação e renovação espiritual. Jesus declarou: "Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva" (João 7:37-38). As Piscinas de Salomão, que levavam água física para o Templo terreno, prefiguram a realidade espiritual da água viva que Cristo oferece a todo aquele que nele crê.

Conclusão

As Piscinas de Salomão são muito mais do que três reservatórios antigos numa encosta da Judeia. São um testemunho da engenharia extraordinária dos construtores do passado, um livro aberto da história bíblica que conecta reis, governadores romanos e o próprio Jesus, e uma demonstração poderosa de como a arqueologia ilumina as Escrituras.

Que esses monumentos nos lembrem de que a Bíblia não é um livro de mitos distantes, mas um registro enraizado na geografia real, na história verificável e nas pedras que ainda hoje podemos tocar. E que a água que fluiu por esses aquedutos durante dois milênios nos aponte para a fonte inesgotável da Água Viva — aquela que Jesus prometeu a todos os que nele depositam sua fé.

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Notas de Rodapé

  1. Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas, 18.60-62. Relato sobre a construção do aqueduto por Pilatos e o uso do dinheiro do Corban.
  2. Flávio Josefo, Guerras Judaicas, 2.175-177. Descrição do protesto popular e do massacre que se seguiu.
  3. Amihai Mazar, "The Aqueducts of Jerusalem", em Yigael Yadin (ed.), Jerusalem Revealed (Jerusalem: Israel Exploration Society, 1975). Estudo fundamental sobre o sistema hidráulico.
  4. Eclesiastes 2:6 — Declaração atribuída a Salomão sobre a construção de reservatórios de água.
  5. Cantares 7:4 — Referência poética de Salomão a piscinas de água.
  6. Lucas 13:1-5 — Referência de Jesus aos galileus mortos por Pilatos e à queda da torre de Siloé.
  7. Dan Bahat, "Jerusalem Down Under: Tunneling Along Herod's Temple Mount Wall", Biblical Archaeology Review, Nov/Dec 1995. Sobre o aqueduto e a Ponte de Wilson.
  8. Estudo de 2021 da Universidade Hebraica de Jerusalém — Datação por radiocarbono do aqueduto de Biar, publicado no Wiley Online Library.
  9. Deming, D. "The Aqueducts and Water Supply of Ancient Jerusalem", Groundwater, 2025. Estudo abrangente do sistema hidráulico.
  10. Jerome Murphy-O'Connor, The Holy Land: An Oxford Archaeological Guide (Oxford University Press, 2008). Referência sobre identificação e datação das piscinas.
  11. Kenneth Lönnqvist (2000) — Identificação do aqueduto de Arrub como o aqueduto mencionado por Josefo em conexão com Pilatos.
  12. Biblical Archaeology Society, "Pontius Pilate and the Jerusalem Aqueduct", Nov. 2025. Sobre as descobertas recentes.

Perguntas Frequentes

João Andrade
João Andrade
Apaixonado pelas histórias bíblicas e um autodidata nos estudos das civilizações e cultura ocidental. Ele é formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas e utiliza a tecnologia para o Reino de Deus.

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