Poucos lugares no mundo permitem que uma pessoa caminhe literalmente sobre as mesmas pedras pisadas há dois mil anos. Jerusalém, porém, acaba de oferecer essa experiência de maneira sem precedentes. Após mais de duas décadas de escavações meticulosas conduzidas pela Autoridade de Antiguidades de Israel em parceria com a Fundação Cidade de Davi, a antiga Estrada de Peregrinação — uma via cerimonial de 600 metros que conectava o Tanque de Siloé ao Monte do Templo — foi finalmente revelada ao público em setembro de 2025. Trata-se de uma das descobertas arqueológicas mais significativas das últimas décadas, com implicações profundas para a compreensão da narrativa bíblica, da cultura judaica do primeiro século e do próprio ministério de Jesus.
Este artigo examina em profundidade as estruturas encontradas entre o Tanque de Siloé e o Monte do Templo, as evidências materiais que confirmam o uso ritual do percurso, e o significado teológico que essas descobertas carregam tanto para judeus quanto para cristãos.
O Tanque de Siloé: Onde a Arqueologia Encontrou o Evangelho
A Redescoberta de 2004
A história dessa descoberta começa de forma quase providencial. Em 2004, durante a instalação de uma nova tubulação de esgoto na extremidade sul da Cidade de Davi, operários ouviram um som diferente ao escavar o solo. Os arqueólogos Eli Shukron e Ronny Reich, que acompanhavam a obra — como é procedimento padrão em Jerusalém —, identificaram degraus de pedra antigos sob camadas de lama e sedimento acumulados ao longo de séculos. Após a remoção de quatro a cinco metros de entulho, ficou claro que se tratava de algo monumental: os degraus faziam parte de um enorme tanque escalonado, datado do período do Segundo Templo.
As escavações subsequentes revelaram que o tanque tinha formato trapezoidal, medindo aproximadamente 69 metros de largura, com degraus em pelo menos três dos seus lados. Cada lado apresentava três conjuntos de cinco degraus, separados por plataformas intermediárias — um projeto arquitetônico que permitia o acesso à água em diferentes níveis, conforme a variação sazonal. Moedas do reinado de Alexandre Janeu, incrustadas no revestimento de gesso, forneceram uma datação segura para a construção original no século I a.C., enquanto fragmentos de cerâmica e 12 moedas da Primeira Revolta Judaica (66-70 d.C.) confirmaram que o tanque permaneceu em uso até a destruição de Jerusalém pelos romanos.
O Significado Bíblico do Tanque
O Tanque de Siloé possui uma história que remonta pelo menos sete séculos antes de Jesus. O rei Ezequias, no final do século VIII a.C., antecipando o cerco do rei assírio Senaqueribe, ordenou a construção do famoso túnel que leva seu nome — uma obra de engenharia impressionante de 533 metros escavada na rocha viva, desviando as águas da Fonte de Giom para dentro da cidade (2 Reis 20:20; 2 Crônicas 32:30). Essas águas alimentavam o que as Escrituras chamam de "as águas de Siloé, que correm brandamente" (Isaías 8:6) e o "tanque de Selá" mencionado por Neemias (Neemias 3:15).
No período do Segundo Templo, o tanque ganhou importância ritual extraordinária. De acordo com o Talmude de Jerusalém (Hagigá), era neste local que os peregrinos iniciavam sua jornada ritual antes de subir ao Templo. A Mishná (Sucá 4:9) registra que, durante a Festa dos Tabernáculos (Sucot), sacerdotes desciam ao Tanque de Siloé para encher um vaso de ouro com suas águas, que era então transportado em procissão até o altar do Templo para a libação — a célebre cerimônia de Simchat Beit HaShoevá (a Alegria da Casa da Retirada da Água). Essa cerimônia ocorria à noite, com peregrinos carregando tochas ao longo de toda a rota até o Templo, criando um espetáculo que a tradição judaica descreve como incomparável em beleza.
É neste contexto que devemos compreender as palavras de Jesus registradas em João 7:37-38, quando, no último dia da Festa dos Tabernáculos — provavelmente no exato momento da cerimônia da água — Ele se levantou e declarou: "Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva." A declaração era uma reivindicação messiânica profunda, conectando-se diretamente ao ritual que acabava de ser realizado com águas vindas de Siloé.
