Um Templo Pagão no Coração de Judá

Mai 2026
Tempo de estudo | 25 minutos
Atualizado em 03/05/2026

Templos clandestinos no deserto, figurinhas de deusas escondidas em casas, altares pagãos dentro de fortalezas reais e mais de 850 ídolos de barro descobertos em escavações. As evidências de que a idolatria se infiltrou profundamente em Israel são esmagadoras, e cada peça encontrada confirma com surpreendente fidelidade aquilo que os profetas denunciaram há quase três mil anos.

Quando lemos as Escrituras, encontramos uma tensão constante entre o chamado divino para que Israel fosse uma nação santa, separada para o Senhor, e a realidade histórica de um povo que repetidamente cedeu aos cultos pagãos dos vizinhos. A Bíblia denuncia essa infidelidade em centenas de passagens, dos profetas maiores aos livros históricos. Por muito tempo, céticos enxergaram esses relatos como exageros literários ou propaganda religiosa de escribas tardios. Mas, nas últimas décadas, escavações arqueológicas em Israel, no Negev e nas regiões fronteiriças trouxeram à tona evidências físicas que confirmam, com inquietante precisão, exatamente o que os profetas viram e condenaram.

Este artigo reúne as principais provas bíblicas, históricas e arqueológicas da idolatria em Israel, organizando o material em uma narrativa que percorre desde o Sinai até o exílio babilônico. O leitor verá que a idolatria não foi um desvio pontual ou marginal, foi um problema estrutural, persistente, denunciado pelos profetas e finalmente comprovado pelas pedras e pelos cacos de cerâmica que dormiram por milênios sob a terra do Antigo Oriente Próximo.

Vista aérea da fortaleza israelita de Tel Arad no Neguev — região que guarda evidências físicas da idolatria em Judá. Foto: Asaf Tz / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0

O Que Significa "Idolatria" no Contexto Bíblico

Antes de examinar as provas, é fundamental entender o que a Bíblia entende por idolatria. O termo hebraico mais comum é avodah zarah, traduzido literalmente como "serviço estranho" ou "culto alheio". Em essência, idolatria é qualquer forma de adoração dirigida a algo que não seja o Deus único de Israel, identificado pelo nome YHWH.

O conceito ganha forma já no Decálogo, fundação ética e religiosa da nação. Os Dez Mandamentos abrem com uma proibição explícita: "Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás diante delas, nem as servirás" (Êxodo 20:3-5). Os dois primeiros mandamentos, portanto, definem a identidade espiritual de Israel: monoteísmo exclusivo e proibição absoluta de imagens.

Tipos de Idolatria Praticados na Antiguidade

A idolatria no Antigo Oriente Próximo assumia múltiplas formas. Havia o politeísmo aberto, com adoração direta a deuses estrangeiros como Baal, Astarote, Quemos e Moloque. Havia o sincretismo, em que elementos pagãos se misturavam ao culto do Senhor, criando uma religião híbrida. Havia a idolatria doméstica, com pequenas imagens guardadas dentro das casas. E havia a idolatria oficial, patrocinada por reis e sacerdotes em altos cultuais e templos secundários.

A Bíblia condena todas essas formas, mas dedica atenção especial ao sincretismo, talvez por ser o tipo mais sedutor e duradouro. O sincretismo permitia que os israelitas mantivessem a aparência de fidelidade ao Senhor enquanto importavam práticas pagãs em paralelo. Era uma idolatria disfarçada, que enganava a consciência ao manter o nome do Deus verdadeiro nos lábios mesmo enquanto se adoravam outros deuses no coração.

A Primeira Grande Prova Bíblica: O Bezerro de Ouro

A primeira grande crise idólatra do povo aconteceu no pé do Monte Sinai, poucas semanas depois de Israel ter ouvido a voz de Deus na entrega da Lei. Enquanto Moisés permanecia no monte recebendo as tábuas, o povo, impaciente, exigiu de Arão um deus visível. O sumo sacerdote cedeu, recolheu o ouro do povo e fundiu um bezerro, declarando: "Eis aqui teus deuses, ó Israel, que te tiraram da terra do Egito" (Êxodo 32:4).

O episódio é chocante por vários motivos. Primeiro, pela velocidade da queda: o povo apostatou em poucos dias. Segundo, pela escolha simbólica: o bezerro era um ícone universal de fertilidade e poder no Antigo Oriente, especialmente no Egito (onde o touro Ápis era venerado) e em Canaã (onde Baal era frequentemente representado como um touro). Terceiro, pelo grau de envolvimento sacerdotal: foi Arão, o futuro sumo sacerdote, quem fabricou a imagem.