A Cura do Cego de Nascença — João 9
Talvez a conexão bíblica mais marcante deste sítio arqueológico esteja registrada no Evangelho de João, capítulo 9. Jesus, após ter deixado o Templo (João 8:59), encontrou um homem cego de nascença. Após fazer lodo com saliva e colocá-lo sobre os olhos do homem, Jesus ordenou: "Vai, lava-te no tanque de Siloé (que quer dizer Enviado). Foi, pois, e lavou-se, e voltou vendo" (João 9:7).
A descoberta do tanque do período do Segundo Templo trouxe uma dimensão concreta a este relato. O homem curado teria descido os mesmos degraus de pedra que os arqueólogos escavaram, mergulhando nas mesmas águas alimentadas pelo Túnel de Ezequias. E não é improvável que ele tenha percorrido a mesma Estrada de Peregrinação ao retornar — agora vendo pela primeira vez o caminho que tantos outros percorriam para adorar no Templo.
A precisão geográfica de João é notável. O evangelista demonstra conhecimento íntimo da topografia de Jerusalém anterior à destruição de 70 d.C. — um detalhe que reforça o caso pela autoria primitiva e a base de testemunho ocular do Quarto Evangelho, como destacam estudiosos como James H. Charlesworth, da Universidade de Princeton.
A Estrada de Peregrinação: A Via Sacra de Jerusalém
Construção e Arquitetura
A Estrada de Peregrinação (Derech HaAliya) foi a principal artéria cerimonial de Jerusalém durante o período do Segundo Templo. Construída ao longo de aproximadamente uma década, evidências arqueológicas indicam que a rua foi concluída por volta de 30-31 d.C., durante o governo de Pôncio Pilatos na Judeia — uma descoberta que reformulou suposições anteriores de que a construção pertencia exclusivamente à era de Herodes, o Grande.
Um dos aspectos mais engenhosos da arquitetura é o sistema de degraus escalonados: alternando um degrau curto com um longo, de forma proposital. Esse modelo singular foi projetado para criar uma caminhada dignificada e pausada em direção ao Templo, impedindo a corrida e o desrespeito durante a peregrinação. Além disso, o padrão permitia que os peregrinos alternassem o olhar entre o Templo no alto do monte e os próprios degraus, garantindo uma subida cuidadosa e reverente.
A qualidade da pavimentação é excepcional. As lajes de calcário são perfeitamente cortadas e niveladas, comparáveis à qualidade encontrada na rua pavimentada do primeiro século ao longo do Muro Ocidental. Cada detalhe arquitetônico evidencia que essa não era uma rua comum, mas uma via cerimonial projetada para facilitar uma experiência espiritual — desde a purificação ritual até a adoração no Templo.
O Sistema de Drenagem Subterrâneo
Sob a Estrada de Peregrinação, os arqueólogos descobriram um impressionante canal de drenagem herodiano. Construído com qualidade rara e meticulosa, o túnel possuía teto fechado com lajes retangulares de pavimentação e cumpria a função de drenar as águas das encostas do Monte Sião e do Monte do Templo, coletando-as em um reservatório nas encostas do vale.
Esse sistema de drenagem não era apenas uma obra de infraestrutura urbana — ele servia a um propósito ritual fundamental. O canal prevenia a inundação da rua durante as festas de peregrinação, preservando a limpeza e a dignidade dos peregrinos que subiam ao Monte do Templo. A pureza ritual (kadosh, "santidade" ou "separação") era uma exigência inegociável para quem desejava entrar no Templo, e cada detalhe da infraestrutura urbana de Jerusalém refletia essa preocupação.
É dentro deste canal de drenagem que algumas das descobertas mais dramáticas foram realizadas. Panelas de cozinha, lamparinas de óleo, moedas de bronze e até mesmo uma espada de legionário romano foram encontradas no interior dos túneis. Esses achados coincidem de maneira impressionante com a descrição de Flávio Josefo em A Guerra dos Judeus (Livro 6), que relata como judeus se esconderam "nos túneis sob Siloé" durante a Grande Revolta contra Roma (66-70 d.C.). A arqueologia, mais uma vez, confirmou a precisão de um relato histórico antigo.
Os Achados Materiais: Cerâmica, Moedas e Inscrições
Cerâmica do Primeiro Século
Fragmentos de cerâmica encontrados ao longo de toda a extensão da rua e no próprio Tanque de Siloé são fundamentais para a datação e compreensão do sítio. Cacos de vasilhas domésticas, jarros de armazenamento e vasos rituais característicos do período do Segundo Templo foram recuperados em quantidades significativas. A presença de cerâmica típica do primeiro século — identificada por suas formas, técnicas de fabricação e composição da argila — confirma a ocupação contínua e a intensa atividade religiosa no local durante o período romano.
A cerâmica também fornece evidências da destruição violenta de 70 d.C. Camadas de entulho contendo fragmentos quebrados, misturados com cinzas e restos de construção, testemunham o momento catastrófico em que Roma pôs fim à Jerusalém do Segundo Templo. Após essa destruição, o tanque e a rua foram gradualmente soterrados sob séculos de sedimento e construção posterior, até sua redescoberta no século XXI.
Evidências Numismáticas
As moedas encontradas ao longo das escavações constituem uma das evidências mais poderosas para a datação e a contextualização do sítio. A estratigrafia numismática revela pelo menos três camadas temporais distintas:
Período Hasmoneu (século I a.C.): Moedas de Alexandre Janeu, encontradas embutidas no gesso original do tanque, fornecem a data mais antiga para a construção da piscina escalonada.
Período Herodiano e Romano (séculos I a.C. a I d.C.): Inúmeras moedas, junto com pesos comerciais e até uma mesa de pesagem especial, foram descobertas ao longo da Estrada de Peregrinação, confirmando que a rua não era apenas uma via cerimonial, mas também um movimentado corredor comercial — o equivalente antigo de um grande mercado moderno.
Período da Revolta (66-70 d.C.): Doze moedas da Primeira Revolta Judaica, encontradas junto ao tanque, datam com precisão o abandono do local, coincidindo com a destruição romana de Jerusalém.
Inscrições em Hebraico Antigo
As escavações também trouxeram à luz inscrições em hebraico antigo que reforçam a narrativa bíblica sobre a importância ritual do percurso. Embora a publicação completa de todos os achados epigráficos ainda esteja em andamento, os fragmentos já analisados revelam textos relacionados à administração do Templo, práticas de purificação e regulamentações de peregrinação. Essas inscrições complementam o que já era conhecido pela literatura rabínica e pelo testemunho de Flávio Josefo, adicionando evidência material direta à compreensão das práticas religiosas no período do Segundo Templo.
Vale lembrar que o selo de oficial do Templo encontrado em Jerusalém recentemente representa outro exemplo extraordinário de como a evidência epigráfica corrobora a narrativa bíblica sobre a organização e funcionamento do santuário.
A Rota Ritual: Do Tanque ao Templo
O Processo de Purificação
Para compreender a importância da rota entre o Tanque de Siloé e o Monte do Templo, é essencial entender o sistema de pureza ritual (tahará) do judaísmo do Segundo Templo. A Lei de Moisés exigia que todo israelita estivesse ritualmente puro antes de entrar no recinto sagrado do Templo. Isso envolvia a imersão em uma mikvé (banho ritual) contendo "águas vivas" — isto é, água corrente de fonte natural.
O Tanque de Siloé, alimentado pelas águas correntes da Fonte de Giom através do Túnel de Ezequias, atendia perfeitamente a esse requisito. Seu tamanho monumental — comparável a duas piscinas olímpicas — não era um luxo, mas uma necessidade prática. Flávio Josefo registra que quase 3 milhões de pessoas participavam da peregrinação ao Templo durante as grandes festas. Todo esse contingente precisava se purificar antes de subir, e o Tanque de Siloé era o maior banho ritual de toda Jerusalém.
O processo seguia uma sequência ordenada: o peregrino descia os degraus escalonados do tanque, imergia-se nas águas para purificação ritual, e então subia pela esplanada norte pavimentada com lajes de calcário — o início da Estrada de Peregrinação. A partir daí, iniciava-se a subida de 115 metros de desnível ao longo de 600 metros de distância até as Portas de Hulda no Monte do Templo.