O bezerro de ouro tornou-se o protótipo de toda apostasia futura em Israel. A imagem do touro voltaria a aparecer séculos depois, ainda mais grave, em Dan e em Betel, durante o reinado de Jeroboão I.

"A Adoração do Bezerro de Ouro", pintura de Nicolas Poussin (c. 1634). Domínio público.

A Idolatria do Rei Salomão e o Início da Decadência Espiritual

Poucos personagens bíblicos têm contraste tão dramático quanto Salomão. Filho de Davi, recebeu sabedoria divina, construiu o Templo de Jerusalém, levou Israel ao auge político e econômico. Mas o livro de 1 Reis registra com franqueza dolorosa o naufrágio espiritual do rei mais sábio da história.

"À medida que Salomão foi envelhecendo, suas mulheres o induziram a voltar-se para outros deuses, e seu coração já não era totalmente dedicado ao Senhor, o seu Deus, como fora o coração do seu pai Davi. Salomão seguiu Astarote, deusa dos sidônios, e Milcom, abominação dos amonitas" (1 Reis 11:4-5).

O texto sagrado é específico: Salomão construiu altos cultuais para Quemós (deus de Moabe) e para Moloque (deus de Amom) no monte fronteiro a Jerusalém. Em outras palavras, na própria capital do reino e à vista do Templo do Senhor, ergueram-se santuários a divindades pagãs. As esposas estrangeiras do rei queimavam incenso e ofereciam sacrifícios aos deuses delas, com aprovação real.

Esse é o pano de fundo que explica por que, a partir do reinado de Salomão, a idolatria deixa de ser exceção e passa a ser regra estrutural em Israel. Os reis posteriores, especialmente no reino do Norte, levariam essa apostasia a níveis ainda mais extremos.

Os Bezerros de Jeroboão: Idolatria Como Política de Estado

Após a morte de Salomão, o reino se dividiu. Roboão herdou Judá e Jerusalém, enquanto Jeroboão I tomou as dez tribos do norte. Para evitar que seus súditos peregrinassem ao Templo de Jerusalém (e potencialmente voltassem a se aliar com Roboão), Jeroboão instituiu uma medida que selaria o destino espiritual do reino do Norte: ergueu dois bezerros de ouro, um em Dan e outro em Betel, declarando ao povo: "Eis aqui teus deuses, ó Israel, que te tiraram do Egito" (1 Reis 12:28).

A frase é praticamente idêntica à de Arão no Sinai. Não foi coincidência. Jeroboão sabia que estava reproduzindo o pecado do bezerro de ouro, mas calculou que a estabilidade política do seu reino dependia disso. A partir desse momento, o reino do Norte teria culto oficial em santuários alternativos, com sacerdotes não levíticos e um calendário religioso modificado. Era idolatria como política de Estado.

A arqueologia confirma a existência desses centros cultuais. Em Tel Dan, escavações lideradas por Avraham Biran a partir dos anos 1960 revelaram um grande lugar alto (em hebraico, bamah) com altar monumental, escadarias cerimoniais e instalações cultuais que se encaixam perfeitamente com a descrição bíblica do santuário de Jeroboão. O sítio se manteve ativo por séculos, até a destruição assíria no século VIII a.C.

Altar israelita em sítio arqueológico de Israel, tipo de instalação cultual encontrada em Tel Dan e outros locais associados aos santuários de Jeroboão I. Foto: Wikimedia Commons

O Templo Edomita em Tamar: Idolatria no Coração de Judá

Uma das descobertas arqueológicas mais impressionantes ligadas à idolatria em Israel veio à luz nos anos 1990, em Ein Hatzeva, no deserto da Aravá. O sítio, identificado pelos arqueólogos como a Tamar bíblica (a fortaleza fronteiriça construída por Salomão e mencionada em 1 Reis 9:18 e Ezequiel 47:19), guardava um segredo extraordinário sob suas camadas mais antigas.

A fortaleza ficava em ponto estratégico: nascentes abundantes em pleno deserto, controle das rotas comerciais entre o Mar Vermelho e a Judeia, e proximidade da fronteira com Edom, o reino vizinho fundado por descendentes de Esaú e historicamente inimigo de Israel. Os edomitas haviam sido subjugados por Davi e ainda eram vassalos no tempo de Salomão, mas a tensão entre os dois povos atravessava séculos.