Os Salmos de Subida
É provável que durante essa caminhada ascendente os peregrinos entoassem os Shirei HaMaalot — os Salmos de Subida (Salmos 120-134), uma coleção de quinze cânticos especificamente associados à peregrinação ao Templo. Esses salmos não são apenas expressões de devoção espiritual; são descrições literais da experiência física de subir a Jerusalém:
"Alegrei-me quando me disseram: Vamos à casa do Senhor. Os nossos pés estão dentro das tuas portas, ó Jerusalém!" (Salmo 122:1-2)
"Os que confiam no Senhor serão como o Monte Sião, que não se abala, mas permanece para sempre." (Salmo 125:1)
A descoberta da Estrada de Peregrinação dá vida concreta a esses textos. Ze'ev Orenstein, diretor de relações internacionais da Fundação Cidade de Davi, observou que os Cânticos de Subida não tratam apenas de uma ascensão espiritual — eles descrevem a experiência física real da peregrinação. Não existe outro lugar no mundo onde se possa vivenciar esses salmos como uma subida física ao Templo de Jerusalém, exceto caminhando pela Estrada de Peregrinação na Cidade de Davi.
Jesus na Estrada de Peregrinação
A relevância cristológica dessa descoberta é imensa. Como observou Ze'ev Orenstein em entrevista ao Jerusalem Post: "Conservadoramente falando, a probabilidade de que Jesus caminhou nesta estrada é de 100%. Se você acredita que existiu um Jesus histórico há 2.000 anos, ele teria ido com todos os judeus se purificar no Siloé, na extremidade sul da Cidade de Davi, e então subido pela Estrada de Peregrinação através da Cidade de Davi, até o Templo."
Os doze apóstolos certamente percorreram esse caminho ao lado de Jesus. Pedro, André, Tiago, João e os demais teriam pisado nesses mesmos degraus escalonados durante as festas de Pessach (Páscoa), Shavuot (Pentecostes) e Sucot (Tabernáculos). O Evangelho de João preserva múltiplas referências a Jesus no Templo durante essas festas — e cada uma delas implica que Ele teria percorrido a Estrada de Peregrinação.
O milagre de Betesda, a cura do cego de nascença em Siloé (João 9), o discurso no último dia da Festa dos Tabernáculos (João 7:37-38) e até a Entrada Triunfal — todos esses eventos bíblicos estão geograficamente conectados à rota que a arqueologia agora revelou.
Tecnologias Modernas nas Escavações
Escaneamento 3D e Georradar
As escavações da Estrada de Peregrinação representam uma das operações arqueológicas mais complexas e custosas atualmente em andamento em Israel. A rua está soterrada sob o bairro moderno de Silwã, exigindo que os arqueólogos conduzam uma massiva operação de tunelamento para expor a via original, que hoje é percorrida em grande parte no subsolo.
Tecnologias de ponta têm sido empregadas para maximizar as descobertas e minimizar os riscos. O georradar (GPR — Ground Penetrating Radar) permite aos arqueólogos "enxergar" abaixo da superfície sem escavação, utilizando pulsos eletromagnéticos de alta frequência que refletem nas interfaces entre diferentes materiais subterrâneos. Essa tecnologia não destrutiva gera imagens detalhadas em três dimensões das estruturas ainda soterradas, revelando canais, muros, pisos e cavidades que guiam a estratégia de escavação.
O escaneamento 3D a laser complementa o georradar ao criar modelos digitais milimetricamente precisos das estruturas já expostas. Cada degrau, cada laje de pavimentação, cada canal de drenagem é documentado em formato digital antes que qualquer intervenção adicional seja realizada. Essa combinação de tecnologias permite mapear áreas ainda não escavadas sob os bairros contemporâneos, abrindo caminho para futuras descobertas sem comprometer a integridade dos vestígios arqueológicos.
O resultado é uma visão cada vez mais completa da Jerusalém do primeiro século — uma cidade cuja infraestrutura, planejamento urbano e preocupação ritual impressionam até mesmo engenheiros modernos.