Setenta e Cinco Objetos Cultuais Pagãos Esmagados em um Poço

Ao escavar uma área adjacente ao muro norte da fortaleza, os arqueólogos Rudolph Cohen e Yigal Yisrael, atuando pela Autoridade de Antiguidades de Israel, encontraram um poço deliberadamente cavado e selado com pedras pesadas. No interior do poço havia setenta e cinco objetos cultuais quebrados em fragmentos, todos pertencentes a um santuário edomita do final do século VII a.C.

O conjunto incluía sete altares de incenso de pedra, três estatuetas antropomórficas (uma figura feminina segurando uma tigela de oferendas e duas figuras masculinas guerreiras), múltiplos pedestais cultuais, cálices, queimadores de incenso, romãs de barro (símbolo cultual também presente no Templo de Jerusalém) e uma escultura de pedra que se acredita representar a divindade adorada no santuário. Como cada peça havia sido quebrada dentro do poço sem que nenhum fragmento se perdesse, os arqueólogos puderam reconstruir os objetos quase em sua totalidade, e hoje o conjunto está exposto no Museu de Israel.

Próximo ao poço foi descoberto um selo de pedra circular com inscrição edomita, mostrando dois homens em túnicas longas, um de cada lado de um altar com chifres, em gestos de bênção e oferenda. O selo confirma a identidade edomita do santuário e selou interpretativamente toda a descoberta.

Pithos A de Kuntillet Ajrud com figuras antropomórficas e inscrição "Bendito seja [fulano] por YHWH e por sua Aserá". Wikimedia Commons.

Por Que Havia um Santuário Edomita Dentro de Judá?

A pergunta é inevitável: como pode existir um templo dedicado a deuses inimigos dentro do próprio território de Judá? A resposta provavelmente está no padrão de sincretismo descrito na Bíblia. O texto sagrado relata que o rei Amazias de Judá, após derrotar os edomitas em batalha, "trouxe os deuses dos filhos de Seir, e os tomou por deuses para si, e diante deles se prostrou e lhes queimou incenso" (2 Crônicas 25:14). A vitória militar, paradoxalmente, gerou uma derrota espiritual.

É plausível que o santuário em Tamar reflita esse mesmo padrão: soldados, comerciantes ou colonos judaítas em contato com edomitas em fronteira porosa, importando os deuses estrangeiros e mantendo um culto local até as autoridades centrais o desmantelarem. A datação do conjunto, fim do século VII a.C., aponta exatamente para a época da grande reforma religiosa do rei Josias, em 621 a.C.

A Destruição Cerimonial e a Reforma de Josias

O que torna essa descoberta tão valiosa é justamente a maneira como o santuário foi destruído. Não foi um saque caótico nem um terremoto, foi uma destruição ritual e proposital. Alguém retirou cada objeto cultual, cavou um poço amplo, quebrou cada peça cuidadosamente dentro do poço, e selou tudo com pedras pesadas. Esse padrão se encaixa precisamente com a descrição bíblica das reformas de Josias, registradas em 2 Reis 23 e 2 Crônicas 34.

O texto diz: "No oitavo ano de seu reinado, sendo ainda moço, Josias começou a buscar o Deus de Davi, seu pai, e no décimo segundo ano começou a purificar Judá e Jerusalém dos altos, dos postes-ídolos, das imagens de escultura e de fundição. Derrubaram, na sua presença, os altares dos baalins; quebrou as colunas que estavam acima deles e despedaçou os postes-ídolos, as imagens de escultura e as de fundição, reduziu-os a pó e o espalhou sobre as sepulturas dos que lhes haviam sacrificado" (2 Crônicas 34:3-4).

O santuário edomita em Tamar é, portanto, uma testemunha física silenciosa da reforma de Josias. As pedras e os cacos confirmam, em pleno deserto da Aravá, o que a Bíblia havia registrado séculos antes.

O Templo de Tel Arad: Sincretismo no Reino de Judá

Outra descoberta crucial para entender a idolatria em Israel veio das escavações em Tel Arad, no Negev oriental, lideradas por Yohanan Aharoni a partir dos anos 1960. No alto da fortaleza israelita do Ferro, os arqueólogos encontraram algo que ninguém esperava: um pequeno templo construído segundo a planta tripartite do Templo de Jerusalém, com pátio externo, salão principal e Santo dos Santos.

Dentro do Santo dos Santos havia dois altares de incenso de tamanhos diferentes e duas pedras eretas (em hebraico, matsevot). Análises químicas modernas dos resíduos preservados nos altares revelaram, em estudo de 2020, que o altar maior continha resíduos de incenso de olíbano, enquanto o menor apresentava traços de canábis queimada misturada com gordura animal, possivelmente para uso psicotrópico durante rituais.

A presença das duas matsevot e dos dois altares de incenso sugere fortemente um culto dual, no qual o Senhor era adorado ao lado de uma consorte feminina, possivelmente Aserá. Esse padrão de sincretismo é exatamente o que profetas como Jeremias e Isaías denunciavam.

O templo de Arad foi cuidadosamente desativado em algum momento entre os reinados do rei Ezequias e do rei Josias, ambos reformadores religiosos. As matsevot foram deitadas e enterradas, os altares foram cobertos com terra, e o templo nunca mais foi reativado, exatamente como 2 Reis 18:4 e 2 Reis 23:8 descrevem para as reformas desses reis.

O Santo dos Santos do templo israelita de Tel Arad, com as matsevot (pedras eretas) e altares de incenso. Foto: Chamberi / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0

As Figurinhas de Asherá: Idolatria Doméstica em Massa

Talvez a evidência arqueológica mais avassaladora da idolatria em Israel não venha de templos públicos, mas das casas comuns. Desde os anos 1920, escavações em sítios israelitas e judaítas trouxeram à luz mais de 850 figurinhas femininas de terracota, datadas principalmente dos séculos VIII e VII a.C. 1

Essas estatuetas, conhecidas pelos arqueólogos como "Judean Pillar Figurines" (figurinhas judaítas em coluna), retratam uma mulher segurando os seios proeminentes, em postura associada à fertilidade e ao aleitamento. A grande maioria dos especialistas, incluindo o renomado arqueólogo William Dever, identifica essas figurinhas com a deusa Aserá, consorte do deus cananeu El, que era cultuada em paralelo ao Senhor mesmo em Judá.

Figurinha judaíta em coluna (Judean Pillar Figurine) de Beth Shemesh, século VIII a.C. Museu Penn. Foto: Mary Harrsch / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

O detalhe mais perturbador é que essas figurinhas foram encontradas em casas particulares, não em templos públicos. Isso significa que a idolatria em Israel não era apenas um problema das elites ou dos altos cultuais, era uma prática íntima, doméstica e cotidiana, presente em milhares de lares israelitas. A frase profética de Jeremias ganha aqui uma dimensão concreta: "Quantas são as tuas cidades, tantos são os teus deuses, ó Judá" (Jeremias 2:28).

Inscrições de Kuntillet Ajrud e Khirbet el-Qom

Duas descobertas epigráficas, feitas no final do século XX, abalaram o mundo acadêmico ao revelar inscrições em hebraico antigo que mencionam o Senhor "e sua Aserá".

Kuntillet Ajrud

O sítio de Kuntillet Ajrud, no nordeste da Península do Sinai, foi escavado nos anos 1970 e revelou um pequeno entreposto datado de cerca de 800 a.C. Em grandes potes de armazenamento (pithoi) e fragmentos de gesso de parede, arqueólogos encontraram inscrições hebraicas e desenhos. Algumas inscrições contêm fórmulas de bênção como "Bendito seja [fulano] por YHWH de Samaria e por sua Aserá" e "Bendito seja [fulano] por YHWH de Temã e por sua Aserá".

Figuras antropomórficas e inscrição "YHWH e sua Aserá" do pithos de Kuntillet Ajrud (Horvat Teman), século IX-VIII a.C. Wikimedia Commons.

Os desenhos incluem uma figura masculina, uma figura feminina e uma árvore estilizada, possivelmente representando o poste-ídolo de Aserá. Os textos demonstram que, em pleno século VIII a.C., grupos de israelitas em viagem comercial pelo Sinai associavam abertamente Aserá ao Senhor como uma espécie de consorte divina.

Khirbet el-Qom

A cerca de treze quilômetros a oeste de Hebrom, em uma câmara funerária do final do século VIII a.C., foi descoberta uma inscrição rupestre em uma coluna de pedra. O texto, atribuído a um homem chamado Uriahu, declara: "Bendito seja Uriahu por YHWH, e por sua Aserá ele o salvou de seus inimigos".