A Inauguração de 2025: Pedras que Falam
Em 16 de setembro de 2025, a Estrada de Peregrinação foi oficialmente inaugurada em uma cerimônia que reuniu autoridades de alto escalão, incluindo o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, o secretário de Estado americano Marco Rubio e o embaixador dos EUA em Israel Mike Huckabee, ao lado do diretor da Autoridade de Antiguidades de Israel, Eli Escusido, e do prefeito de Jerusalém, Moshe Leon.
A Cidade de Davi e a Autoridade de Antiguidades de Israel publicaram em comunicado conjunto: "Estamos esperando por este momento há 2.000 anos. Por muitas gerações, a estrada esteve enterrada sob camadas de destruição. Nos últimos anos, tivemos o privilégio de reexpor toda a sua extensão."
Mike Huckabee descreveu a escavação como um momento que "deixa as pedras falarem" — uma expressão que ecoa a própria declaração de Jesus quando os fariseus pediram que Ele fizesse seus discípulos se calarem: "Eu vos digo que, se estes se calarem, as próprias pedras clamarão" (Lucas 19:40). A arqueologia em Jerusalém parece estar cumprindo essas palavras de maneira literal.
O ex-embaixador dos EUA em Israel, David Friedman, classificou a descoberta como um dos achados arqueológicos mais importantes do mundo, considerando-a uma evidência histórica robusta da veracidade da Bíblia.
Implicações Teológicas e Históricas
Confirmação da Narrativa Bíblica
A revelação da Estrada de Peregrinação e do Tanque de Siloé confirma múltiplos aspectos da narrativa bíblica que antes dependiam exclusivamente do texto escrito. O Evangelho de João demonstra um conhecimento topográfico de Jerusalém que seria impossível para um autor desconectado da cidade antes de 70 d.C. A menção ao Tanque de Siloé (João 9:7), ao Tanque de Betesda (João 5:2) e a diversos locais específicos do Templo revela um nível de precisão que somente um testemunho ocular ou uma fonte muito próxima poderia fornecer.
Por décadas, críticos sugeriram que o Evangelho de João era uma composição tardia, distante dos eventos que descrevia. A presença de moedas romanas, o layout arquitetônico consistente com as exigências da lei ritual judaica, e a localização exata dentro da Cidade de Davi convergem para confirmar que este é o tanque autêntico mencionado no relato da cura do cego.
A Peregrinação como Experiência de Fé
As descobertas também iluminam a profundidade da experiência de peregrinação no judaísmo do Segundo Templo. Não se tratava de uma simples caminhada até um local religioso. Era um processo elaborado e intencional: purificação nas águas de Siloé, subida reverente pelos degraus escalonados, cântico dos Salmos de Subida, passagem pelo movimentado corredor comercial onde oferendas podiam ser adquiridas, e finalmente a entrada pelo portal sagrado nas Portas de Hulda. Cada etapa carregava significado teológico e preparava o coração do adorador para o encontro com Deus no Templo.
Para os primeiros cristãos, membros da Igreja Primitiva em Jerusalém, essas mesmas estruturas faziam parte de sua paisagem cotidiana. Os apóstolos continuaram frequentando o Templo após o Pentecostes (Atos 2:46; 3:1), e é razoável supor que a rota entre Siloé e o Templo era percorrida diariamente por Pedro, João e os demais líderes da comunidade nascente. O episódio da cura do paralítico na Porta Formosa do Templo (Atos 3:1-10) teria acontecido na extremidade norte dessa mesma estrada.
Conexão entre Fé, História e Geografia Sagrada
A convergência de fé, história e geografia neste sítio arqueológico é extraordinária. Cada pedra escavada reforça a mensagem de que os eventos bíblicos não ocorreram em um vácuo mitológico, mas em um cenário geográfico concreto, datável e verificável. Como destacou Ze'ev Orenstein: "Quando você está no lugar onde a Bíblia aconteceu, as palavras da Bíblia ganham vida."
Essa descoberta se junta a um crescente corpo de evidências arqueológicas que confirmam a historicidade do texto bíblico. As escavações em Jerusalém continuam a revelar camada após camada de história sagrada, desde o período dos patriarcas até a destruição de 70 d.C. Cada achado — seja uma moeda, um selo, uma inscrição ou uma estrutura arquitetônica — é uma peça a mais no mosaico que conecta o texto sagrado à história tangível.
O Que Ainda Está por Vir
Embora a inauguração da Estrada de Peregrinação represente um marco monumental, as escavações estão longe de encerradas. Grandes porções do Tanque de Siloé ainda aguardam escavação completa, e o uso de tecnologias como georradar e escaneamento 3D já identificou estruturas adicionais sob os bairros modernos que ainda não foram expostas.
A promessa para os próximos anos é a criação de um percurso completo e contínuo que permitirá aos visitantes caminhar desde o Tanque de Siloé, passando pela Estrada de Peregrinação e pela Cidade de Davi, até o Muro Ocidental e os degraus meridionais do Monte do Templo — refazendo literalmente o mesmo trajeto que os peregrinos do primeiro século percorriam, sobre as mesmas pedras de dois milênios atrás.
Para judeus, a estrada oferece uma conexão visceral com o período do Segundo Templo, com as festas de peregrinação e com a vida judaica antiga. Para cristãos, ela proporciona um vínculo tangível com o mundo do Novo Testamento — possivelmente com as mesmas pedras sobre as quais Jesus caminhou ao se dirigir ao Templo. Para estudiosos de todas as tradições, trata-se de uma das mais extraordinárias confirmações arqueológicas da veracidade do relato bíblico.
Conclusão
As escavações entre o Tanque de Siloé e o Monte do Templo representam muito mais que uma conquista arqueológica. Elas são uma janela aberta para o mundo bíblico — um convite para caminhar onde Jesus caminhou, onde os peregrinos cantavam os Salmos de Subida, onde o cego curado lavou seus olhos e viu a luz pela primeira vez, onde os primeiros cristãos adoravam no Templo, e onde, nos últimos dias da Jerusalém antiga, rebeldes judeus se esconderam nos túneis de drenagem enquanto Roma destruía a cidade santa.
Cada degrau escavado, cada moeda recuperada, cada fragmento de cerâmica é um testemunho silencioso de que a narrativa bíblica é enraizada na história real. E talvez o mais impressionante seja que, depois de dois mil anos de silêncio sob camadas de destruição e sedimento, as pedras de Jerusalém finalmente estão clamando — exatamente como Jesus disse que fariam.
"Eu vos digo que, se estes se calarem, as próprias pedras clamarão." — Lucas 19:40
Artigos Relacionados
- Novas Revelações Arqueológicas na Cidade de Davi em 2025
- Escavações em Jerusalém: A Confirmação de Relatos Bíblicos
- Betesda: O Milagre no Tanque da Misericórdia
- O Que Já Foi Encontrado Sobre o Rei Ezequias
- Arqueólogos Encontram Selo de Oficial do Templo em Jerusalém
Notas e Referências
- Ronny Reich e Eli Shukron, "The Pool of Siloam in Jerusalem of the Late Second Temple Period and Its Surroundings", em Unearthing Jerusalem: 150 Years of Archaeological Research in the Holy City, ed. Katharina Galor e Gideon Avni (Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 2011), pp. 241-255.
- Elaine A. Phillips, "The Pools of Siloam: Biblical and Post-biblical Traces", Tyndale Bulletin 70, nº 1 (2019): pp. 41-54.
- Yoel Elitzur, "The Siloam Pool — 'Solomon's Pool' — was a Swimming Pool", Palestine Exploration Quarterly 140, nº 1 (2008): pp. 17-25.
- R. Reich, E. Shukron e O. Lernau, "Recent Discoveries in the City of David, Jerusalem", Israel Exploration Journal 57 (2007): pp. 153-168.
- Flávio Josefo, A Guerra dos Judeus, Livro 6.
- Mishná, Sucá 4:9 — sobre a cerimônia de retirada da água.
- Talmude de Jerusalém, Hagigá — sobre o ponto de partida dos peregrinos.
- "Extraordinary Excavations: The Pilgrimage Road and the Pool of Siloam", Associates for Biblical Research (ABR), Bible Archaeology, 2025.
- Entrevista com Ze'ev Orenstein, diretor de relações internacionais da Fundação Cidade de Davi, The Jerusalem Post, 2025.
- Canal "Israel com Aline" — "Escavações Inéditas! De Siloé ao Templo!", YouTube, 2025.
Perguntas Frequentes