Essas duas inscrições, junto com as 850 figurinhas, formam um quadro robusto: a adoração de Aserá ao lado do Senhor não era marginal nem apenas literária. Era uma realidade vivida por grandes parcelas da população israelita, mesmo em Judá, mesmo após Davi e Salomão, mesmo nos séculos das grandes pregações proféticas.

As Reformas de Ezequias e Josias: O Combate Sistemático à Idolatria

Diante de uma apostasia tão difusa, Deus levantou reis reformadores. Os dois mais importantes foram Ezequias (final do século VIII a.C.) e Josias (final do século VII a.C.).

A Reforma de Ezequias

Ezequias enfrentou a apostasia herdada do reinado idólatra de seu pai Acaz. O texto bíblico registra: "Tirou os altos, quebrou as colunas, deitou abaixo o poste-ídolo e despedaçou a serpente de bronze que Moisés fizera, porque até àquele dia os filhos de Israel lhe queimavam incenso e a chamavam Neustã" (2 Reis 18:4).

O detalhe da Neustã é revelador. A serpente de bronze, originalmente um instrumento de cura no deserto (Números 21:8-9), havia se tornado, com o passar dos séculos, um objeto de culto idólatra. Israel transformou em ídolo até mesmo aquilo que Deus havia usado para salvação. Ezequias destruiu a relíquia para impedir que continuasse sendo adorada. Uma inscrição do século VIII a.C. recentemente analisada confirma o ambiente religioso do Reino de Judá nesse período.

A Reforma de Josias

A reforma de Josias, ainda mais radical, foi disparada pela descoberta do Livro da Lei no Templo durante obras de restauração (2 Reis 22:8). Ao ouvir as maldições reservadas aos idólatras, Josias rasgou as vestes e iniciou uma purificação nacional sem precedentes. Demoliu o lugar alto que Salomão havia construído para Quemós e Milcom, profanou Tofete no vale de Hinom (onde se sacrificavam crianças a Moloque), destruiu o santuário de Betel fundado por Jeroboão e desativou todos os altos cultuais por toda Judá.

Representação da reforma religiosa do rei Josias, que mandou destruir os ídolos e altos cultuais em Judá no século VII a.C. (2 Reis 23). Domínio público.

O fim do santuário edomita em Tamar, do templo de Tel Arad, e o desaparecimento das figurinhas de Aserá do registro arqueológico judaíta após o exílio babilônico, todos esses fatos materiais convergem cronologicamente com as reformas registradas na Bíblia.

A Idolatria Como Causa do Exílio

A teologia profética sempre foi clara: a idolatria persistente seria a causa do exílio. Os profetas Isaías, Jeremias, Ezequiel e Amós denunciaram, durante mais de dois séculos, que a obstinação de Israel e Judá em seguir outros deuses traria consequências catastróficas.

O Reino do Norte (Israel) caiu para os assírios em 722 a.C., e o cronista resume a causa: "Sucedeu, pois, que, como os filhos de Israel pecaram contra o Senhor seu Deus, andaram nos costumes das nações que o Senhor expulsara de diante deles, e adoraram outros deuses, o Senhor se indignou contra Israel" (2 Reis 17:7-18).

O Reino do Sul (Judá) caiu para os babilônios em 586 a.C., e o Templo de Salomão foi incendiado. Após o exílio, algo notável aconteceu: a idolatria praticamente desaparece do registro arqueológico judaico. As figurinhas de Aserá, tão abundantes no período pré-exílico, somem após a volta dos exilados. O sofrimento da Babilônia parece ter cumprido aquilo que séculos de pregação profética não haviam conseguido.

Lições Espirituais das Provas da Idolatria

O conjunto das evidências bíblicas e arqueológicas oferece lições atemporais para o leitor moderno.

A primeira é a sutileza do sincretismo. A idolatria raramente entra pela porta da frente como uma rejeição aberta de Deus. Ela se infiltra como complemento, como aliança, como adição. Israel não trocou o Senhor por Baal, Israel adorou os dois. Foi exatamente esse sincretismo, mais do que o paganismo declarado, que os profetas combateram com mais energia.

A segunda lição é o poder de figura cultural. As figurinhas de Aserá eram pequenas, baratas, fáceis de produzir e de esconder. Ainda assim, multiplicaram-se aos milhares e influenciaram gerações inteiras. Pequenos compromissos repetidos, pequenas concessões cotidianas, são os caminhos pelos quais a idolatria entra em qualquer geração.

A terceira lição é o valor das reformas espirituais. Ezequias e Josias mostraram que é possível reverter, ainda que parcialmente, séculos de apostasia. As reformas exigiram coragem, decisão, demolição e reconstrução. Mas mostraram que Deus honra quem busca pureza no culto.

A quarta lição é a fidelidade do testemunho profético. Por séculos, críticos suspeitaram que profetas como Jeremias exageravam quando descreviam Judá repleta de altares idolátricos em cada esquina. A arqueologia, hoje, mostra que os profetas, se erravam, era por subestimar o problema, e não por ampliá-lo.

Conclusão: O Testemunho das Pedras

As provas da idolatria em Israel formam um dos casos mais consistentes de convergência entre Bíblia, história e arqueologia. Onde os textos sagrados denunciaram cultos pagãos, escavações trouxeram à luz altares quebrados. Onde os profetas falaram de figurinhas escondidas em casas, milhares de estatuetas surgiram do solo. Onde a Bíblia descreveu reformas religiosas radicais, fossas ritualísticas e templos desativados foram descobertos exatamente nos lugares e nos períodos esperados.

O testemunho das pedras não substitui o testemunho das Escrituras, mas o ilumina. Ao caminhar pelo deserto da Aravá, contemplar os fragmentos do templo edomita de Tamar reconstruídos no Museu de Israel, ou observar as matsevot de Tel Arad em sua câmara silenciosa, o estudante da Bíblia compreende, em carne e pedra, por que os profetas clamaram com tanta urgência. A idolatria não foi um problema antigo encerrado em livros antigos. Foi uma realidade física, quotidiana, doméstica e nacional, que exigiu intervenção divina, denúncia profética e, finalmente, o juízo do exílio para ser purgada.

Para o leitor de hoje, a lição é clara. Os ídolos do mundo moderno raramente são feitos de pedra ou bronze, mas operam pelos mesmos mecanismos: sedução cultural, conveniência política, sincretismo silencioso e compromisso doméstico. O alerta dos profetas, confirmado pela arqueologia, continua atual: a fidelidade ao Deus verdadeiro exige vigilância, decisão e, quando necessário, a coragem de demolir o que não pertence a Ele.

Notas de Rodapé

  1. Dever, William G. Did God Have a Wife? Archaeology and Folk Religion in Ancient Israel. Eerdmans, 2005, pp. 176-184. Estudo seminal sobre as figurinhas pilastra judaítas e seu significado cultual.
  2. Cohen, Rudolph; Yisrael, Yigal. "Smashing the Idols: Piecing Together an Edomite Shrine in Judah". Biblical Archaeology Review, vol. 22, n. 4 (jul-ago 1996). Relatório oficial das descobertas em Ein Hatzeva (Tamar bíblica).
  3. Aharoni, Yohanan. "The Israelite Sanctuary at Arad". Bulletin of the American Schools of Oriental Research, n. 222 (1976), pp. 5-17.
  4. Arie, Eran; Rosen, Baruch; Namdar, Dvory. "Cannabis and Frankincense at the Judahite Shrine of Arad". Tel Aviv Journal, vol. 47 (2020), pp. 5-28. Análise química dos resíduos de incenso nos altares de Tel Arad.
  5. Meshel, Ze'ev. Kuntillet 'Ajrud (Horvat Teman): An Iron Age II Religious Site on the Judah-Sinai Border. Israel Exploration Society, 2012. Publicação definitiva sobre as inscrições.
  6. Hadley, Judith M. The Cult of Asherah in Ancient Israel and Judah. Cambridge University Press, 2000.
  7. Bíblia Sagrada. Edição Almeida Revista e Atualizada. Sociedade Bíblica do Brasil. Referências a 1 Reis 11; 1 Reis 12:25-33; 2 Reis 17:7-23; 2 Reis 18:1-6; 2 Reis 23; 2 Crônicas 25:14; 2 Crônicas 34; Êxodo 20:1-6; Êxodo 32; Jeremias 2:28; Deuteronômio 16:21-22.
  8. Biran, Avraham. Biblical Dan. Israel Exploration Society, 1994. Relatório de escavação do santuário de Tel Dan.

Perguntas Frequentes

João Andrade
João Andrade
Apaixonado pelas histórias bíblicas e um autodidata nos estudos das civilizações e cultura ocidental. Ele é formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas e utiliza a tecnologia para o Reino de Deus.

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